80 tiros e uma execução em público


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80 tiros no carro de uma família que estava indo para um chá de bebê. Um pai morreu na frente do filho de 7 anos, completamente incapaz de se defender. Em plena tarde de domingo. Independente da religião, do partido ou viés político, como sociedade brasileira é impossível que não tenhamos clareza de que há algo de muito absurdo neste fato que marcou o último domingo, no Rio de Janeiro.

Uma bala perdida, um tiro por engano, já seriam injustificáveis. 80 disparos. Oitenta disparos contra um carro cheio, com mulheres e uma criança, à luz do dia, produzem uma reação que o nosso vocabulário nem possui uma palavra capaz de traduzir.

Para quem não acompanhou, tudo aconteceu por volta de 14h40 de domingo, 7. Soldados do Exército patrulhavam perto de uma Vila Militar, em Guadalupe, na zona Oeste do Rio de Janeiro procurando uma dupla que teria cometido um assalto na região. Evaldo dirigia pela Estrada do Camboatá. Além dele, no carro ainda estavam seu sogro, no banco do passageiro e, atrás, a mulher, o filho de 7 anos e uma amiga da família. Quando estavam quase chegando ao acesso à Avenida Brasil, o veículo foi alvo de pelo menos 80 disparos de fuzis de soldados do Exército.

As mulheres e o menino conseguiram sair do carro e correr para a margem da pista. Evaldo foi morto e seu sogro, ferido. Depois dos tiros, a mulher do músico começou a gritar por socorro aos próprios militares. “Mas eles não fizeram nada. Nada. Ficaram de deboche”, contou à imprensa.

No mesmo dia, o Comando Militar do Leste divulgou uma nota dizendo que os militares teriam “reagido a uma agressão de criminosos a bordo de um veículo.” Depois, no entanto, o próprio CML se retificou dizendo que após uma longa madrugada de apuração, 10 dos 12 militares ouvidos, haviam sido presos em flagrante. A partir dali, caberia à Justiça Militar decidir o futuro deles. Nove continuam presos até agora.

Na sequência, o que houve foi uma forte reação popular. As redes sociais foram tomadas pela indignação diante da desproporção e brutalidade da ação militar. As autoridades, no entanto, foram um tanto quanto lacônicas. “O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo e não pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente, uma morte”, disse o presidente pela primeira vez sobre o caso, na última sexta-feira, em um evento em Macapá.

É preciso admitir que vivemos um momento de brutalidade forte. Para piorar, a violência que vem das forças que deveriam ser o símbolo de proteção e segurança causa um dano terrível na nossa sociedade.

As autoridades precisam perceber que cabe a elas agir contra esse clima de tensão e brutalidade, que não é possível que o cidadão viva seus dias com tanto medo. E encarar que, não, 80 disparos vindos da força de elite do país contra uma família brasileira não é um incidente. É uma tragédia histórica, na falta de palavras ainda mais tristes. 

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