Eles dormiram médicos, acordaram desempregados. O estetoscópio, o aferidor de pressão e o jaleco branco foram guardados em uma mala. Deram lugar a vassouras, avental e panelas. Há poucos meses, a missão era salvar vidas. Hoje, vendem marmitas e fazer bicos como faxineiros e garçons para garantir o sustento. Afirmam ser vítimas de preconceito e de xenofobia. Não podem voltar ao país de origem e são impedidos de trabalhar no Brasil.
A realidade acima faz parte da rotina de quatro médicos cubanos que moram em Franca. Até o final do ano passado, eles atuavam como clínico geral em Restinga, por meio do Programa Mais Médico.
Os doutores Ariel Garcia Tamayo, 33, e Eduardo Alexander Hernandez Ajete, 37, chegaram à região de Franca em março de 2014. Junet Qrespo Cabello, 29, e Nairobi Hernandez Cuesta, 33, se juntaram a eles em 2017. Em pouco tempo, conquistaram o respeito e admiração dos pacientes que precisavam de cuidados médicos em Restinga.
Fizeram planos e compromissos financeiros. Recebiam em torno de R$ 3 mil, um alto salário comparando-se com os cerca de R$ 200 mensais que receberiam se estivessem trabalhando em Cuba.
Em uma noite de novembro de 2018, a situação de aparente conforto virou de ponta cabeça. De médicos respeitados, entraram para a fila de desempregados. A explicação para a reviravolta foi a decisão do governo cubano de sair do Mais Médicos por causa da vitória de Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência da República. Ainda quando era candidato, Bolsonaro questionou a formação dos profissionais cubanos e os termos do acordo que havia sido firmado entre a então presidente Dilma Rousseff (PT) e o governo de Cuba. Dos R$ 11 mil pagos pelo governo brasileiro, apenas R$ 2.976.26 ficavam para os médicos. O restante, era retido pelo governo socialista de Cuba.
A decisão deixou mais de 8 mil médicos cubanos diante do dilema de voltar à ilha ou ficar no Brasil - e, neste caso, ser considerado desertor pelo governo de seu país. Cerca de dois mil médicos decidiram ficar no Brasil.
Ariel e Eduardo se casaram com brasileiras e obtiveram residência permanente no Brasil. Junet e Nairobe resolveram desertar e pediram refúgio, ainda não concedido, ao Brasil. “De uma hora para outra, fomos impedidos de continuar trabalhando como médicos, pois temos que fazer o Revalida (prova que verifica conhecimentos específicos do profissional na área médica e valida o diploma). Não há uma previsão de quando o exame será feito”, disse Ariel.
Doutor Eduardo disse estar revoltado com o presidente Jair Bolsonaro. “A gente se sente enganado pelo governo brasileiro. Bolsonaro disse que iria conceder asilo e regularizar a situação profissional dos médicos cubanos que quisessem ficar no Brasil. Disse que poderíamos trazer a família e que iríamos receber o salário inteiro. Nós acreditamos, mas o presidente não cumpriu a promessa”. Ele disse não acreditar no que está acontecendo. “Fomos médicos aqui por cinco anos e nunca tivemos problemas. Não é possível que deixamos de ser médicos só porque o contrato acabou. Enquanto somos impedidos de trabalhar, a população sofre com a falta de médicos nas unidades de saúde”.
Os médicos cubanos não podem mais exercer a profissão e não conseguem arrumar outro emprego para se manterem. “Nós ficamos esquecidos. Nem cesta básica recebemos. Temos contas para pagar e precisamos de emprego”, disse Junet.
Na tentativa de levantar algum dinheiro, os médicos começaram a vender marmitas de comida na casa em que moravam em Restinga. Por coincidência, vender comida em casa era uma das poucas atividades que podiam fazer em Cuba, desde que pagassem imposto para o governo. A doutora Junet tem feito bicos como garçonete em um bar de Franca. Durante 15 dias, os médicos integraram uma equipe de limpeza contratada para fazer faxina no prédio que abrigará a futura sede da Receita Federal em Franca. Cada um, ganhou R$ 70 por dia.
Há um mês, os médicos abriram um pequeno restaurante no Bairro Santa Efigênia, em Franca, onde eles preparam a comida, inclusive, pratos típicos de Cuba. Têm como clientes pacientes que tratavam em Restinga. “O movimento ainda é pequeno e não temos lucro, mas estamos todos aqui, um ajudando o outro. Somos como irmãos. Se não for entre nós, não temos a ajuda de outras pessoas. Precisamos trabalhar”, disse Ariel. “Trabalhei como garçom em um bar de rock em Franca. Os clientes estranhavam meu sotaque e perguntavam de onde eu era. Quando descobriam, não acreditavam que uma médica estava trabalhando como garçonete. Eu ficava com muita vergonha”, completou Junet.
Ariel conta que já entregou currículo em vários lugares em Franca, mas que não foi procurado por ninguém. “Para um médico cubano, arrumar emprego é difícil. Primeiro, acham que vamos querer muito dinheiro, mas não é verdade”. O doutor prosseguiu. “Já fizemos até faxina, aceitamos qualquer trabalho, mas meu sonho é ser médico. Meu sonho sempre foi este. Estudamos seis anos para nos formar, depois mais três de especialização e ficamos chateados por ter que passar por esta situação”. Junet chama a atenção para outra situação enfrentada por eles. “Há preconceito e xenofobia contra o médico e contra o cidadão cubano”, disse ela.
Eduardo deu mais sorte que os colegas e conseguiu um cargo de secretário de Saúde em São José da Bela Vista. Os demais médicos cubanos seguem a procura de um emprego. “Não viemos para o Brasil trazer o pensamento socialista comunista de Cuba. Não estamos envolvidos com política. Queremos apenas fazer o bem para a sociedade brasileira. Estamos dispostos a trabalhar como médicos em qualquer lugar do País que o governo precisar”, finalizou Eduardo.
APOIO
Governo federal diz que busca alternativas para médicos trabalharem
O Comércio da Franca questionou o governo federal sobre a difícil situação enfrentada pelos médicos cubanos que estão desempregados no Brasil e impedidos de voltarem para o seu país.
Em nota enviada à redação, o Ministério da Saúde informou que a estimativa é de que cerca de 2 mil médicos cubanos ficaram no Brasil após o fim do contrato de cooperação com a Organização Pan-Americana da Saúde.
A pasta esclarece que uma ação integrada do Governo Federal está discutindo as soluções para auxiliar a permanência desses profissionais no Brasil e alternativas para o seu exercício profissional.
O Ministério da Saúde afirmou que não é o responsável pelo Revalida, cuja organização é de responsabilidade do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). “Entretanto, a pasta apresentará uma proposta ao Ministério da Educação para o processo do Revalida”, informou a nota.
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