Guardo algo do que li, e do que não li.
Releio para me aproximar das sensações que tive no primeiro contato. Frustrante constatação na releitura: mudo eu ou muda o livro? Algo , no entanto , se me brota límpido, como se houvera pensado, escrito, está, é inscrito, embora criptografado. Ignoro o esculpido no cérebro e na alma.
Do que não li, o desejo que move a leitura é adivinhado, suspeito , nuvens de entendimento e desentendimento rondam : tenho chaves e estou excluída do livro que não li. O desejo me anima, me rejuvenesce : sou criança , analfabeta do livro que não li. Admiradora de quem o leu, que me acena de longe, de perto.
Entre o que li e não li há uma fronteira, mescla de passado e futuro. Um Eu que sou e fui e um que posso me tornar. Abstratamente futuro, abstratamente passado, o que não li, o que li.
O que não li é o devir – posso tornar-me. É a conversa que não tive, experiência que não me permiti, expressão da minha ignorância, minha esperança.
O que não li é o retrato da minha incapacidade?
Tenho compaixão pelos que não sabem ler, que não sabem o que perdem, deixam de Ser , fogem do que poderiam Ser , ou do que descobririam de si, se lessem.
Angústia pensar em uma comunidade sem livros.
Livros que não li são seres que me capacitam a me descobrir , a me revelar, a me integrar. No ato da leitura a costura inconsútil entre o que leio e o que sou: torna orgânico o despedaçado tempo que nos constitui, o hoje , o ontem e o amanhã.
O livro me representa , registra, ultrapassa, permanece, me transcende no limitado espaço e tempo de existência. Restará quando não mais restarei.
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