Ele não tolera a criminalidade, já foi alvo de rajada de tiros de fuzil e tombou assaltante em confronto. Ele também se emociona e chora ao lembrar do pai, o grande incentivador de sua carreira.
Marcus Alexandre Moraes de Araújo, 50, chegou em Franca no dia 3 de junho de 1996, vindo de Barretos, sua cidade natal. Nunca havia sequer passado perto da cidade.
Incentivado pelo pai, Francisco Batista de Araújo, que serviu à Polícia Militar por três décadas, ele também havia ingressado na PM e se apresentou no 15º Batalhão como segundo tenente. Ao chegar, disse para si mesmo: ‘um dia, ainda vou comandar este Batalhão’.
O então tenente Araújo fixou residência em Franca. Um ano após chegar à cidade, conheceu Viviane. No ano seguinte, já estavam casados. O nascimento da filha, em 1999, reforçou ainda mais os laços com a cidade.
Formou-se em Ciências Policiais em Segurança e Ordem Pública na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, estabelecimento de ensino superior localizado em São Paulo. Também é bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca. Ao longo dos anos, Araújo foi galgando promoções na carreira e passou por todos os postos de oficiais no Batalhão.
No último dia 24 de maio, foi promovido à patente de tenente-coronel. Dez dias depois, atingiu a meta que havia estipulado quando chegou na cidade há 23 anos e tornou-se comandante do 15º BPMI. É o chefe da Polícia Militar em Franca mais outras 22 cidades da região. Comanda uma tropa formada por mais de 700 policiais, sendo 450 em Franca.
O tenente-coronel recebeu o Comércio para contar sua história e falar dos desafios em comandar a Polícia Militar na região de Franca.
Quando chegou em Franca, ainda jovem, no início de carreira, imaginou que um dia iria se tornar o comandante do batalhão?
Sim. Quando cheguei, eu disse: “um dia vou ser o comandante daqui”. Quando assumo algum trabalho, sempre me dedico para ser o dirigente daquele local e contribuir para a sua melhoria. Quando ficou bem próximo da minha promoção, a possibilidade de eu assumir o Batalhão era muito grande, mas não havia certeza absoluta. Talvez, eu fosse promovido em maio, mas voltaria para Franca só em agosto. Pedi ao comando regional que, se não houvesse a possibilidade de eu ficar em Franca neste primeiro momento, que eu gostaria de ir para Barretos, pois é minha terra natal, já trabalhei lá por duas oportunidades e meu pai, que já é falecido, foi um dos fundadores do Batalhão. Seria uma honra para meu pai eu colocar minha foto no quadro de comandantes do Batalhão. Mas Deus encaminhou da melhor forma possível. O coronel Fabris, que comandava o Batalhão de Franca, foi promovido para Ribeirão Preto no final de abril. Ainda como major, assumi o comando interino do Batalhão em seguida. No dia 24 de maio, fui promovido a tenente-coronel. No dia 5 de junho, foi publicada no Diário Oficial do Estado a minha classificação como comandante titular do Batalhão.
Qual foi a sensação de saber que o objetivo de assumir o comando havia sido atingido?
É uma satisfação pela promoção e também por saber que o trabalho de 23 anos que realizamos em Franca foi reconhecido. É um momento muito emocionante.
O senhor ganhou projeção em Franca ao comandar a equipe de Força Tática, que é preparada para preservar a ordem pública e reprimir o crime organizado. Como foi essa experiência?
A Força Tática foi o período em que mais trabalhei em Franca. Iniciei na companhia como segundo tenente, fui capitão e comandante. Acredito que, desde a criação da Força Tática, eu tenha sido o capitão que ficou mais tempo no comando.
Foi como integrante da Força Tática que o senhor participou de uma das ocorrências de maior repercussão já registradas na região, que foi o combate aos criminosos que haviam explodido e roubado agências bancárias em Patrocínio Paulista. Houve troca de tiros, prisões e morte de bandidos. Como foi a experiência?
Essa ocorrência foi um momento ímpar na minha carreira. Era o dia 31 de maio de 2011. Nunca vou me esquecer. A Força Tática é a tropa de operações especiais que o comandante tem em mãos para atuar em todos os 23 municípios do Batalhão e está sempre de prontidão. Fomos acionados de madrugada, pois haviam ocorrido explosões de caixas eletrônicos. Uma parte da quadrilha havia trocado tiros com policiais e se escondido em um canavial em São José da Bela Vista. Nosso serviço de inteligência constatou que os demais criminosos estavam escondidos em uma casa no jardim Elimar em Franca. Eles estavam fortemente armados com fuzis e metralhadora. Fizemos um planejamento para ocupar o imóvel, isolamos o local e acionamos o apoio do helicóptero Águia. Minha grande preocupação era evitar que inocentes pudessem ser feridos. Era horário em que os pais estavam levando os filhos para as escolas. Foi uma ação de grande risco. Graças a Deus, os cidadãos de bem e os policiais saíram ilesos. Três bandidos resolveram partir para o enfrentamento, foram atingidos e morreram. Outros três foram feridos e socorridos. Dois se entregaram sem reação.
O senhor matou algum criminoso na ação?
Sim. Tive a participação sobre o primeiro assaltante. Nós havíamos colocado a viatura de ré em frente ao portão da casa para que eles não fugissem. Mesmo assim, dois assaltantes forçaram o portão e tentaram arrastar a viatura. Eu estava do lado direito da casa. Quando ele me viu, começou a atirar em minha direção. Levei uma rajada de fuzil e senti o deslocamento de ar e o barulho que a munição faz. Me abriguei e vi que o indivíduo estava de colete à prova de balas e com um fuzil nas mãos. Não tive dúvidas em disparar contra ele para a preservação da minha vida e dos demais policiais.
Essa experiência pode servir como um recado da Polícia Militar aos criminosos que, se vierem para o enfrentamento, haverá forte reação?
Nossa intenção não é propagar enfrentamento. Os casos de enfrentamento na nossa região são baixos. Somos muito legalistas aqui. Se a pessoa atender a determinação do policial de não reagir, de abaixar a arma e se entregar, a vida dela será preservada. Quem escolhe o confronto não é o policial, é o infrator da lei. A alternativa de escolher o confronto não é do policial, é do criminoso. Ele escolhendo essa opção, vamos tentar imobilizá-lo e cessar a injusta agressão. Não vamos dizer: ‘o bandido chegou em Franca e vai morrer’. A pessoa será presa. Se resolver partir para o confronto, todas as técnicas policiais serão utilizadas para neutralizar a ação criminosa.
A Polícia Militar está preparada para enfrentar o crime organizado?
Estamos preparados para o enfrentamento, sim. Nossa tropa passa por constantes treinamentos e temos recebido vários fuzis do governo do Estado. Em razão disto, vemos claramente que as ocorrências de explosão de caixas eletrônicos na nossa área reduziram.
Como o senhor se define como policial? Linha dura ou aberto ao diálogo?
Sou um profissional de segurança legalista, que sempre cumpre a lei. Não tenho tolerância com a criminalidade. Isto não quer dizer que eu seja linha dura. Só acho que, havendo o crime, se falhamos na prevenção, temos que aumentar a sensação de segurança e a presença da polícia para evitar que novos crimes aconteçam. Implantamos no Batalhão uma sala de georreferenciamento dos crimes ocorridos e temos tido sucesso na prisão de muitos marginais.
Como o senhor avalia os índices de criminalidade em Franca?
Há um bom tempo estamos reduzindo todos os índices criminais na cidade, inclusive, na semana passada foi lançado no nosso sistema de pagamento de bônus referente ao desempenho que obtivemos no quarto trimestre. Novamente, o Batalhão de Franca ficou entre os dez do Estado que mais reduziram índices criminais no período.
Onde é preciso melhorar?
Temos um desafio grande que é o de manter estes índices, o que é difícil. Estamos muito próximos da meta estipulada pela Secretaria de Segurança Pública. Fazemos reuniões semanais de análise crítica e verificamos o que está acontecendo e onde está havendo problema. Temos um mapa geral do crime e direcionamos nossa força de reação para os focos de incêndio.
Qual a modalidade de crime que mais preocupa?
Os crimes que mais preocupam são o homicídio e latrocínio, que têm letalidade violenta. São vidas que estão sendo perdidas. A maioria das ocorrências é de violência doméstica e feminicídio. É, praticamente, impossível fazer a prevenção deste tipo de crime, pois ocorre dentro de casa. Outra preocupação é o tráfico de drogas. Todos os dias temos ocorrência do tipo. O combate é prioridade, pois o tráfico é o motor do roubo e do furto, é o motor do crime organizado. Também estamos atentos aos casos de furto à residência e trabalhamos para combater a ação dos criminosos. Uma ferramenta que estamos buscando e incentivando são as vizinhanças solidárias. Um dos pilares da primeira fase da minha gestão é o incremento dos grupos de vizinhança solidária. Os vizinhos se auto ajudam e isto funciona bem. Precisamos conscientizar os moradores do entorno que segurança é responsabilidade de todos.
Qual é a carência da Polícia Militar?
A defasagem do nosso efetivo é considerável. Precisamos de mais policiais. Em todo o Batalhão, temos uma média de 20% de defasagem no efetivo. Temos 14 grupamentos de polícia na região cujo efetivo é de 11 policiais cada. A escala é de 12 horas e são dois policiais por viatura. Não posso deixar faltar um policial lá. Se faltar, a viatura não roda. Então, completamos o efetivo das cidades menores em detrimento de Franca. Mesmo com menos gente do que o necessário em Franca, conseguimos manter os índices dentro de um padrão aceitável.
Qual é o horário de pico da polícia?
Normalmente, ocorre na parte da tarde. A partir das 15 horas, parece que a marginalidade acorda. O horário crítico de muito movimento e ocorrência vai até o começo da noite, nove, dez da noite. Isto, durante a semana. Sexta e sábado, é a madrugada toda.
O comandante da PM consegue dormir?
Ele tenta, né? Tenho dois celulares e eles estão sempre ligados. A arma também está sempre por perto.
Quando chegou em Franca, sua meta era chegar ao posto de comandante. O que pensa a partir de agora?
Penso em não decepcionar os meus policiais e a comunidade. Peço a Deus que me ilumine em minhas decisões. Não penso em outros postos. O comando é o máximo que posso atingir. Já tenho 30 anos de polícia. Desde julho de 2015 eu poderia me aposentar, mas resolvi chegar onde sempre almejei. Posso ficar mais cinco anos no cargo. Não sei se vou ficar este tempo todo. Minha ideia é fazer um sucessor que, efetivamente, trabalhou e que conheça o Batalhão como eu. Vou ficar o tempo necessário para que eu possa passar o comando para uma pessoa que fez carreira no Batalhão. Uma pessoa que fez carreira aqui e que foi muito injustiçada é o coronel Benedito. Tenho ele como exemplo, é do bem e se dedicou totalmente à carreira. Se tem uma pessoa que mereceu comandar mais o Batalhão do que o coronel Benedito, eu não conheço.
Quando olha para trás e recorda os 30 anos de carreira como policial, avalia que valeu a pena?
Demais. É um orgulho. Meu pai morreu no Natal de 2013 (neste momento, Araújo não segura a emoção e chora). Queria muito que ele me visse nesta fase da minha carreira. Queria que ele soubesse que o filho dele atingiu os objetivos. Mas tenho certeza de que ele está me acompanhando lá de cima.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.