Criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Internacional da Mulher foi consolidado como uma data para relembrar a luta contínua das mulheres por melhores condições de vida, convivência, acesso ao mercado de trabalho e ao exercício da cidadania. Mesmo levando-se em conta os direitos conquistados desde o final do século 19, como o de votar (graças a movimento iniciado pelas bravas sufragistas inglesas), dados em torno de casos de violência e de feminicídio ainda registram números assustadores e mostram como ainda é perigoso ser mulher, em pleno século 21. Em muitas regiões do planeta isso ainda é mais temerário que em outras. O Brasil se inclui neste caso.
Feminicídio é o nome conferido pela lei ao crime em que a pessoa é assassinada pelo simples fato de pertencer ao gênero feminino. Em 2018, o cenário em que esses crimes ocorreram em nosso país foi na maioria das vezes o espaço doméstico, com uso de arma de fogo, e o criminoso era um parceiro ou ex-parceiro da vítima. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil já ocupa o lugar lastimável de quinta maior taxa de feminicídios entre 84 nações pesquisadas. E, mesmo possuindo diversas políticas de proteção à mulher – como a Lei Maria da Penha, que entrou em vigor há treze anos – o País ainda convive com rotina execrável de uma mulher morta a cada duas horas.
Entre os números dessa estatística trágica esteve, no ano que passou, a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada covardemente a tiros, junto a seu motorista, quando saía de um encontro onde havia conversado com uma centena de mulheres sobre temas difíceis mas necessários: violência, preconceito, abusos diários e inadmissíveis numa sociedade que se quer democrática, onde a lei deveria imperar e a justiça ser feita.
No próximo dia 14 fará um ano que isso aconteceu. Fará um ano que a policia investiga. Fará um ano que nenhuma informação relevante se fez. Fará um ano que assassinos e possíveis mandantes estão em liberdade, protegidos por uma rede tão invisível quanto tenaz. Neste contexto, a celebração do Dia Internacional da Mulher entre nós mancha-se com o roxo da violência e o cinza da impunidade. Oriunda do morro, pobre, negra, lésbica, a líder feminista, que conquistou seu espaço a duras penas, tornou-se pela reunião de todos os estigmas, símbolo de milhares de mulheres vitimizadas pela violência no país.
Em boa hora a Mangueira homenageou a vereadora que morreu mas permanece viva na memória daquelas a quem ela inspirou com sua coragem e espírito de luta, consciente de que na base de toda essa brutalidade social, permanece o preconceito, que só a educação poderá liquidar. Einstein disse que era “mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. Que a frase nos sirva como desafio e não desalento.
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