Nos seis primeiros meses deste ano, cerca de 500 pessoas ficaram feridas por causa de acidentes de trânsito ocorridos em Franca. No mesmo período, os acidentes de trânsito mataram 19 pessoas nas vias públicas da cidade.
Não é difícil explicar as causas desta matança no trânsito. Mais de 6,5 mil motoristas já foram multados este ano em Franca por excesso de velocidade. O limite máximo permitido na cidade é de 60 km/h. Condutores já foram flagrados pela Polícia Militar dirigindo a 150 km/h.
Velozes, furiosos e bêbados. Além de correr e de fazer barbaridades no trânsito, 816 motoristas foram pegos pela Polícia Militar dirigindo embriagados.
Os números que comprovam o mau comportamento do motorista francano foram apresentados por Régis Antônio Mendes, 44. Tenente Régis é o comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar e testemunha diariamente as loucuras cometidas pelos condutores nas ruas e avenidas de Franca. O policial recebeu o Comércio e detalhou trabalhos de prevenção e fiscalização realizados para tentar reduzir o número de mortos e feridos nas vias públicas da cidade.
Qual a explicação para tantos acidentes em Franca? Por que tanta gente morre nas ruas da cidade?
Sempre abordo estes assuntos nas palestras preventivas que fazemos nas escolas e empresas. Para entender as causas, é necessário analisar o comportamento do motorista de Franca em comparação com o de outras cidades. A frota de veículos no interior aumentou muito nos últimos dez anos. O trânsito de São Paulo há 10, 15 anos era, praticamente, o trânsito de hoje. A nossa realidade, no entanto, mudou muito. A frota de Franca aumentou cerca de 130% em 15 anos. Mas, ao mesmo tempo, percebemos que o comportamento dos condutores não mudou. As pessoas dirigem em Franca como se estivessem dirigindo em cidades pequenas. O cara para em fila dupla e fica conversando com os outros, não respeita a sinalização, não tira o olho do celular, dirige desatento e corre muito. Não há outra justificativa: temos que ter sempre em mente que a velocidade está diretamente relacionada com a letalidade.
Por que há tantos abusos nas ruas da cidade?
O erro está na nossa formação, é uma questão de falta de educação. Na cultura do Brasil, nós quebramos muitas regras. O problema está no ‘jeitinho brasileiro’ de sempre querer levar vantagem. Nós sempre buscamos atalhos. Cumprir normas e fazer as coisas certas, geralmente, dá mais trabalho. Infelizmente, no trânsito não é diferente. Via de regra, todo acidente de trânsito é precedido por uma infração de trânsito.
O motorista de Franca não potencializou esta mania nacional para o ‘jeitinho francano’ de dirigir?
Os números de Franca têm nos preocupado. As estatísticas de acidente de trânsito na cidade são ruins. No ano passado, segundo dados do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, levando em consideração um ranking formado por 71 cidades, nós éramos a segunda pior. Este dado mostra o quanto as regras de trânsito são desrespeitadas nas ruas de Franca.
Como o senhor avalia o comportamento do motorista de Franca?
A minha avaliação a respeito serve para definir, não só o francano, mas o motorista brasileiro em geral: ele é um motorista infrator. Infelizmente, este comportamento ao volante de desrespeito às regras leva a muitos acidentes, alguns deles, com vítimas fatais. No ano passado, foram registradas 55 mortes causadas por acidentes de trânsito em Franca. No mínimo em 50 acidentes, ocorreu uma infração de trânsito antes. Se a gente não cometesse infração, iríamos zerar o número de acidentes fatais.
Este ano, 6,5 mil motoristas já foram multados por excesso de velocidade nas ruas de Franca. O número comprova que o abuso é muito grande?
Sim. São motoristas infratores que estão transformando as nossas ruas em pista de corrida e que poderiam ter provocado graves acidentes. A velocidade máxima permitida em Franca é de 60 km/h, mas o limite não é respeitado. Já flagramos motorista dirigindo na avenida São Vicente a 150 km/h. Na Major Nicácio e na Presidente Vargas, flagramos motoristas a 130 km/h. Isto é um absurdo. As pessoas precisam ter a consciência de que o maior problema é a velocidade.
Com base nas estatísticas de acidentes feitas pela Polícia Militar é possível afirmar que a velocidade é a maior causa dos acidentes com mortes em Franca?
Acredito que sim. O grande vilão é a velocidade, lógico, que conjugada com outras infrações. Muitas vezes, além de o motorista estar correndo, ele também estava desatento ou embriagado.
Nos seis primeiros meses deste ano, a Polícia Militar flagrou 816 motoristas dirigindo bêbados. O que este número representa?
A situação é preocupante e reforça a necessidade de sempre estarmos fazendo a fiscalização com o etilômetro. Já encontramos garrafa de uísque dentro de carros que se envolveram em acidentes fatais. O motorista que atropelou e matou um andarilho na avenida José da Silva estava embriagado. Temos relatos de pessoas que se envolveram em acidentes fatais que tinham acabado de sair de festas. Resumindo, das 19 mortes registrados este ano no trânsito de Franca, em pelo menos cinco ou seis casos houve relação com uso de álcool. Por isto damos prioridade à fiscalização do condutor embriagado. A bebida também é um grande problema e tem relação direta com a letalidade.
A combinação explosiva entre velocidade e álcool explica a causa de tantas mortes no trânsito?
Exatamente. Temos um dado interessante que reforça isso. Cerca de 70% das mortes acontecem à noite, entre quinta-feira e domingo. É quando aumenta o movimento nos bares e começa o esquenta para o final de semana. Como o trânsito à noite é menos pesado e as vias estão mais livres, o motorista, que já bebeu, aproveita para correr. O reflexo desta imprudência está nos números.
A PM pretende ampliar a fiscalização para tentar conter os abusos dos motoristas infratores?
Estamos muito preocupados e atentos. São três fatores que promovem o trânsito seguro: educação, infraestrutura e o esforço legal, que é onde entra a fiscalização. Nós, da Polícia Militar, atuamos em duas frentes: fiscalização, fizemos quase 26 mil autuações este ano, e prevenção. Fazemos um trabalho importante de campanhas educativas e palestras em escolas e empresas. Durante a campanha Maio Amarelo, no mês passado, realizamos 22 palestras e atingimos um número grande de crianças. Este trabalho de conscientização é fundamental para ajudar a formar o motorista do futuro. Em agosto, vamos desenvolver a ação Pipa sem Morte, em parceria com a Secretaria de Educação do município, em que vamos abranger as crianças de 4º e 5º ano de toda a rede municipal.
O que vem a ser a campanha Pipa sem Morte?
A iniciativa terá o objetivo de conscientizar as crianças a não usarem a linha com cerol. No mesmo momento, vamos falar sobre trânsito, pois o ambiente usado para soltar a pipa é a via pública, a praça, o campinho, o local público. Quando está na rua soltando pipa, a crianças correm o risco de serem atropeladas, pois ficam distraídas. Com a campanha, vamos passar a mensagem para tentar evitar o acidente com o uso do cerol e o acidente de trânsito.
As ruas de Franca são bem sinalizadas?
Acredito que sim. Estamos sempre viajando e fazemos comparações com outras cidades. Classifico Franca como uma cidade bem sinalizada.
O senhor é favorável à implantação de lombofaixas nas vias públicas?
Nos locais onde há redutores de velocidade, e que muitas pessoas criticam, praticamente zerou o número de acidentes fatais. Um exemplo é a avenida Paulo VI. Este ano, houve um acidente fatal na parte de cima da via próximo à escola, mas, na parte de baixo, onde três jovens morreram há alguns anos e morreu um motociclista no ano passado, depois que foi colocada uma lombofaixa, acabaram os acidentes graves. Outro exemplo que pode ser citado é o trecho da avenida Santos Dumont, próximo ao cemitério Jardim das Oliveiras, onde morreram três pessoas nos últimos anos. Depois que foi instalado um redutor no local, não teve mais acidente fatal.
O senhor defende a implantação de radares de velocidade fixos?
Qualquer equipamento que venha para auxiliar na fiscalização do trânsito é bem-vindo e vai impactar de forma direta na redução do número de acidentes. Por isto, sou favorável.
Franca tem indústria de multa ou indústria de abuso?
Sempre falo nas nossas palestras que a fiscalização de trânsito é a indústria da vida. Um conhecido meu tomou três multas em um mês e meio por não usar o cinto de segurança. Ele veio reclamar indignado e disse que não estava mais aguentando pagar as multas e que teria que passar a usar o cinto. Eu apresentei dados estatísticos para ele e disse que, a partir de agora que decidiu passar a usar o cinto, o risco de ele morrer vítima de acidente de trânsito reduziu em 50%. Se o passageiro estiver no banco de trás, o uso do cinto reduz em até 70% o risco de morte. As pessoas seguem algumas regras pelo motivo errado. Temos que usar o cinto, não por causa da multa, mas porque é um equipamento que pode salvar nossa vida. Temos que parar de dirigir bêbados porque posso me machucar ou matar alguém e não porque corro o risco de tomar uma multa de R$ 3 mil e ficar um ano sem poder dirigir.
Não vai deixar de usar a cadeirinha porque não é mais obrigado...
De maneira alguma. A cadeirinha garante a integridade física do meu filho. Sou contra a mudança da lei e acho que tem que continuar sendo obrigado, pois os pais irresponsáveis, por força de lei, vão fazer o uso do equipamento de segurança.
O senhor tem notado uma mudança de comportamento do motorista em relação ao uso do celular. O que mudou?
Há alguns anos, o motorista usava o celular na orelha só falando. Com o surgimento das redes sociais, passou a segurar o aparelho e navegar enquanto dirige. Nestes casos, não precisamos abordar para fazer a autuação. Hoje, para tentar escapar da multa, os motoristas estão escondendo o celular na perna ou no banco para que o policial não veja o aparelho. Com isto, estão dirigindo com a cabeça baixa. Há poucos dias, perto aqui do Batalhão, parei a viatura ao lado de um motorista que estava na via pública navegando no celular. Ele estava atrapalhando o trânsito e só percebeu a minha presença quando eu já tinha acabado de anotar a placa dele.
O uso do celular também é uma das principais causas de acidente no mundo, pois distrai a atenção do motorista. Uma fração de segundo é o suficiente para provocar uma tragédia. Não tem que esconder o aparelho para não ser multado. O que não pode é usar enquanto dirige. Se a ligação é urgente, estacione e atenda. Há 20 anos, quando não havia celular, as pessoas ligavam em nossas casas e deixavam recado. Só iríamos ficar sabendo à noite, horas depois. Hoje, as pessoas não conseguem esperar três, cinco, dez minutos. Qual é a média de trajeto que fazemos no trânsito de Franca? Em 20 minutos, conseguimos atravessar a cidade. A média de trajeto gira em torno de dez minutos. Dá ; para esperar para checar o celular.
Qual mensagem o senhor gostaria de passar para os motoristas?
Tem que respeitar a lei. As pessoas precisam seguir as normas de trânsito pelos motivos certos. Isto, vale para todos os setores.A criminalidade é reflexo do não cumprimento das leis. Temos a cultura de quebrar regras. No trânsito, este desrespeito provoca acidentes e mortes. Temos que passar a seguir as normas porque é o correto a ser feito e não porque vai dar multa. É preciso mudar o comportamento no trânsito porque podemos matar ou morrer. Nossa sociedade não está muito preocupada com o próximo e precisa rever suas atitudes antes que o mal aconteça. O motorista tem que andar devagar para garantir a integridade física dele e de terceiros.
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