Após intenso bate-boca, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, passaram o domingo (24) calados.
Desde sexta-feira (22), os dois vinham trocando farpas sobre a articulação política da reforma da Previdência, pela imprensa e por redes sociais.
O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), visitou Bolsonaro no Palácio da Alvorada na manhã deste domingo e tentou mostrar uma tentativa de aproximação.
O deputado, no entanto, afirmou a colegas de partido que Bolsonaro está convicto de suas atitudes. Isso acirrou a tensão entre os Poderes. Em mensagens de WhatsApp para a bancada do PSL, ele indicou que Bolsonaro não negociará e fez criticas à velha política.
Em clima de hostilidade, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) prevê audiência nesta terça-feira (26) com o ministro da Economia, Paulo Guedes, para falar da reforma.
Além disso, parlamentares do chamado centrão, ligados ao PP, PRB, PR e DEM, preparam pautas para derrotar o governo Bolsonaro.
Na semana passada, mesmo integrantes do PSL mostraram irritação com a falta de articulação do governo e criticaram o envio da reforma da Previdência dos militares com a reestruturação da carreira.
As postagens do líder governista no grupo da legenda ocorreram logo depois de um encontro dele com o presidente, no Palácio da Alvorada.
"Nosso presidente está certo e também convicto de suas atitudes. Estive com ele hoje [domingo] pela manhã. As práticas do passado não nos levaram ao caminho em que queremos estar", escreveu o líder no grupo de deputados, por volta de 13h30.
"Todos nós, em particular do PSL, somos agentes para ajudar a mudar a situação em que nos encontramos."
"Todos que nos elegemos nessa Legislatura (passamos, pois, pelo crivo das urnas e da população que não aguenta mais...), eleitos e reeleitos, temos a possibilidade de escolher de que lado estar... Somos todos a nova política. Não dá mais...", escreve.
Duas postagens em seguida fazem referência a supostas negociações de cargos nos governos Michel Temer (MDB) e Dilma Rousseff (PT) em troca do apoio do Congresso.
A primeira mensagem resgata reportagem do jornal O Globo de novembro de 2017, com o título "Para aprovar mudanças na Previdência, Temer autoriza Maia a negociar cargos".
A segunda é uma charge que ironiza o diálogo do governo Dilma com o Congresso. Na imagem, a ex-presidente leva ao Congresso um pacote de cargos para garantir as conversas.
Parte da troca de mensagens chegou ao presidente da Câmara e está circulando entre os principais líderes partidários. Elas foram recebidas como agressões do líder do governo à política.
No sábado (23), Maia disse que o presidente precisa mostrar o que é a "nova política". Ele afirmou também que o presidente da República deveria assumir responsabilidades e não terceirizar a articulação política.
A avaliação do grupo do presidente da Câmara, após as mensagens do líder, é que Bolsonaro não está disposto a mudar sua relação com deputados e senadores, embora Vitor Hugo tenha saído do encontro com o presidente falando em aproximação.
"A semana passada foi uma semana muito tensa e agora a gente vai caminhar para uma aproximação", disse.
À reportagem o líder do governo afirmou que suas mensagens não foram ataques a Maia, mas foram enviadas para reforçar o posicionamento de mudança de práticas. Ele disse que a expressão "velha política" não foi usada.
"Eu não fiz crítica alguma ao Rodrigo [Maia]. O que eu fiz foi o seguinte: eu reforcei a posição do presidente da República, a disposição dele de trabalhar de uma maneira diferente", afirmou.
"Eu fui na casa dele também para ajudar a traçar estratégia para apaziguar, eu venho tentando aproximar os Poderes, desde que assumi, na verdade. Mas eu concordo com o presidente quando ele mantém essa determinação de seguir o que ele falou no discurso de campanha", disse.
DEFESA
Parlamentares e partidos têm reforçado apoio às declarações de Rodrigo Maia (DEM-RJ). O presidente do PRB, Marcos Pereira, disse que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) parece não querer aprovar a reforma da Previdência.
"Bolsonaro sempre votou contra todas as propostas de reforma durante 28 anos como deputado, durante sua campanha criticou a reforma da Previdência, disse na quinta que não concorda com ela, e agora joga a responsabilidade para o Parlamento. Ele parece não querer aprovar a reforma", escreveu Pereira, primeiro vice-presidente da Câmara, em uma rede social.
O deputado Cacá Leão (PP-BA) disse que o governo precisa descer do palanque. "A responsabilidade de aprovar a reforma da Previdência é do presidente da República! O governo precisa descer do palanque e discutir com os parlamentares os ajustes", afirmou.
Partidos como o DEM e o PSD divulgaram notas sobre a crise entre Maia e Bolsonaro.
"A implementação de regras duras e necessárias que cortem privilégios depende de posturas corajosas e de defesas enfáticas. O mundo real é assim. O virtual aceita ataques que só geram ódio, não o desenvolvimento", diz o DEM.
A nota assinada pela bancada do PSD na Câmara argumenta que as agressões contra Maia atingem o Legislativo.
"Tais ataques, movidos por interesses não confessáveis e agentes manipulados, tentam amesquinhar o debate democrático", afirma a nota da bancada, que reúne 34 deputados.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também se manifestou sobre o embate em rede social.
"Paradoxo brasileiro: os partidos são fracos, o Congresso é forte. Presidente que não entende isso não governa e pode cair; maltratar quem preside a Câmara é caminho para o desastre. Precisamos de bom senso, reformas, emprego e decência. Presidente do país deve moderar não atiçar."
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