Teoria e prática


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Qualquer brasileiro bem informado sobre os problemas mais graves das finanças do País sabe que a Reforma da Previdência é pedra no caminho da retomada do crescimento. Muito pouco crescemos no último ano e o desemprego éuma prova disso: mais de 12 milhões de brasileiros buscam trabalho em média há dois anos. As filas quedobram quarteirões em resposta a qualquer anúncio deabertura de vagas têm sido mostradas pelas mídias televisivas e são uma indicação inequívoca de economia travada. Na última sexta-feira, e pelo quarto dia consecutivo, a Bolsa de Valores se manteve em queda, enquanto o dólar alcançou alta de 2,59%, em resposta aos temores do ritmo da economia global mas também às indefinições sobre a Reforma da Previdência, principal fator para o equilíbrio das contas públicas. A dívida brasileira só cresce e o reequilíbrio só pode vir de umareorganização da Previdência. Enquanto não houver firme decisão indicando que a reforma acontecerá, as incertezas serão a única certeza dos investidores. E isso será péssimo para nós.

A Reforma enfrenta dificuldades para se concretizar. Ainda que Jair Bolsonaro tenha voltado atrás nas suas convicções dedeputado, quando se mostrou frontalmente contra ela, e como presidente da República democraticamente eleito tenharevelado consciência da sua necessidade, há muito chão a trilhar. Ir ao Congresso entregar em mãos a proposta revelou boavontade com o tema. Mas a atitude, por si só, é inócua. O jogode interesses entre Executivo e Legislativo na aprovação dosprojetos, sejam grandes ou pequenos, continua mais vivo quenunca. Não deixou de existir apenas porque Bolsonaro disseem campanha, e voltou a dizer depois de eleito, que não aceitaria o toma-lá-dá-cá –cá que desde sempre marcou as votações. Por outo lado, há as susceptibilidades. Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, demonstrou nas últimashoras que pode deixar de aplicar toda sua força e carisma noconvencimento dos parlamentares para que votem a favor.Ele, cujo trabalho de articulação vinha sendo consideradoessencial, sentiu-se desconfortável, para não dizer irritado,com uma chuva de ataques desferidos contra sua pessoa nasredes sociais por aliados de Bolsonaro. Por isso, em resposta à deputada estadual Janaína Paschoal, disse que vai continuar defendendo e tentando influenciar os deputados com quemconversa, mas, “quem tem de formar maioria é o governo.” Era tudo o que o governo não desejaria ouvir. 

Porque sem votos, nada feito. E para conseguir os votos necessários, terá sim de partir para as negociações, algo sobre oqual Bolsonaro demonstrou sério repúdio quando candidato. Entretanto, se quiser ver aprovada essa Reforma, que éo primeiro e imprescindível passo para que as contas se organizem e o Brasil possa voltar a atrair investidores e assimsair da estagnação, terá de renunciar a seu desejo de fazeras coisas a seu modo, ou seja, apenas a partir de sua vontade, ainda que os objetivos sejam os melhores e mais puros. Porque na prática a teoria é outra e na vida democráticanão se governa a não ser conversando, argumentando, convencendo, recuando e... cedendo algumas vezes, pelo bemcomum.

 

 

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