Equívocos na educação


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É verdade que o candidato Jair Bolsonaro não apresentou em sua curta campanha à presidência da República qualquer projeto relacionado à melhoria da educação no Brasil. Portanto, ao ser eleito, cabia-nos, enquanto cidadãos, apenas aguardar. Dado seu perfil de extrema-direita, era de se esperar que a politica para a área se definisse por sua visão de mundo. O que se tem visto, no entanto, vai além disso: O Ministério da Educação e Cultura não tem um norte, uma agenda, diretrizes. Os objetivos se oferecem fragmentados, eivados de equívocos, povoados por ideias de retrocesso.

A educação no período Bolsonaro começou com estranha comunicação do então ministro Ricardo Vélez aos professores, determinando que os estudantes das escolas públicas deveriam entoar o Hino Nacional antes do começo das aulas, ser filmados nesse desempenho e as imagens enviadas ao Ministério da Educação. Diante da reação negativa, poucos dias depois a ordem foi revogada.

Depois foi a vez do anúncio precipitado de que os alunos do ensino fundamental não mais seriam avaliados neste biênio, seguindo tradição de década. A notícia repercutiu mal nas escolas, pois os professores alfabetizadores, mais do que ninguém, sabem da importância que essa avaliação tem para medir a aprendizagem das crianças brasileiras, em momento decisivo de contato com a linguagem escrita. O ministério voltou atrás. Mas nesta semana informou que fará a avaliação, mas por amostragem. Ou seja, nem todos os alunos participarão do processo, o que coloca em xeque a validade da prova: que critérios, afinal, serão usados para escolher os participantes? Mal à beça saiu-se o sucessor de Ricardo Vélez, o ministro Abraham Weintraub, que ao explicar as razões de tal decisão, pautada por gastos financeiros, disse que a prova custaria R$ 500 mil reais ( e não 500 milhões, como de fato acontecerá). Como repetiu pelo menos quatro vezes a cifra 500 mil, tem-se a impressão de que não sabia bem o que estava falando ou que está mais despreparado para as funções do que supomos.

Ao lado desse vai e vem que só demonstra descuido com assunto que é sempre prioridade nas nações desenvolvidas, o governo anunciou corte de 30% nas verbas para as universidades. Ao mesmo tempo frisou que pretende colocar ênfase nos cursos técnicos- o que é bom para o país, necessitado deles. Entretanto, fez seguir o aviso com certo menosprezo pelos cursos de História e Filosofia, como se fossem supérfluos e desnecessários. Isso deixou apreensivos segmentos a quem o passado representado pela história, e as correntes de pensamento que alimentam a humanidade desde os gregos, são imprescindíveis à vida do indivíduo e da sociedade.

A semana terminou com a reiteração de que o decreto assinado na primeira quinzena de abril, estabelece método único de alfabetização- o fônico- como base para a política nacional que será implementada na área. O método fônico, há décadas substituído no Brasil e outros países, opõe-se ao método global, em vigor, e adotado pela corrente construtivista. Muitos educadores aceitam que o primeiro faça parte do processo de alfabetização. Mas que não seja o único, pois o país é extenso, complexo, heterogêneo. Até aí, valem a reflexão e a análise. Duro mesmo é ler as palavras do secretário de Alfabetização, Carlos Nadalin, que vê o método global como “fruto de uma preocupação exagerada com a construção de uma sociedade igualitária, democrática e pluralista” e com a formação de “leitores críticos, engajados e conscientes”.

Os atos falhos traem a intenção mais sub-reptícia. O adjetivo “exagerada” que o demonstre.

 

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