Mutirão do Emprego expõe desespero de desempregados


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Fila dominou a Praça Central na última quinta-feira
Fila dominou a Praça Central na última quinta-feira

 O PAT de Franca, em conjunto com o Senai, o Senac e o Sebrae, organizou na última terça-feira, 7, um Mutirão do Emprego, na Praça Nossa Senhora da Conceição. Mais de 4 mil desempregados formaram uma fila ao redor da praça em busca de um trabalho. Mas o que parecia esperança virou uma confusão. Das 444 vagas divulgadas, 330 eram para motorista para uma empresa de Guará, que exigia 6 meses de experiência. Além disso, a maioria de quem ficou pelo menos 3 horas na fila achou que passaria por algum tipo de processo seletivo, mas o evento estava apenas recebendo currículos e fazendo cadastros. Quem já era cadastrado no PAT, acabava sendo dispensado.

Apesar da falta de clareza na divulgação e organização do evento, o que ficou escancarado foi a realidade que assombra Franca, a geração de emprego está baixa. No fim de abril, dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) mostraram que o primeiro trimestre de 2019 teve o pior índice de oferta de empregos dos últimos 10 anos em Franca. Além disso, a indústria calçadista gera menos emprego a cada ano. Em dezembro de 2018, uma pesquisa do Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca) indicou que em 5 anos, mais de 11 mil pessoas foram dispensadas do setor.

É o caso de Adair*, 53, que foi demitido com outros 67 funcionários, em setembro do ano passado, quando a fábrica em que trabalhavam fechou. Morando com a esposa e duas filhas, precisou aceitar uma situação que não agrada: a filha de 27 anos é única que trabalha e pode ajudar com as contas. “Isso não é do meu ego, mas não tem jeito”, lamentou. Para diminuir gastos, a família cancelou assinatura de internet e TV a cabo. Adair usa a bicicleta sempre que pode e pensa em vender o carro se não conseguir um emprego logo. Com 33 anos de experiência como acabador, ele agora se arrisca em outras profissões. Já fez entrevista para ser porteiro e frentista, mas geralmente as vagas são temporárias. Para ir ao Mutirão, ele e mais quatro vizinhos dividiram a gasolina do Jardim Cambuí até o Centro, mas ao descobrir que a fila o levaria a fazer apenas um cadastro, ficou desanimado. “É um descaso. A gente desanima. Eu tive que escolher entre colocar crédito no celular ou vir pra cá”, contou.

E ele não é o único, Drielly Tuanny Santos Caetano, de 29 anos, também tem experiência em preparação de calçados desde 2012, mas agora se dispõe a qualquer área. “Sou sozinha, tenho meu apartamento ‘pra’ pagar e me sustentar. Não estou podendo escolher”, revelou. Com graves crises de depressão, Drielly foi afastada da fábrica onde estava em período de experiência em fevereiro. Ela recebeu auxílio doença por cerca de um mês mas, agora, ainda em tratamento, precisa voltar a trabalhar. “Ainda tenho crises. Porém não passei na segunda perícia. Meu médico aumentou as doses do remédio para ver se eu controlo ao menos a ansiedade pra eu conseguir trabalhar.” No dia do Mutirão, desistiu da fila, porque já tem cadastro no PAT. “Se tivesse algo pra mim, já teriam me ligado. Eu nunca arrumei serviço pelo PAT, nem por agência. O negócio é ter quem indica ou caminhar todos os dias entregando currículos sem desistir.” Pâmela Aparecida Silva também tem 29 anos e experiência com sapatos. Depois de 2 anos na mesma fábrica, foi uma das 10 funcionárias dispensadas em um corte de gastos, em maio de 2018. Com alguma experiência em panificação, já deixou currículo em todos os supermercados que conhece, mas agora está disposta a qualquer oportunidade para ajudar nas contas da casa que divide com a mãe no City Petrópolis.

Joana*, 41, também já desistiu do setor calçadista depois que a indústria onde trabalhava faliu, em novembro. Ela ficou 3 horas na fila do Mutirão, alternando o lugar com marido para sentar à sombra. Carlos* trabalhava em uma construção e sofreu um acidente, levou um choque e precisou ser afastado. Com três crianças para sustentar, ele faz bicos de pintor para manter as contas em dia na casa em que moram no Jardim Paulistano. A mulher confessou que eles precisaram escolher entre pagar a conta de energia elétrica ou de água. No mês passado tiveram a luz cortada, mas um bico surgiu e Carlos conseguiu pagar o atraso.

Primeiro emprego
O cenário também não está fácil para quem está começando. Guilherme Santos completou 18 anos e sentiu a necessidade de ajudar a mãe com as contas. Foi ao Mutirão para tirar a Carteira de Trabalho pela primeira vez e encarar a fila. Só que das 444 vagas que o PAT ofereceu, só 10 não exigiam experiência. Dentre essas, três pediam formação ou conhecimento específico, e outras três eram exclusivas para PCD (Pessoa com Deficiência). O jovem ficou limitado a 4 vagas, de ajudante de motorista, Office boy, vendedor ou auxiliar administrativo. Essa última, porém, é exclusiva para Aprendizes de 14 a 24 anos, o que pode dar certo para Guilherme. Mas não é o caso Adair, Drielly, Pâmela, nem de Joana e Carlos.

*Os nomes são fictícios porque os entrevistados preferem não ser identificados 

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