Explosões de ódio


| Tempo de leitura: 3 min

Que o ódio faz parte do pacote de sentimentos com que somos aquinhoados desde nosso nascimento, é uma verdade da qual não podemos escapar. Ele compõe com outras menos nobres emoções a herança legada por nossos ancestrais da caverna, ainda a meio caminho do homo sapiens. Carga pesada, com ele temos de aprender a lidar desde a infância e com ele seguirmos vida afora. Negar sua presença em nós é trilhar o caminho da ignorância que não leva à verdade. Reconhecer é compreender como desarmá-lo em nosso íntimo e como não desencadeá-lo nos outros.

Individualmente é trabalho custoso, retomado durante toda a vida. Socialmente é empreitada gigantesca, na qual os povos devem se empenhar para não serem aniquilados. As explosões de ódio contra grupos sociais estão tomando características cada vez mais surpreendentes e aterradoras. Na sexta-feira, quarenta e oito horas depois do massacre de Suzano, que deixou os brasileiros perplexos e levou o País para o noticiário internacional, outro massacre, de outra natureza mas tão perverso quanto, voltou a assustar o mundo. Na Nova Zelândia, nação que ocupa o segundo lugar em segurança num ranking recente, 49 pessoas morreram; e dezenas, incluindo crianças, ficaram feridas, depois que um atirador, usando arma automática, invadiu duas mesquitas da cidade de Christchurch, uma delas repleta de fiéis. Antes, o autor dessa barbárie havia postado um manifesto contra muçulmanos e imigrantes.

Causou estupor no mundo o fato de que um vídeo de 17 minutos publicado numa rede social mostrou ao vivo o atentado. As imagens foram feitas a partir de uma câmera instalada no capacete do atirador. Nem Oriente, nem Ocidente haviam visto isso antes- a espetacularização do horror numa live. O fenômeno desde então vem sendo discutido por especialistas, tal é o alcance de seus componentes políticos, sociais e éticos.

A Internet tem tido papel essencial nesses ataques letais. Se em Suzano descobriu-se que os jovens assassinos possuíam acesso à Deep Web e à Dark Web, espaços que nada dizem a 90% dos navegadores, e onde se escondem traficantes de armas, pedófilos e outros criminosos difíceis de rastrear, na Nova Zelândia a forma como o massacre foi orquestrado e conduzido demonstrou que já não é suficiente matar, é preciso acionar o público para acompanhar ao vivo. E compartilhar o máximo possível.

A demora que caracterizou a ação da rede social na retirada do vídeo preocupou técnicos e levou a considerações sobre a necessidade de criação de filtros que possam impedir que isso se repita. O número gigantesco de compartilhamentos em tão curto espaço de tempo revelou mais uma vez o alcance da internet, que como todo conhecimento é poder, resgatando frase de Foucault.

Num desses programas de TV que levam logo o assunto para as telas, um especialista em tecnologia traduziu logo após o massacre na Nova Zelândia uma verdade que seria mais esperada na boca de um educador: “Não adiantam filtros se não houver mudança nos seres humanos”. De fato. O que atiça o ódio, em todos os casos, tem sido a não aceitação do outro, intolerância que sempre existiu mas se agravou nas últimas décadas.


email opiniao@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários