No último dia 24, o presidente Bolsonaro exortou as Forças Armadas a comemorarem, neste 31 de março, o aniversário do golpe militar de 1964, ocorrido há 55 anos. Depois, diante da avalanche de reações negativas, até mesmo de alguns de seus apoiadores, voltou atrás e trocou, nesta quinta-feira, o verbo “comemorar” para “rememorar”. Foi mais um revertério dos muitos a marcar seu governo que coleciona no núcleo duro militares aposentados, políticos de médio escalão e seguidores de Olavo de Carvalho. Este se perfila como filósofo, está filiado à direita, indica nomes para ministérios e palpita o tempo todo nos movimentos do governo do Brasil, embora resida nos Estados Unidos. Comemorar e rememorar trazem em sua etimologia o étimo relacionado à memória. O passado deve ser realmente rememorado; nem sempre celebrado; jamais deturpado. Então, vamos lá aos necessários esclarecimentos para os jovens; e os não tão jovens que parecem sofrer de amnésia.O dia 31 de março de 1964 foi precedido meses antes de movimentos atípicos que começaram com a renúncia de Jânio Quadros, eleito com uma votação espetacular. Assumiu seu vice, João Goulart, legitimamente eleito, num sistema em que o eleitor não votava numa dupla, como passou a acontecer bem depois. Votava-se separadamente em nomes para presidente e para vice. Portanto, o povo elegeu João Goulart, mais conhecido como Jango, num processo legítimo, absolutamente democrático. O vice assumiu com a renúncia de Jânio, mas ficou pouco tempo. Acusado por segmentos da direita de tentar impor ao Brasil um regime comunista, sofreu pressões de muitos setores no sentido de também renunciar. De início as enfrentou, contando com o apoio de seu cunhado, o carismático Leonel Brizola, e até o do então jovem Tancredo Neves, que duas décadas depois seria eleito presidente do Brasil. Jango não suportou as investidas dos militares. O dia 31 de março amanheceu com tropas nas ruas e o general Castelo Branco na cadeira de presidente da República. O golpe se consumava.
Contam historiadores que era intenção dos militares ficarem apenas um ano no comando do país e, em 1965, convocarem eleições. Mas outro março chegou e isso não aconteceu. Os generais permaneceram vinte anos a mais. Durou 21 anos o período de ditadura, marcado por prisões dos que se manifestavam contra o regime de exceção; censura à imprensa; tortura de estudantes que ousavam discordar (alguns ainda vivos, como a jornalista Miriam Leitão); e assassinato de jornalistas como Valdimir Herzog; cassação de mandatos de parlamentares; exílio de artistas (entre eles Chico Buarque de Hollanda, Caetano Veloso, Gilbert Gil); desaparecimentos (depois revelados como homicídios) de políticos; malfadado atentado a bomba; decretação de atos institucionais que anularam qualquer tipo de liberdade de expressão. Diante desse brevíssimo resumo, a pergunta que se faz é: comemorar o quê? Tudo está documentado, historiado, filmado, testemunhado. Não é obra de ficção. Tentar um revisionismo nesta altura, além de inútil, é nefasto. E negar a história é incidir em erro gravíssimo porque é abrir caminho para repeti-la.
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