O presidente da União das Escolas de Samba de Franca, José Policarpo, tem enfrentado muitas críticas em 2019 por conta da realização do Carnaval em Franca. Mas, para alguém como uma história de vida singular como a dele, desistir não é uma opção.
Como começa a sua história? Você é de Franca?
Eu nasci em Delfinópolis, sou mineiro. Vim para Franca com 10 anos. Acabei morando na Santa Cruz. Então, logo com 10, 12 anos, começamos a ver algumas coisas da Aliados da Santa Cruz. Depois passei cerca de dois anos na Vila São Sebastião e depois nos mudamos para o Leporace. Foi um período em que a escola Filhos de Ghandi que, apesar de ter 44 anos, estava sem desfilar. Então resolvemos, junto com o Lázaro Barato, retomar as atividades da Filhos de Ghandi. Depois que ela voltou, em 2006, estamos constante lá.
Você sempre trabalhou com eventos?
Tenho uma empresa que presta serviços de forro de pvc, piso laminado, mas na verdade eu sou enfermeiro. Assim. Eu já fui borracheiro, depois fui trabalhar em fábricas de sapato, depois fui trabalhar na Santa Casa como enfermeiro.
Você se formou em Franca?
Foi em 1989. Na época tinha um curso da Santa Casa mesmo. Trabalhei no Allan Kardek, trabalhei 4 anos na selva amazônica com os índios yanomamis, tive malária 15 vezes.
Como assim? Como você foi parar lá?
Quando eu trabalhava na Santa Casa surgiu um Núcleo de Estudos Indígenas da Unesp. Em Boa Vista, em Roraima, na época, por volta de 2002, estava uma epidemia muito grande de malária e febre amarela. Através do Núcleo montamos um grupo de pessoas para trabalho voluntário lá. Quando me vi, estava numa selva, na tribo que não fala português, onde andam todos nus e fiquei. Fui ficando. Depois trabalhei na Fundação Nacional de Saúde, trabalhei para o Ministério da Saúde, para a Funai.
Seu trabalho era de enfermeiro?
De enfermeiro. Para cuidar dos índios.
Onde você morava?
Aqui falamos Oca, Maloca. Mas também moramos em casas de madeira. Quando fomos para lá, tinha muito garimpo. Então, a Polícia Federal estava tirando os garimpeiros e ficavam umas casas de madeira abandonadas. Mas era tudo muito precário.
Eram quantas pessoas?
Chegamos a ficar em 10, em outros tempos em 2. De Franca fomos em 8, mas tinha pessoas de todo o país, da França, da Itália. Montavam equipes com um médico, um enfermeiro, um interprete, as vezes alguem de laboratório e montavamos o local.
Quanto tempo você ficou lá?
Quase seis anos. Fiquei quatro anos trabalhando na selva, eram dois três meses na selva e uma semana de folga na cidade. Depois desse tempo tive malária mais de 15 vezes, estava com a saúde complicada e fui trabalhar na cidade, na logística das equipes. Fazia a logística de equipamentos, aviões, grupos.
Você voltou e foi morar no Leporace?
Eu moro no Leporace desde 1982. Deixei de morar lá só nessa época em que fui para Roraima. Depois fui trabalhar no sindicato da enfermagem. Paralelo com isso veio a escola de samba.
Como foi a ideia de retomar a escola de samba?
Ela já existia. A escola de samba do Leporace, a Filhos de Ghandi, nasceu em 1975. Mas ela estava parada. Foi quando eu e o Lázaro Barato nos juntamos e fizemos uma diretoria e montamos uma escola de samba. Eu lembro da dificuldade. Usamos uma mesa de cozinha para fazer um carro alegórico naquele ano. Muito complicado.
Você lembra de quantas pessoas participaram do desfile naquele primeiro ano.
Chegamos a colocar quase 200 pessoas na avenida. Com muita dificuldade, mas foi renascendo. Vimos que as pessoas queriam, tinham o interesse na cultura.
Além da Filhos de Ghandi, naquela época o Carnaval era muito desarticulado também…
Na verdade, o que acontecia: de lá para cá o Carnaval começou a se profissionalizar, a se legalizar. O ex-prefeito Sidnei Rocha chamou as escolas e falou da importância das escolas se legalizarem. As escolas existiam, mas a documentação não era tão organizada. A partir daquilo, o ex-prefeito pediu para que começássemos a nos profissionalizar.
Você conheceu a época dos desfiles na Avenida Presidente Vargas?
Conheci, mas ainda era criança.
Quando você pensa sobre a história do Carnaval, essa época da Presidente Vargas parece ter atraído um público maior que atrai hoje?
Eu escuto muito isso, mas por um lado não acredito que tinha mais gente. O que acontece? A avenida é muito estreita e comprida, então dava a entender que tinha uma multidão de gente. As pessoas ficarem entre a rua e a calçada, é um espaço muito curto. Hoje temos noite que vão 20, 25 mil pessoas. Então acho que não é um público pequeno. Comparando o número de pessoas, acho que cada dia que passa está indo mais gente. Muita gente gosta daquela época, mas a Presidente Vargas tinha uma estrutura complicada.
É positiva a memória que se tem daquela época…
Justamente. Em virtude da legalização das escolas, a estrutura vem. Hoje temos estacionamento, tem como colocar banheiro, arquibancadas, tendas. Tudo isso na Presidente Vargas não era possível. Imagina hoje fechar a Presidente Vargas por cinco dias. A avenida Flávio Rocha hoje é fechada em dias de Carnaval a partir das 18h. Então há uma outra estrutura, a questão da segurança. Eu acho, para mim, que estamos em um lugar legal.
Porque, ano após ano, não se consegue criar uma estrutura para o Carnaval de Franca como em Batatais, por exemplo, que tem um reconhecimento maior, uma imagem melhor?
No meu ponto de vista, não perdemos nada para Batatais. O que pode haver é uma distorção da maneira como é colocada. Lá tem as mesmas 6 escolas, mas a verba é três vezes maior que as escolas de Batatais. Elas têm uma estrutura de quadra, que em Franca não tem. Se você for hoje nas escolas de Franca, está todo mundo fazendo solda dos carros sob a chuva, na rua. Mas em número de pessoas, temos uma quantidade maior. Também tem a questão financeira, a verba lá sai antes, as empresas de Batatais incentivam. Por Batatais ser uma instância turística, vem uma verba do governo federal e estadual. Ela tem um local apropriado para vender um camarote, onde se cobra ingresso. Tudo isso acaba parecendo que ele é melhor, que é mais organizado. Na verdade, temos dificuldades maiores porque não temos barracões, mas trabalhamos o ano todo.
Parte das reclamações que vimos muito em redes sociais agora é que durante o ano, as escolas fazem pouco e só se trabalha o Carnaval nas vésperas.
Primeiro, a escola de samba é uma empresa constituída. Tem imposto de renda, toda a formalidade que uma empresa normal tem. A única diferença é que não temos funcionarios, não conseguimos arcar com essa despesa. No ano todo, são voluntários. Como trabalhamos? Até passar o Carnaval é correria para organizar, depois temos a prestação de contas. Ela é importante porque, sem ela, no ano seguinte as escolas não podem pegar recursos. Depois de 30 de abril até o próximo Carnaval começamos os eventos. Fazemos feijoada, festa da pizza, fazemos almoço, a maioria das baterias hoje está com suas alas shows tocando em casamentos, aniversários, fazendo shows em cidades da região. Mas, por exemplo, uma ala show vai fazer uma apresentação em um casamento, fica privado para seus convidados. Mas ela trabalha. Na verdade, as escolas trabalham o ano todo. Também temos eventos sociais, tocamos em creches, asilos. Mas é que muitas pessoas se lembram das escolas de samba próximo do Carnaval.
Quanto custa um desfile para uma escola?
Hoje, na verdade, mais de R$ 100 mil. Hoje tem o portal da transparência e tenho pedido para as escolas prestar contas de tudo para a população ter uma noção melhor. Vemos o desfile em São Paulo, no Rio, mas uma única pena de faisão hoje custa R$ 180. Então, essas coisas que não aparecem, são muito caras. Carnaval é muito caro. Mas se não for também a parte das escolas, não se consegue fazer só com o dinheiro da prefeitura. As escolas gastam praticamente o dobro.
Você não sente falta de um planejamento melhor, em que a Prefeitura pudesse acompanhar tudo que é feito durante o ano?
Temos falado principalmente com o prefeito Gilson de Souza, que tem aberto as portas para que tentemos alguma coisa. Porque, uma coisa que quero deixar bem claro para a população que é contra o Carnaval, somos praticamente uma das únicas entidades de Franca que entra pela porta da frente da Câmara Municipal. Todo ano estamos lá para dar a cara para bater. Tem muita entidade hoje que pega mais que o Carnaval, mas é feito de outra maneira.
Como assim?
O dinheiro da Cultura. Não digo que não mereçam. Por exemplo, na quita-feira mesmo em Franca teve o chamamento da cultura. As instituições podem ir lá, apresentar o projeto e a prefeitura repassa o dinheiro. Esse dinheiro para eles é o ano todo, em 10, 12, 6 parcelas. Do Carnaval é ao contrário. Normalmente ela vai na última sessão da Câmara do ano, para ser aprovada, para depois cumprir os prazos - porque tem prazos a serem cumpridos - e chegamos dois dias antes do Carnaval ainda não recebemos… Temos pedido para a administração para que a gente possa se organizar. Imagina assim, eu chego em uma empresa com uma proposta de apoio, para mostrar um projeto que queremos levar para a avenida. Mas aí há uma incerteza se o Carnaval vai acontecer mesmo ou não. Essa indefinição é um problema para as empresas, para as próprias escolas… O Carnaval hoje é um calendário nacional. Em Franca são 60 anos. A Expoagro vai completar 50. Também é uma tradição. Não estou dizendo que sou contra. Eu acho que existem meios. Eu acredito que a prefeitura pode ajudar todas as linhas da cultura, inclusive religiosas. A prefeitura está cumprindo a lei.
Esse ano você sentiu uma crítica maior ou todo ano é assim?
Todos os anos. É que hoje vivemos num mundo de redes sociais e aí as críticas aparecem mais. Ao mesmo tempo, se você for ver, também têm pessoas a favor. Então, às vezes é muito injusto. Infelizmente, as pessoas vão pela emoção de que a saúde está ruim. É verdade. Mas a saúde está ruim por causa do Carnaval? Por exemplo, temos problemas com a Empresa São José há quase 50 anos. É por causa do Carnaval?
Mas você não sentiu que esse ano a pressão foi maior?
Para falar a verdade, o que ficou mais complicado foi na Câmara Municipal. Hoje temos 5 ou 6 (vereadores) evangélicos. Eu acho que a Câmara também ajudou a gerar isso. Se você analisar, o ano passado tinha o Donizete da Farmácia que sempre votou pelo Carnaval, mas esse ano ele é presidente e não vota. O Marco Garcia e o Adérmis Marini sempre votaram pelo Carnaval, mas por uma opção de ser oposição ao prefeito votaram contra. Mas aí eu pergunto: eles são contra o prefeito ou contra o Carnaval? Eles votaram nos anos anteriores. Então tudo isso em rede social se transforma em um espetáculo enorme.Por exemplo, mais recentemente tivemos o problema das enchentes. Mudei para Franca em 1982 e tinha enchentes nos mesmos lugares. Quantos prefeitos passaram de lá até agora? Quantos prefeitos nos últimos 60 anos sempre aprovaram a verba para o Carnaval? Aprovaram porque é uma garantia prevista na Constituição, segurança, lazer, habitação, tudo isso. Então eu pergunto assim: 2017 a Feac devolveu R$ 2,5 milhões para a prefeitura. Porque não devolveu para a saúde? Porque não pode. Em 2018 ela devolveu quase o mesmo valor. O que acontece? As vezes a má informação das pessoas gera esse conflito. Por exemplo, temos em Franca o Bolsa Cultura. Em 2018, foram distribuídos mais de R$ 2 milhões para entidades que trabalham com esporte e cultura. Só uma instituição recebe R$ 203 mil para dar aulas para 40 alunos. Sou contra? Não. Tem que aumentar para eles e aumentar a quantidade de alunos. Na verdade, as pessoas não sabem para onde o dinheiro está indo.
Você não concorda também que falta, historicamente, uma organização melhor do Poder Público em relação ao Carnaval?
Mas não podemos misturar que não tem o médico na UBS porque o Carnaval é o culpado. Não tem médico na UBS porque os médicos não querem trabalhar para prefeituras. As prefeituras abrem concurso e o médico não quer ir. E aí temos uma outra coisa que acho gravíssima. As pessoas têm que entender. Em 1982, quando eu comecei, Franca tinha um hospital infantil, três prontos socorros e todos os trabalhadores da área calçadista tinha plano de saúde. Hoje (muitos trabalhadores) não tem plano de saúde, não tem hospital infantil, não tem os três prontos socorros, a população triplicou e atende mais de 23 cidades. Então é natural chegar no PS e ter muita gente para ser atendida. Estamos com a mesma estrutura de quase 40 anos atrás, mas a população mudou muito. Então, a culpa não é do Carnaval. E não é só na saúde, mas em uma série de questões.Se você pegar os últimos dois anos de Carnaval, não tem uma ocorrência policial sequer no Carnaval de Franca.
Vocês conseguiram estabelecer uma boa relação com a Polícia Militar?
Lógico. Hoje também tem a Guarda Municipal. Mas tudo isso também é um trabalho feito na Comunidade. Antigamente tinham as gangues, hoje não. Fizemos agora em novembro/dezembro eventos em que todas as escolas de samba foram obrigadas a ir nos eventos das outras, nos outros bairros. Está sendo uma festa muito bonita. As pessoas estão se conhecendo, se ajudando. Estamos trabalhando para envolver a comunidade. Por exemplo, fizemos a escolha da rainha do Carnaval em que o ingresso era um quilo de alimento. Foi arrecadado mais de uma tonelada de alimento que doamos para o Fundo Social. Isso também é trabalho social das escolas.
Além do trabalho que o Carnaval gera...
Pior que todas as pessoas que vivem do Carnaval fazem uma jornada dupla, porque elas também têm o trabalho delas. E não podemos esquecer de todo o trabalho que as escolas geram. Tem costureira, tem produtor, tem artesão, tem soldador, músico, uma série de pessoas envolvidas nisso. Nós geramos emprego, mas infelizmente não conseguimos gerar ele o ano todo. Pessoal participa de workshops, está aprendendo. Se você ver nosso Carnaval, ele está muito profissional. É lógico, falta muito.
Como você o futuro? Para fazer um Carnaval melhor?
Hoje esbarramos nas leis. Estamos pedindo para a administração para fazer via chamamento, para ser feito mais cedo. E com isso podemos trazer a iniciativa privada para ajudar. Mas mesmo na administração enfrentamos as dificuldades das leis. Se houver uma previsão de que o Carnaval vai acontecer, podemos oferecer parcerias para as empresas. Porque depois do Carnaval vem Expoagro, Festa do Mineiro, Feira do Livro, Cavalhadas, depois tem o Réveillon e depois que vamos pensar em Carnaval. Não podemos fazer isso. Precisamos de uma agenda. Para você ter ideia, cada escola é obrigada a colocar 50 crianças na avenida. Justamente para não quebrar a tradição. Para as pessoas aprenderem a gostar do Carnaval, a tocar um instrumento. Temos planejado isso.
Como é o envolvimento da comunidade? Não deve ser fácil ter 200 pessoas em cada uma das seis escolas na avenida.
Se eu tenho um trabalho o ano todo, a comunidade está envolvida. São as festas, ensaios. Se temos tudo isso, não há dificuldade de ter pessoas. Temos famílias inteiras que se interessam. Poderíamos estar colocando 500, mas vem a questão financeira. Se 200 é difícil, imagine 500. Tem uma outra questão que se fala muito de estrutura. Infelizmente quase todo Carnaval chove. O ideal seria ter uma quantidade de arquibancada, precisamos de banheiros adequados, seguranças. Então ainda tem muita coisa que até empresários podem ajudar.
Diante de tantos problemas, você nunca pensou em desistir?
Olha, todo Carnaval (risos). Todo ano eu penso cansei, não dá mais. É só crítica. Mas depois que você vê o trabalho de um ano, parece que você se renova. Infelizmente, a gente pensa. Não só eu. Acho que todos os presidentes e integrantes pensam sim. Mas as pessoas gostam mesmo. Eu sei que hoje tem pessoas que não gostam. Mas geralmente é por opção de religião, gente que vai para retiro e outras coisas. Mas eu pergunto: é justo uma pessoa que tem dinheiro para ir para um rancho, que pagou o mesmo imposto de uma pessoa que mora no Aeroporto 4, ter o lazer e a outra não? Se você pegar a verba do Carnaval e dividir pelo número de integrantes mais o público que vai assistir os desfiles não dá R$ 2 por pessoa. É um dos eventos mais baratos que se tem. Aí pergunto, e o investimento da Expoagro? Que não tenho nada contra, sou a favor. Sou a favor do Basquete, da Francana. É só para ter um comparativo. A prefeitura investe e depois a pessoa ainda tem que pagar ingresso. Ninguém fala nada? Como vários outros exemplos. (...) Estamos quase chegando a conclusão que é um preconceito. Porque quando se tem um evento de uma classe média alta, pode. Da classe pobre não pode?
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