O número de cervejarias artesanais e caseiras vem aumentando tanto em Franca. que chamou a atenção da Acif (Associação de Comércio e Indústria de Franca) e, há cerca de um ano, o Programa Empreender criou o Núcleo dos Cervejeiros da associação. “Percebemos um momento crescente de interesse na cerveja artesanal e vimos que havia muita gente querendo formalizar a produção”, disse o gestor do programa, Jaider Silva. Hoje há 12 membros no núcleo, dentre donos de cervejarias profissionais e cervejeiros caseiros, que têm a intenção de formalizar o negócio. Eles se reúnem quinzenalmente para discutir o que a classe ainda precisa para se estabelecer.
Produzir cerveja e abrir uma cervejaria é um processo que leva muito tempo, dedicação, estudo e investimento. Aprender a receita e o como produzir é provavelmente a etapa mais simples. É o que afirma o servidor público Vicente Luiz Costa, de 57 anos. “Eu te ensino a fazer em 10 minutos, mas se você vai fazer alguma coisa que preste e, principalmente, se for para comercializar, aí se torna uma das coisas mais difíceis do planeta de fazer.” Além das técnicas e equipamentos adequados, a limpeza é fundamental. “Não pode ser 99%, tem que ser 100% de sanitização”, revela. Vicente começou a produzir cerveja como hobby há 3 anos, mas a curiosidade em fazer a bebida surgiu ainda na infância. “Desde criança eu vejo minha família beber cerveja e achava que era o maior barato a pessoa produzir a própria.” Os estudos começaram com livros e depois com cursos cervejeiros. A primeira produção de Vicente foi levada em forma de chopp para uma festa de amigos. A bebida foi aprovada e os pedidos começaram a chegar. No começo, o cervejeiro produzia 20L a cada 45 dias e hoje a produção chega a 120L por mês e é praticamente toda vendida. Mas o início ainda não é um negócio estável. Ele já investiu mais de R$14 mil em equipamentos, insumos, embalagens e estudos, além do registro da marca. O lucro também não é garantido, a produção caseira de uma garrafa de 500ml chega a custar quase R$ 8, vendida entre R$13 e R$18. Vicente confessa que o valor cobrado é cerca de R$ 10 a menos que valeria o trabalho, mas ele investe na qualidade da cerveja. “Quero estabelecer a receita ideal [...] Agora não é hora de pensar em lucro, depois que tiver estabelecido eu penso nisso.”
E todo cuidado é pouco ao começar no mercado de cervejas artesanais. Para ter uma cervejaria oficial é preciso ter um registro do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). O documento demora para ser retirado e é preciso atender a uma série de requisitos relacionados à produção, à sanitização e ao espaço onde a cerveja é produzida. Uma burocracia que Vicente acha necessária e pretende investir futuramente e que construtor Rafael Mulinari dos Santos, 31, começou a fazer esse ano. Ele já está no processo para tirar o MAPA há 3 meses e sabe que ainda vai levar tempo. Além de comprar os fermentadores, tinas e demais equipamentos capazes de produzir 5 mil litros por mês, a cozinha está em reforma para atender às leis, um investimento que já passou dos R$ 300 mil. Mas a intenção é fazer disso um negócio. Além de produzir a própria marca, Rafael vai alugar o espaço para os cervejeiros chamados ciganos.
‘Produção cigana’ é aposta
O termo cigano é utilizado para descrever aqueles que usam espaços de outros cervejeiros. Essa foi a forma que os sócios Wesley Souza e Fábio Pini aderiram para atender à demanda de clientes na Feitoria da Cerveja. Depois de 10 anos de cervejeiro como hobby, Wesley começou o negócio com uma loja de insumos para produtores. Flávio, que também fazia cerveja em casa, viu potencial na sociedade e eles investiram em um pub onde servem as cervejas que fazem acompanhadas de petiscos. Quando a demanda aumentou, apostaram na produção cigana. “A gente não consegui produzir aqui a quantidade que os clientes pediam [...] Hoje a gente vai a uma cervejaria, aluga todo o equipamento, produz lá a nossa receita, com nossos insumos e depois traz tudo para cá”, explica Fábio. “E a cervejaria tem o MAPA, através disso a nossa cerveja sai com registro também”, complementou o sócio. A dupla já lucra com a cervejaria e investem em criar receitas novas para manter o menu variado. Wesley deixou de dar aulas de matemática e Fábio deixou o comércio de sapatos para se dedicarem totalmente ao negócio. Além do pub e da venda de insumo a outros produtores, eles oferecem cursos relacionados à produção e até à consumação de cerveja artesanal.
Apesar de não haver um registro oficial de quantos cervejeiros atuam em Franca, a ACIF entende que a cultura da cerveja artesanal só tende a crescer. “Tem demanda e procura pelo produto e pela formalização da produção. A tendência é popularizar cada vez mais”, afirmou Jaider.
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