O prédio de arquitetura simples e discreta e ainda no centro da cidade, é cenário de ora doces, ora amargas, ora delicadas recordações, também ora alegres, ora tristes. Construído no final dos anos 30, ao longo do tempo perdeu o jardim da frente cheio de roseiras, sem grandes obstáculos a separá-lo de transeuntes ou invasores. Perdeu a lateral da esquerda, transfigurada em salas de aula. Invadiu o terreno ao fundo e fez derrubar imensa árvore. Se tomaram dos namorados romântico espaço, estudantes ganharam quadra de esportes. Imenso pátio foi alterado para área de abrigar alunos. Perdeu o fundo, que virou caixotão de salas próprias para aulas. Mas a frente hoje, atrás de altas grades e alguns outdoors, é a mesma daqueles tempos. O grande portão de madeira da entrada, logo atrás da escadaria ainda se abre e permite que alunos e professores, atuais e antigos, passem por ele em busca de informações e conhecimento. No começo era Escola Profissional. Ali se aprendia, entre outras, a arte de transformar metais e madeira, bordar, fazer flores artificiais.
A escadaria, imponente, mas não constrangedora, foi palco de muitas histórias. Cenário de fotografias do corpo docente, do corpo discente em poses de gala por ocasião das formaturas, guarda ainda o desespero e os gritos de socorro da mãe, que morava em frente ao prédio, grávida de nove meses, subindo por ela em busca de socorro, com criança de ano e pouquinho nos braços, desfalecida por causa de moeda entalada em sua garganta. A mãe, com a força que só mães têm, subiu os degraus, desmaiou, rolou escada abaixo. A menininha foi salva e o garoto, que nasceria pouco depois, veio com imensa bolha de sangue no canto da boca, provocada pelo tombo da mãe, queda responsável pela paralisia facial que lhe rendeu o apelido de “Boca Torta” enquanto viveu e nunca esquecido porque os coetâneos são da geração que ainda acha o “bulling”, como se chama hoje a materialização da crueldade infantil, “brincadeira de garotos”. A menininha era Maria Helena, o garotinho se chamava André Luiz, a grávida se chamava Clara e era minha mãe.
Muitos francanos que pisam a calçada da ETEC Júlio Cardoso de Franca, sequer imaginam o quanto aquelas laterais, muros, escadas e paredes guardam de sua própria história, porque em algum momento pessoas do seu passado, podem dar referências sobre o prédio, ou seus fantasmas... A vida é ciranda e, nós, pequenos elos da grande teia de relacionamentos e histórias.
Todo final de ano, havia exposição dos trabalhos executados pelos alunos com a supervisão dos professores. A Carpintaria expunha e colocava ao alcance da população peças raras, trabalhadas com esmero, com madeiras selecionadas e designs originais. Por esta escola, como professores e funcionários, passaram nomes e personalidades, gente que ajudou a construir Franca. Nenê Ewbank Seixas, dr. Baldijão Seixas, Margarida Taveira, d. Maria Cunha (Flores), Ruth Cilurzo, Minoru Utuni, Olga de Faria, Sétimo Bolela, Antonieta Miglioranza, Hélio Andrade Pinto, Evaristo Fabrício, Ivo (da Mecânica), Alberto Rezende (diretor), Paulo Costa, Bento da Silva Leite Filho, por exemplo. O rosário de ex-alunos é imenso e constituído de profissionais bem sucedidos. Grandes tempos!
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