O jacarandá mimoso


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Da janela do seu quarto, quando o inverno se fora e com ele as folhas do jacarandá mimoso, Adauto contemplava o tronco enorme, seus imensos galhos de pontas finas, com uma abundância de flores arroxeadas a lhe fazerem companhia.

Solitária, a árvore destoava da paisagem, onde o cerrado encobria as distâncias. Ao seu redor, um tapete macio tecido com as flores despencadas, nos dias anteriores, aliviava a aridez do solo. Observando-se, unitariamente, tinha o formato de um trompete, longa no comprimento, abrindo-se com forma de taça, em cinco pétalas. Uma pigmentação branca em uma delas engendrava nuances lilases em seu conjunto. Um aroma muito delicado provinha desta árvore, forte, de casca dura e áspera cuja madeira rosada, considerada de lei, é buscada, entre outros fins, para confecção de móveis de palácios e prédios nobres.

O nome “jacarandá” mimoso alia robustez e delicadeza, predicados encontrados em Adauto, morador daquelas plagas. Vivera por lá, desde que nascera. E atraía a companhia de adultos e crianças que se apegavam a ele por sua afabilidade. De estrutura forte, alta, tinha a pele embrutecida pelo sol constante, o que não diminuía a afetuosidade de seu sorriso, nem o brilho amigo do olhar. Quando falava, sua voz, desprovida de rispidez, surgia branda e tranquila, não parecendo vir de pessoa tão resistente e vigorosa.

No trabalho, manuseava instrumentos pesados, derrubava bezerros para curá-los, transportava sacos de café, de milho, de ração, montava cavalos, podava árvores, carregava cachos de banana, enfim, tinha muita facilidade com serviços que exigiam força, mantendo o sorriso e o bom humor. Dizia que era feliz com a vida que levava. Sozinho há tempos, perdera os pais e um amor verdadeiro que sentira, mas não fora correspondido. Tinha em uma família amiga, confiança e amizade que lhe bastavam para viver. Este elo vinha se fortalecendo há muitos anos.

Adauto era tão querido como o forte jacarandá mimoso que tem nas flores a suavidade que o enternece. Ele possuia, nos sentimentos e nas atitudes, flores tão primorosas como as da árvore. 

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