'O animal é como se fosse um terapeuta', diz veterinário


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Mário José de Castro Pereira - Foto: Janaina Leão
Mário José de Castro Pereira - Foto: Janaina Leão

Mário José de Castro Pereira, 43, nasceu com o dom de cuidar de animais. Quando criança, sua diversão predileta era brincar com as vacas e cavalos existentes na fazenda de seu avô.

Chegou a ter oito cachorros. Hoje, com a chegada dos filhos, tem um cão da raça boxer e um simpático vira-latas. O contato próximo com os animais fez com que aos 17 anos entrasse para o curso de Medicina Veterinária na faculdade de São João da Vista (SP). Formou-se aos 22 anos.

Há 19 anos, comanda a clínica Cão Francano na avenida Hélio Palermo. Ao longo de duas décadas, atendeu milhares de clientes e ganhou prêmios em reconhecimento à qualidade do serviço prestado.

Foi na clínica, entre uma consulta e outra, que o doutor Mário recebeu o Comércio para falar de sua estreita ligação com os animais.


Por que decidiu se tornar médico veterinário?Eu sempre gostei muito de animais. Quando eu era criança, meu avô tinha fazenda e eu sempre estava no meio de cavalos e vacas. Entrei na faculdade quando tinha 17 anos e me deparei com um grande leque de oportunidades diferentes. Comecei a ver outros campos, como a reprodução, que é uma área que gosto muito. No decorrer da faculdade, fui me interessando pela área de pequenos animais. Fui fazendo estágios e cursos e me direcionando para este segmento. Deixei de lado o que, em princípio, havia me levado a fazer faculdade, que eram os cavalos e vacas, que eu mais gostava. Gosto ainda, mas não era bem o que eu queria.Após me formar, fiz cursos e atendimentos domiciliares. Em 2000, abri a clínica onde estou até hoje.

Você é um dos veterinários mais conhecidos da cidade. Calcula quantos clientes há na sua clínica?Em Franca, há muitas clínicas conhecidas com excelentes profissionais. Felizmente, temos muitos clientes graças a Deus, mas não sei precisar o número. Trabalhamos sério todos os dias para tentar atender da melhor forma. Temos algumas limitações e procuramos corrigir possíveis erros. Nosso objetivo é aprimorar sempre e melhorar a forma de prestar o serviço.

Quais são os cuidados necessários que as pessoas precisam ter para cuidar bem do animal de estimação?O mercado de pet cresceu muito e também mudou bastante. Antigamente, havia menos animais nas casas e eles eram de grande porte. As casas eram maiores. Há 20, 30 anos, era mais comum o cão de guarda que ficava no quintal.Agora, o comum é o cachorro que veio para dentro de casa e para dentro do quarto. Ainda há os cães de grande porte, mas como as casas e apartamento são menores, é preciso que o cachorro seja menor.Além da tendência atual de se ter cães de pequeno porte, outra mudança que estamos observando é o aumento da população felina. O gato é um animal possível de se ter no apartamento e que, dificilmente, vai incomodar os vizinhos. É um animal bem tranquilo para se ter.Muita gente ainda prefere o cachorro para interagir mais e de maneira diferente com o dono. Mas, o gato é uma companhia muito legal também e essa população está em crescimento.Ao adquirir um pet, é importante avaliar o espaço disponível. Não adianta você morar em um apartamento e querer um cão da raça São Bernardo. Se o espaço é menor, vamos pensar em um animal menor.A prioridade quando se adquire um animal, ao contrário do que muita gente pensa, não é o banho e a tosa. Como os animais estão convivendo muito próximo dos homens, o ideal é procurar um veterinário, fazer o exame clínico do animal para ver se ele está bem e iniciar o processo de vacinação contra a raiva, viroses e problemas respiratórios, entre outras doenças. É fundamental vacinar e vermifugar sempre o animal. Agindo assim, a pessoa vai proteger seu animal e também a sua família, pois algumas doenças podem passar para o ser humano.O animal que fica mais próximo do dono, que fica na cama, requer uma higiene um pouco maior e precisa de banhos mais frequentes.

O que o dono de um animal deve levar em consideração na hora de procurar uma clínica veterinária?Temos excelentes profissionais em Franca. Uma dica que eu dou é a pessoa buscar referências e avaliar se o profissional está há muito tempo no mercado. É importante verificar se há veterinário na clínica e checar se os responsáveis estão se atualizando e fazendo novos cursos. Se a pessoa está há muito tempo no mercado, é um sinal de que ela é qualificada e capacitada, caso contrário, já teria fechado as portas.Às vezes, a pessoa não gostou do atendimento ou o ‘santo não bateu‘. Nestes casos, é recomendado tentar outra clínica, outro profissional.O dono precisa ficar atento a quais sinais para constatar se o animal de estimação não está bem?O animal tem que estar comendo, bebendo água e brincando normalmente. As fezes devem estar firmes e o xixi na coloração normal, clara.Os cães e gatos interagem bastantes com os donos. Então, se você viu que o animal está deitado, prostrado, com aquele olhar triste, é um sinal de que ele possa estar iniciando uma doença.Pôs a comida, o animal não comeu, não está bebendo água e não está brincando, o ideal é levar no veterinário para fazer os exames e ver o que ele tem para tratar.

O animal mais comum em casa ainda é o cão?Sim, disparado. A população de gatos está aumento muito pela facilidade e por ser um animal que dá menos trabalho. A quantidade de animais exóticos também vem aumentando.

Você recebe qualquer tipo de animal na sua clínica?Não, apenas cão e gato. Quando aparece algum réptil, coelho, tem veterinário que vem atender, não sou eu. A gente liga e marca horário, ele vem e atende. A veterinária Maristela Furlan mexe só com aves. Quando chega alguma ave, eu já encaminho direto para ela.Esses animais exóticos requerem um cuidado especial. Há animais que, às vezes, morrem por estresse. Se trouxer um coelho ou uma ave aqui, o animal pode morrer por causa do latido de um cão, por causa do estresse do local.

Qual é o animal mais exótico que já passou pelas suas mãos?Aqui, na clínica, já tratamos de Seriema, teiú (lagarto), gavião, gato do mato e cobra, que passei para uma colega. Até um filhote de pônei já ficou internado aqui. Hoje, isso não seria mais possível por conta do espaço físico.

Você pretende ampliara clínica por conta da demanda?Penso sim, mas tenho uma certa limitação para ampliar, pois não tem como crescer para os lados e para trás, que já está no limite. A única opção é para cima, mas, o fato escada, me preocupa.Este ano, pretendo fazer uma reforma e ampliar a parte da frente, mas há esta questão da limitação do espaço.

Você falou sobre um problema, que é o estresse do animal. Qual sua opinião sobre o projeto de lei que proíbe a soltura de rojões? O foguete tem que ser banido ou não?Antes de dar minha opinião como veterinário, vou falar como cidadão: eu acho muito bonito os fogos coloridos, mas não gosto daquela barulheira. Como profissional, posso dizer que a maioria dos cachorros tem os ouvidos muito sensíveis.Os fogos são muito agressivos e os animais tentam correr ou se esconder. Nem sempre o tutor está junto com o animal na hora dos fogos para abraçar ou aconchegar ele para fazer com que sinta menos o impacto do barulho.Na minha opinião, só deveriam existir os fogos sem barulho, só os coloridos. O barulho do estouro deveria ser proibido.

Qual a orientação para os donos amenizarem o impacto causado pelo barulho dos rojões no ouvido dos animais?O ideal seria a pessoa pode ficar com o animal em casa. Se não for possível, é bom deixar o animal dentro de uma sala com o som ou TV ligados para diminuir o barulho que os fogos vão causar. Há uns bandôs, uma atadura, que se coloca na cabeça do animal para tampar o ouvido. O problema é que tem animais que não gostam disto e ficam estressados.Há uma técnica de se enrolar no animal em uma toalha ou pano para deixar ele bem protegido, como se ele estive no seu colo. São coisas que ajudam, mas, tem animais que, nem com isto, resolve. Há casos em que é preciso dar sedativo, que deixa o animal grogue. Mas, neste caso, há risco de morte. O ideal é estar junto e tentar aconchegar o animal.

Quando o dono vai sair e o animal ficará sozinho em casa é recomendado ligar a TV ou o som?Eu, particularmente, acho que o animal tem que procurar fazer as artes dele, explorar a casa e se distrair com os brinquedinhos dele. Se não, vai ficar igual uma criança que fica bitolada na televisão, não vai aprender nem a brincar.

Qual sua opinião sobre o pit bull? Recomendaria alguém a ter um cão desta raça?Eu tive uma pit bull muito dócil. Quando eu a adquiri, minha esposa ficou muito preocupada, justamente, pela fama que os cães desta raça têm. Ela falava: ‘vai atacar a gente‘. Eu dizia ‘não vai’.Três por cento das raças, são agressivas. O restante, não. É o jeito de criar. Muita gente tem o pit bull e quer que seja o cão de guarda, que ataca e fica bravo. As pessoas acham isso bonito e instigam o animal. O cão já tem aquele gene para guarda e você ainda estimula de forma errada, sem procurar um profissional, isto acaba deixando ele bem agressivo. Ai, não é saudável.Não aconselho a ensinar ataque, principalmente, para pit bull, pois é um cachorro que tem a mordida, extremamente, forte. O pit bull não é a raça mais agressiva, como muita gente acha. Pesquisas mostram que o teckel (cachorro salsicha) é o cachorro que mais causa acidente doméstico. Só que a mordida dele não é tão forte.Eu gosto muito do pit bull e gostei de terem proibido a conchectomia, que é o corte de orelha, e provocava dor crônica no ouvida. Indico a pessoa ter um cão desta raça, desde que, ela saiba corrigir. O dono tem que ser o líder do cão de todas as raças. Para o cachorro, a gente é cachorro também. Ou você manda nele, ou ele vai mandar em você. Um pit bull te mandando não tem graça nenhuma, é muito perigoso. Se a pessoa não sabe se impor, é melhor que tenha um animal de porte pequeno.

É normal o cão escolher alguém em casa para ele ter maior afinidade?Sim. Normalmente, o cão obedece quem se impõe com o tom de voz mais firme. Ele também vai ter mais afinidade com quem agrada mais ele com carinho ou petisco.Dar ou não petisco?Agrado pode ser dado sem problema nenhum. Só que é preciso ter moderação e escolher o petisco. Mas, é preciso tomar cuidado: quando se começa a dar o agrado, você está condicionando o cachorro a pedir e o dono a dar. Com isto, a pessoa, sem perceber, vai aumentando a quantidade de petisco, o que pode dar problema de pele e intestinal no animal. O que nunca dar ao animal?Chocolate. Carne gordurosa também não se deve dar, carne de porco. É preciso ter muito cuidado com cebola e alho. Tem animal que não tem tolerância ou tolerância zero a isso e pode ficar doente.Se você quiser dar um agrado para o animal, dá uns pedaços pequenos de banana, maça, laranja, um biscoito de água e sal, coisas que não vão ser agressivas à flora intestinal e nem à pede do animal. É preferível dar um pedacinho de carne do que o caldinho misturado com ração, pois é no caldo onde está o tempero.

Como você reage aos casos de agressão a animal?Eu fico revoltado. Dificilmente, a gente vê uma pessoa dar um chute em um pit bull, em um rottweiler. Normalmente, a agressão é cometida contra um poodle, pinscher, yorkshire, cachorros de porte pequeno. São agressões covardes. Por que o agressor não pega um animal grande, bravo e vai lá enfrentar ele? Defendo fiscalizações e autuações mais rígidas. Os animais existem para receber carinho e muito mais para te dar carinho. Muitas vezes, a gente mais aprende com o animal do que ensina a ele. Uma das primeiras coisas que o animal chega e vai te ensinando é o desapego. Às vezes, a pessoa é apegada com um bem material e ele vai lá, pega sua chinela e estraga ela.

O que o animal representa em sua vida?Alegria, satisfação pessoal. Todos os animais, a natureza de uma forma em geral, são tudo para mim. Tem animal, que não chego perto, que tenho medo...

Qual?Onça, por exemplo. Acho lindo, mas não mexo com animal selvagem de jeito nenhum. Sei que eles são anestesiados, mas tenho medo, não é minha praia. Em alguns animais, além do respeito e da admiração, eu tenho medo.

Recomenda criar cobra em casa?Nada contra quem cria, mas, particularmente, não é o animal que eu gosto. Não recomendaria, pois, para recomendar, tem que ser algo que você faz. Se eu não gosto para mim, como vou recomendar para você? Já fiz um evento na minha clínica e trouxe um Piton de quatro metros, mas não quero ter em casa.

Como é para um veterinário ver que o tratamento não é mais possível e que o animal precisa ser sacrificado?É um momento muito difícil para a gente como profissional e, ainda mais difícil, para o tutor tomar essa decisão. A medida só é tomada quando, realmente, não existe nenhuma chance para o animal ou quando o tutor, por motivos de não poder gastar ou de não querer ver o animal vegetando, decide que tem que fazer. É um procedimento que ninguém gosta de fazer, mesmo sabendo que é uma forma de dar uma morte com dignidade para o animal. É triste, mas há casos em que é necessário.


 

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