A eterna busca por equilíbrio


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O mensalão existiu. Deputados venderam, sim, votos para apoiar o governo durante o governo Lula. Envolvidos foram condenados por isso. É inegável que a Petrobras se transformou, sim, em um poço de corrupção que alimentou partidos e políticos durante anos. Delatores, documentos, apreensões não deixam dúvidas. Malas de dinheiro sujo em apartamentos de corruptos, dólares em paredes e até em cuecas não são uma abstração. E é muito difícil imaginar que a Odebrecht doou dinheiro a políticos e partidos só por seu bom coração. Está mais que claro. O ex-presidente Lula não é um herói. A ex-presidente Dilma não é uma vítima. Mas também, nem de longe, são os vilões na história das relações humanas da política brasileira. A política no Brasil se perdeu na dualidade do bem contra o mal, da esquerda contra a direita, dos “bolsominios” contra “esquerdopatas”. Mas, basta cinco minutos de alguma reflexão para se notar que, na vida, não existem mocinhos e bandidos. Apenas seres humanos. Com falhas e virtudes.

A maior prova da realidade, de que mesmo em quem se veste a capa de herói, a condição humana prevalece, foi dada na última semana pela revelação das conversas entre o ex-juiz Sérgio Moro e integrantes do Ministério Público, como o promotor Deltan Dallagnol. Diante de todas as complexidades humanas, com o passar das gerações e a evolução do pensamento, ficou claro que a ideia do “olho por olho” não funcionaria, que seria preciso um sistema de julgamento o mais equilibrado possível. Onde o juiz seria o fiel da balança, observando os argumentos de todos os lados e, só depois de uma análise imparcial sentenciaria a qual parte caberia a razão. Só um componente é um problema na equação: o humano. Sérgio Moro que o diga.

O fato é que o hoje ministro quebrou um equilíbrio fundamental da nossa sociedade ao se aproximar mais de uma parte, ao debater detalhes do processo e a antecipar movimentos que faria. Afinal, Moro não é herói. Tampouco vítima. Na sexta, depois de dias em que não negou ter trocado mensagens com o MP e sustentar que não havia nada de errado nelas, ele começou a admitir que foi um “descuido”. “Nós lá na 13ª Vara Federal, pela notoriedade das investigações, recebíamos várias dessas por dia. Recebi aquela informação e, aí assim, vamos dizer, foi até um descuido meu, apenas passei pelo aplicativo. Mas não tem nenhuma anormalidade nisso. Não havia nem ação penal em curso”, disse durante o lançamento da operação de segurança da Copa América.

É claro que juiz nenhum deveria se aproximar mais de uma parte, determinado a condenar a outra. Mas não é possível afastar os fatores humanos em nada. Presidentes falham. Juizes, também. Cabe a evolução da sociedade cobrar para que todos sejam responsabilizados na exata medida dos seus atos.
 

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