No próximo dia 25, a Associação do Comércio e Indústria de Franca passará para um novo comando. Pelos próximos dois anos, o empresário francano Tarciso Bôtto será o responsável por administrar uma das entidades mais antigas e mais importantes de Franca. Revitalizar o centro, estabelecer uma nova relação com o mercado popular, com os vendedores ambulantes e criar ações que ajudem os associados a enfrentarem um momento de recessão está na lista de desafios do novo presidente. O maior deles, no entanto, é estabelecer uma relação cada vez mais próxima com o Poder Público, prefeito e Câmara Municipal. “Esse é o meu discurso - que o prefeito junto com a associação comercial é a solução para o incremento da economia e para as melhorias da cidade. Esse é o meu olhar. Esse é o meu foco.”
Seu pai, Luciano Botto, tem uma relação histórica com Franca, mas qual a origem da sua família?
O senhor Luciano recebeu título de cidadão francano, mas não é de Franca. Ele é sergipano.O pai era fiscal da Receita Federal e andou muito. Moraram em várias cidades. Em 1950/51, ele chegou em Franca.
Na sua infância o senhor acompanhou o envolvimento do seu pai com o comércio?
Eu me formei em Medicina Veterinária. Dentro da minha casa, meu pai sempre foi um cidadão comerciante. Trabalhou em banco, trabalhou no Samello, teve a oportunidade de ir para a Ótica Melani por causa do irmão dele, que era diamantário.
Como assim?
A Ótica Melani era joalheria e ótica Melani. O irmão dele, por ser diamantário, adquiriu 50% da família Melani. Nós não somos Melani, não temos nada com a família Melani a não ser gratidão e amizade. O irmão não se adaptou ao varejo e falou para o meu pai “compra a minha parte”. E meu pai comprou, ingressou e, de pronto, a família Melani quis vender a outra metade. O senhor Luciano foi fazer um curso em São Paulo e ficou seis meses fazendo curso de ótica. (Por volta de 1955) E a família Melani ficou tomando conta da loja, (eles abriam e fechavam o caixa, depositavam o dinheiro) como se fosse deles, mas já de posse do senhor Luciano. Quando o senhor Luciano chegou, ele fez a pergunta: “O nome Melani pode ficar em gratidão?” Deixaram e ficou. Ótica Melani é de 1933. Joalheria e Ótica Melani.
Como foi o seu começo?
Meu pai administrou o assunto, se identificou com ótica, sempre empreendedor. Em 1970, ele chega para a Associação Comercial, sempre querendo participar de serviços em prol da sociedade. O espírito comerciante é nato no meu pai. Em 1970 ele ingressa na Associação. Depois foi diretor, presidente por três mandatos, conselheiro… Depois fundaram a cooperativa de crédito. A CredAcif nasce nas mãos do pai, do senhor Onofre Trajano e João Cheade. Em 1981 eu fui estudar veterinária fora de Franca. Voltei em 1986, quando me formei. Um curto período atuei nessa área, por uns seis meses. Depois como ramo de negócios, abri uma loja agropecuária. Mas nosso negócio, que é familiar, precisava de pessoas e eu ingressei no ramo de óticas.
O que aconteceu com a loja de produtos agropecuários?
Vendi e comecei a atuar no nosso laboratório que faz parte do setor de ótica.
O laboratório também atende outras óticas?
Hoje é mais um negócio nosso. Naquela época era muito dedicado. 60% dos serviços eram nossos. Hoje é 30%.
Antes de falarmos mais sobre seu trabalho nas óticas, porque o senhor decidiu fazer veterinária, se os negócios da família já estavam estabelecidos naquela época?
Existe um ditado que as pessoas nascem com vocação. Sou testemunha de que não é bem assim. Medicina veterinária era uma grande paixão minha. Toda vida tive uma grande identidade com bichos. Minha casa era um zoológico. Me formei, me especializei na área de reprodução, mas o negócio nosso exigia pessoas e o senhor Luciano sempre quis ficar em família. E aí em idos de 1995, ou seja, trabalhei nove anos na minha profissão. Eu tomei gosto. Fiquei durante dez anos no laboratório. Sou muito técnico. Ali é desenvolvimento todo dia.
E como entra o seu interesse em participar da Acif?
Em 2000 eu fui pro varejo. E me apaixonei pelo varejo. O varejo me transformou. Eu era uma pessoa de balcão. Ingressei na ótica Melani do Calçadão, que é a matriz, onde tudo nasceu. Não tive a oportunidade de trabalhar com o senhor Luciano no balcão, ele já não ficava no balcão mais. Mas eu fiquei muito tempo. O senhor Luciano sempre teve um princípio de que tínhamos que trabalhar, mas doar parte do nosso tempo em prol da sociedade. Há cerca de 10 anos, na gestão do João Cheade, fui convidado a fazer parte da diretoria (da Acif). Entrei e não saí mais.. Digo que eu sou veterinário por formação e ótico por tradição. Na minha casa sempre falando de ótica, de óculos, de lente. Eu só ouvia isso. Apesar de que ele teve outros negócios. Ele era empreendedor, mas ótica sempre foi “o” negócio.
Na Acif, sua primeira posição foi diretor de comércio, como era a sua atividade?
Minha atividade era participar das ações comerciais que a associação desenvolvia. Na época eram muito fortes as ações que fazíamos para fomento do comércio: Natal, Ano Novo, Dia das Mães…
Dessa sua primeira fase, algum episódio marcou seu primeiro contato com a Acif?
Olha, o senhor Luciano foi presidente da Associação por três mandatos. Quando fui convidado a participar, foi um grande momento. Eu estava ingressando, já em uma grande associação, que tinha tudo a ver comigo. Isso foi muito marcante para mim.
E na última década, qual ação da Acif que o senhor destacaria?
As mais recentes são as mais lembradas. A aproximação da Acif com o mercado popular e o mercado ambulante. Isso está sendo muito marcante. Estamos cuidando desse assunto fruto de um trabalho que fizemos há dois anos num processo de revitalização do Centro da cidade.
E como o senhor pretende trabalhar com essas questões?
Saber lidar com essa realidade exige muita habilidade. Faço parte de uma entidade de classe muito forte que, em muitos momentos, é vista como uma impositora. E não é assim. Ela faz parte da sociedade de Franca, ela é uma entidade representativa de classe dos empresários e nós temos em Franca, nesse momento, uma situação de mercado popular que precisa de um olhar melhor, melhores atitudes de organização. Existe uma lei que rege, mas isso precisa ser reavaliado, estudado, conversado. Da mesma forma a situação dos ambulantes. De que forma vamos lidar? Por conta desse assunto, desenvolvemos há cerca de dois anos o projeto de revitalização do Centro da cidade. Agora, meu desafio como presidente da entidade, o desafio é a aproximação das entidades que vão fazer que esses assuntos sejam resolvidos. E o principal deles é a prefeitura. Vai fazer parte do meu trabalho essa aproximação com o poder público. Recentemente estive com o prefeito. Diga-se de passagem fui levar um convite pessoal até ele, que me recebeu e se colocou à disposição. Então fico satisfeito e fico com uma visão de futuro bem promissora porque sem o poder público municipal não se faz nada da melhor forma. Então esse é um grande desafio que temos pela frente e vamos lidar de uma forma normal, natural e com um olhar bem comercial. Existe espaço para tudo e existe espaço para todos. E nós queremos desenvolver esse trabalho a partir do centro, mas outros corredores comerciais muito importantes de Franca vão precisar desse tipo de olhar, de trabalho.
Quando o senhor diz que existe espaço para todos, significa que a intenção não é pedir a remoção de camelôs ou ambulantes?
A ideia nunca foi tirar ninguém. Até porque é importante deixar muito claro: a associação comercial não tem poder para isso. Quem tem poder é prefeitura, promotoria… Nós somos representantes. O que fiz, a conquista recente da Acif, foi trazer os representantes do mercado popular e dos ambulantes para dentro da entidade. Isso foi um grande avanço. Ou seja, nós estamos querendo reunir com essas entidades, porque eles têm os representantes de classe, para buscarmos melhores soluções para essa situação, criar regras, normas e que eles continuem trabalhando.
O senhor propõe uma espécie de parceria?
Queira sim ou não, eles são empresários. Se estão regulares ou não é questão de avaliar. Então, fui lidar com a situação de igual para igual porque também sou empresário. O que percebemos é que muitos dos ideiais deles conjugam com os nossos. Exemplo: eles pedem fiscalização, normatização, organização. E nós temos isso para oferecer. Porque a entidade já tem isso no seu DNA. Faz parte do escopo de serviço da associação comercial. E vamos fazer isso em apoio com a prefeitura. Por exemplo, moradores em situação de rua. Depois que me envolvi com esse assunto, pude ver que não é simples assim. Não é simplesmente tirar o morador daqui e por ali. É tirar ele de um lugar indevido e depois cuidar dele. Mais que isso, fazer uma inclusão social. E a prefeitura tem seus órgãos para fazer isso. Só que ela tem suas dificuldades também. Então, se a Acif pode e se temos um bem comum, que é pensar na melhoria da cidade, vamos fazer isso junto. Estivemos na Promotoria, fomos orientados. E tudo que formos fazer será baseado na legislação. Nosso trabalho vai ser regido por regras que já existem. Não fomos nós que criamos. E vamos fazer conseguir. Vai dar tudo certo. Eu acredito muito. Estou muito entusiasmado, estou motivado e desafiado.
A Acif tem uma atuação muito forte no Centro. O senhor pretende levar o trabalho da associação para outros corredores comerciais?
É muito importante o que vou falar: essa colocação é o olhar de muitos, mas não é o nosso. Centro de cidade é centro de cidade em qualquer lugar do mundo. Um exemplo que posso dar que é polêmico: porque a casinha do Papai Noel só se faz no Centro? Por N fatores. Tipo: existe um orçamento de verbas que não permite que possa ser feito nos outros corredores comerciais. Quero deixar claro que os outros corredores comerciais que já existiam e que estão nascendo dentro de Franca de uma maneira muito forte têm o mesmo peso. Agora, o olhar para o Centro da cidade é por ser o centro da cidade. Não é a Acif que olha só para o Centro. Tudo gira em torno do Centro. Quero aproveitar e deixar claro que os outros corredores comerciais têm muita importância para nós. A Estação, a avenida Brasil, o Leporace, a Paulo VI que começa a nascer, a Álvaro Abranches. É uma consequência natural olharem para o Centro. Porque a Catedral é no Centro? Porque a Concha Acústica é no Centro? Porque a maior praça é no Centro? Porque foi aqui que nasceu a cidade. Então, não é aqui a maior quantidade de investimento que a associação comercial faz. Hoje a Cooperativa de Crédito, que é um braço da Acif, está no Centro, na Estação, na Avenida Brasil, no Parque Castelo…
Algumas iniciativas da Acif chamaram muita atenção. Uma delas foi o apoio ao Franca Basquete…
Através da associação comercial conseguimos parcerias. Exemplo: a parceira nossa de certificação digital patrocina o time. Parte da verba patrocinadora do Basquete Franca é a nossa parceira em certificação digital. Então, veja, a associação comercial apóia o esporte. Tivemos uma reunião e vai acontecer em Franca uma festa comemorando 30 anos de uma associação do vôlei. Através da força da associação ela consegue alguns patrocínios. Essa é a mecânica.
E existe a intenção de aumentar esse apoio ao esporte, a outras modalidades?
É uma bandeira que carrego. São os esportes praticados pelos deficientes. Carrego uma bandeira que é trazer para Franca um Centro de Reabilitação Lucy Montouro, que é um trabalho que faço há um bom tempo. É uma entidade mantida pelo governo do Estado para reabilitação de deficiências físicas e mentais.
Outra iniciativa que chamou atenção nos últimos anos foi o Conselho da Mulher Empreendedora, que cresceu muito. Como é a relação da diretoria da Acif com o CME e quais os planos para a sua gestão?
O Conselho nasceu dentro da Acif. Ele é um produto da Acif. (Todas as conselheiras são associadas à Acif). Hoje ele é independente porque já conseguiu conquistar essa independência, inclusiva financeira. Mas a Acif é parceira do CME. O Conselho tem uma cadeira na diretoria e todo o trabalho conjunto vai continuar. E já lancei um desafio para o CME. O 8. Fórum que aconteceu no primeiro semestre foi mais um sucesso e agora desafiei o CME a fazer algo para o segundo semestre. Elas estão indo muito bem, é um corpo administrativo forte, representativo e que tem feito bons trabalhos.
Apesar de sentirmos alguma melhora no começo de 2019, como o senhor analisa o cenário econômico da cidade?
A economia está em recessão. De maneira geral, estou falando em 90%, ainda estamos em recessão. Houve a mudança do governo federal, a aposta ainda existe, a população ainda está acreditando nas mudanças, mas elas estão demorando a chegar.
A crise ainda não passou?
Não passou. O empresário, com Não. O empresário está se reinventando cada vez mais. Mas a bem do fato, o mercado ainda é recessivo.
Qual é a saída que a associação comercial enxerga para driblar essa recessão?
Olhando cada vez mais para o associado no sentido de qualificá-lo cada vez mais, levar para ele ferramentas interessantes cada vez mais, proporcionar alguns produtos e serviços. Um outro fator muito importante, que é uma bandeira que vou carregar é a situação do microcrédito. Para melhorar e dar sustentação, precisa de determinado investimento. Vamos buscar parcerias para levar para o associado uma condição de aporte de capital para que ele dê sustentação à sua empresa. Um outro fator é essa inter-relação de trabalho, que são essas parcerias entre Legislativo, Executivo para buscarmos alternativas.
Há alguma iniciativa para incentivar o turismo também?
Não só o turismo, mas também vamos incorporar uma alavancagem do agronegócio. Não podemos perder essas oportunidades. O Sebrae vai voltar a ser nosso grande parceiro.
Falamos muito da relação da Acif com a cidade, mas há uma impressão de que ela é elitista e não está presente na vida do trabalhador. Há algum trabalho para mudar essa imagem?
Talvez o que aconteça é que, como a associação comercial tem um peso muito grande na economia da cidade e ela tem que transitar nas esferas do alto escalão também, talvez fique essa imagem. Mas nós vamos continuar no mesmo trabalho, atendendo o micro e pequeno empresário, o mercado popular, os ambulantes, olhando para as entidades assistenciais que apoiamos; a Acif é mantenedora do projeto Guri, por exemplo. Hoje 18% dos associados Acif são MEI, micro e pequenas empresas, 81% é médio porte e só 1% é grande, de 3.500 associados.
Depois da criação do G6, agora com a divulgação de pesquisas eleitorais e de avaliação de governo como a feita na última semana, como fica a relação política da entidade? É algo que o senhor pretende manter?
Nós vamos continuar fazendo política. Política da boa gestão, política do bom relacionamento, política do bom trabalho, política das boas parcerias. Nós não vamos fazer politicagem. Vamos receber ano que vem todos os candidatos, vamos ouvi-los. Nós não temos predileção. Como dizem, a entidade é laica. O Instituto de Economia fez uma pesquisa e, por determinação do presidente, colocou à disposição da imprensa, para a comunidade. Entendia que era importante. Talvez o que aconteceu é que o momento não foi propício. Para mim que estou chegando e buscando uma aproximação com o prefeito. Mas eu não sou presidente. Vou me tornar presidente. E não estou aqui justificando. Porque presidente, ele decide. Então, o meu trabalho, o meu olhar, a minha forma e a minha maneira, é de buscar as melhores inter-relações nas parcerias com associações, prefeituras, federações, entidades. E é isso que eu vou fazer. Se eu tenho um olhar pessoal, que ele fique guardado para mim. Mas a entidade vê - esse é o meu discurso - que o prefeito junto com a associação comercial é a solução para o incremento da economia e para as melhorias da cidade. Esse é o meu foco.
E quanto ao trabalho de Instituto de Economia da Acif?
Essa pesquisa que foi disponibilizada para a população foi mais uma. O Instituto de Economia faz pesquisas que serão produto de venda da Acif. O IE já começou a ser procurado por empresas para ações de estratégia. É um instituto de alta credibilidade. (...) A posição da associação comercial é levar informação para a população. Nossa intenção é ser referência, porque acreditamos que nosso instituto é muito bom. Por exemplo, fizemos uma pesquisa com o consumidor para criar nossa estratégia de campanha para esse ano. (...) Fazemos pesquisas inclusive para dentro da entidade para que possamos desenvolver boas estratégias.
Para encerrar, qual seu grande objetivo para a sua gestão?
Fortalecer a entidade com as parcerias. Existe uma frase que diz assim: juntos somos mais fortes. A minha é juntos seremos melhores. Juntos vamos driblar a recessão. É necessário cada vez mais trabalharmos em conjunto. Exemplo: se a gente falar de melhoria da praça central, não se faz sem a prefeitura, sem as secretarias, sem o empresário, sem a Acif, sem os sindicatos, sem o conselho, sem um grupo que se chama Mulheres do Brasil. Então assim, isso melhora para a cidade. O foco do meu trabalho vai ser a busca por estas inter-relações.
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