O que fazer para voltar à vida quando nos perdemos de nós mesmos? Quando o olhar do outro, amado e distante, já não encontra com o nosso ? Que caminho trilhar quando sentimos habitar as profundezas da dor, da humilhação, da solidão, do ódio e desamparo?
E se pensarmos que experiências desta magnitude afetiva podem acontecer a uma adolescente apaixonada, ansiando se tornar mulher, na urgência de realizar um grande amor?
Que tipo de caos é esse, quando esta mesma adolescente, Melissa,15 anos, pode contar como retaguarda afetiva somente sua amiga Manuela e sua avó Elvira, e na ausência delas, seu inseparável diário para narrar e inscrever sua dor?
Presença virtual, seu pai ausente, e o olhar envidraçado de sua mãe não a protegem de se envolver com Daniele, um rapaz que a usa como objeto descartável, se tornando totalmente refém de seu desejo narcísico.
Como diz Gilberto Gil em sua música “Tenho Sede”, “meu coração só pede o teu amor/se não me deres posso até morrer”, Melissa insiste neste relacionamento tóxico, negando os primeiros sinais de perigo. Adentra um mundo perverso, onde relações amorosas são trocadas por relações de poder, o que manipula e outro que é manipulado em seus desejos, sonhos, em seu direito inalienável de ser si mesma.
Triunfando sobre a humilhação e o ódio sentidos mas não pensados, Melissa se identifica com seu agressor, se embrenhando por relações sado-masoquistas, causando a si própria grande dano psíquico e social.
Através de memória afetiva tenta se resgatar, e, como ensinara sua avó quando sentia dor de amor, escova seus cabelos cem vezes, até alisá-los, na tentativa mágica de se tornar outra pessoa e também como forma de lidar com sua angústia de aniquilamento. Tentou. Não deu certo. No mundo escuro em que se lançou, parecia não haver saída.
O que verdadeiramente nos salva da violência do outro em nossa direção, e da nossa, em direção a nós mesmos? Cada vez mais me certifico de que só tendo sorte e talento em encontrarmos um olhar amoroso, que nos acolha, nos resgate e nos faça acordar para o amor, o auto cuidado, que também existe dentro de cada um!
O amor vincula, florescendo criatividade para sairmos de situações tão sofridas. Melissa conseguiu se encontrar com um Outro, e consigo própria, resultando não só aprendizado de experiência tão dolorosa, mas também escrevendo suas memórias no livro Cem escovadas antes de ir para cama, com lançamento em 2004.
Em 2006 ocorreu o lançamento do filme, sob o olhar sensível do diretor italiano Lucas Guadagnino, que estaremos exibindo neste sábado, dia 13 de abril, a partir das 15 horas, no Centro Médico de Franca, com comentários da psicanalista Letícia Wierman, membro associado da SPBRP.
Com a exibição e posterior discussão de Cem escovadas antes de dormir criamos oportunidade de nos debruçar sob esta inquietante e angustiante fase da vida que é adolescência. Na frenética busca de si mesmo, o adolescente não tem capacidade egoica para lidar com tantos conflitos, paradoxos, luto pela perda de seu corpo infantil e sustentação de um novo corpo, desconhecido, necessitando continência familiar e da sociedade na qual vive mas nem sempre é encontrada.
Esperamos vocês para mais uma rodada de conversa, neste espaço de intimidade que toda a sociedade francana vem construindo conosco nestes dez anos.
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