Oprefeito de Restinga, Amarildo Nascimento, nasceu na roça. Ao lado de nove irmãos, cresceu trabalhando a terra até que teveuma oportunidade na Prefeitura da cidade. Lixeiro, coveiro e responsável por limpar estradas e esgotos da zona rural, encarou muito trabalho duro. Agora, quase 30 anos depois, a batalha mudou, mas não é mais fácil: apaziguar o clima politicamente quente da cidade que sofreu anos a fio com muita instabilidade entre seus governantes.
Como foi a sua juventude?
Eu sempre trabalhei na roça. Vim de família humildade, uma família de 9 irmãos. Sempre moramos e trabalhamos na roça. Em 1980 eu tive uma oportunidade de trabalhar na prefeitura. Estava com 17 para 18 anos.
Como era o trabalho?
Fui lixeiro, fui coveiro da Restinga. Limpei estradas e esgotos e tive a oportunidade, na sequencia, de trabalhar internamente na Prefeitura. De 1980 a 1983 trabalhei como lixeiro, coveiro e limpador de esgoto das estradas rurais. Em 1983 eu tive a oportunidade de trabalhar como lançador, como era chamado na época. O lançador era o que lançava os impostos da prefeitura, como o IPTU, ISS e assim por diante. Comecei minha carreira política ali. Quando eu entrei na prefeitura em 1983 eu já me filiei ao PMDB, ainda sem pensar muito em política. Fui trabalhando, atendia o pessoal, fazia as relações públicas praticamente. Porque eu trabalhava na linha de frente, atendendo as pessoas. De uma maneira muito prestativa. Em 1988 eu fui convidado para ser candidato a vereador pelo PMDB. Aí me candidatei e fui eleito em quarto lugar entre os mais votados. Naquela época tive 100 votos.
O senhor foi vereador por quantos mandatos?
Fui de 1989 a 1992, depois me reelegi em 1992 com 169 votos. Fui presidente da Câmara nesse período e, na eleição de 1996, fui vice do finado Belão.
E foram eleitos?
Fomos eleitos. O mandato foi de 1997 a 2000, depois fomos candidatos a reeleição. Em 2004 fui eu o candidato a prefeito. Aí fui prefeito pela primeira vez de 2005 a 2008. Na eleição de 2008 eu não fui candidato. Resolvi tirar o pé do acelerador.
O senhor não tentou a reeleição?
Não fui porque o Belão tinha a intenção de ser candidato e, se saíssem dois, rachava o grupo e ele corria o risco de perder a eleição. Aí decidi descansar.
Houve algum rompimento entre vocês?
Não teve. Eu tenho a tranquilidade de saber que como vice prefeito, eu tinha as minhas limitações. Como prefeito, tinha que executar as minhas funções de prefeito. Eu não cheguei a romper com ele porque, se fosse para eu romper, eu seria o candidato também. Então, tive essa cautela.
Naquele ano ele foi eleito?
Foi e eu fiquei quatro anos fora. Quando chegou a eleição de 2012 eu decidi ser candidato também. Aí eu fui candidato a prefeito pelo PMDB. O Belão já tinha falecido. Quem assumiu o cargo foi o vice, que era cunhado dele. Perdi a eleição no dia por diferença de pouco mais de 100 votos.
Quem eram os adversários?
Era eu, Paulo Pitt e o prefeito daquela época, que era o Donizete que tinha assumido com a morte do Belão. Não perdi. Eu ganhei. Pelo que aconteceu na cidade depois... Mas tudo bem. Continuei fazendo o meu trabalho e chegou a eleição de 2016 e conseguimos vencer.
O que levou o senhor a pensar em ser prefeito da cidade?
Primeiro que eu nasci na cidade. Eu sempre tive o objetivo de fazer algo importante. Melhorias para nossa cidade. Não era para satisfazer um ego meu. Comecei como vereador, mas falei “vou chegar a ser prefeito para fazer algo importante”
Então, desde o começo, era um pensamento ser prefeito?
Claro. Todo mundo tem um objetivo na vida e o meu era ser prefeito da Restinga, ver a cidade desenvolver, crescer. Não passar aquilo que ela passou nesse período de quatro anos. Porque ela vinha numa sequencia, mas chegou em 2013, a coisa desandou.
Historicamente, a política em Restinga é efervescente. Ou ficou mais tenso nesse período?
Restinga sempre teve um clima quente politicamente. É igual Corínthians e Palmeiras (risos). Mas, Graças a Deus, no meu mandato eu procuro ter uma harmonia, principalmente com a Câmara Municipal. Eu respeito o espaço de todo mundo, respeito a ideologia de cada candidato, de cada partido, de cada grupo. Desde que eles respeitem o meu também. Eu sou uma pessoa que procura muito manter um bom diálogo porque se você for bater de frente, não se leva nada. É só desgaste, é só problema. Meu objetivo ao ter sido candidato e ter ganhado a eleição em 2016 era fazer com que Restinga voltasse a ter a sua credibilidade. E isso tem hoje.
O senhor acredita que conseguiu acalmar o clima?
Credibilidade, respeito, comprometimento, dedicação. Eu me dedico 24 horas para a cidade.
Como é ser prefeito de uma cidade como Restinga, pequena em que todo mundo se conhece? O senhor é muito abordado?
É o seguinte. Eu considero isso muito normal. Porque uma pessoa pública, prefeito ou vereador, qualquer cargo que ela exerce, tem que estar preparada para as críticas, para os elogios. Enfim, acho isso muito natural. Tenho uma certa habilidade nessa questão, porque eu sei difundir as coisas. As vezes uma pessoa me critica nas redes sociais ou pessoalmente, você tem que estar preparado para aquilo. Ser prefeito de uma cidade como Restinga, para mim é muito gratificante. Não pelo cargo, não pelo salario, mas por tudo que estamos conquistando para a nossa cidade. Os benefícios, as obras que já fizemos até hoje, que vamos continuar fazendo.
Apesar do senhor dizer que não houve problemas com o Belão, é quase natural que, na ocasião quando o senhor era prefeito, tentar uma reeleição. Ele chegou a fazer alguma imposição de que seria candidato? Houve alguma conversa entre vocês?
Não houve qualquer tipo de pressão. Em espécie alguma. Ele chegou a conversar comigo que também queria ser candidato. Como eu tive um bom relacionamento com ele, como sempre tive. O Belão sempre foi um politico nato. Eu achei por bem também dar um tempo. Eu vinha desde 1989 na política. Chega uma hora que você tem que tirar o pé do acelerador.
O senhor acha que herdou os votos dele? Acredita que tenha o mesmo perfil dele?
Um perfil como o do Belão ninguém tem. O Belão era mais político e eu sou mais administrador. São duas vertentes diferentes. Lógico que eu herdei alguns votos dele sim, mas eu também tenho um trabalho realizado pela cidade. Eu tenho uma história. Isso me ajudou muito.
O senhor fala da sua relação com o Belão e como é a relação do senhor com a sua vice-prefeita?
A relação é boa. Não tenho qualquer problema com ela. Lógico que, como prefeito, qualquer ato lá a responsabilidade é minha. Agora, tem que entender que o cargo de vice prefeito é um cargo de expectativa. Mas se eu falar que tenho
Houve algum rompimento com ela?
Da minha parte não. De espécie alguma. Eu tenho amizade com ela. Infelizmente ela não pode assumir cargos na administração. Ela é funcionaria de carreira e vice-prefeita, mas ela não pode assumir cargos. Se eu disser que houve rompimento, da minha parte, não. Claro que o vice-prefeito, se não tiver conhecimento, se não for inteligente, a pessoa pode achar que o prefeito está queimando o vice. Mas o cargo de vice-prefeito é um cargo de expectativa. Ele só assume se, Deus me livre e guarde, se o prefeito ficar doente e tiver que afastar mais de 15 dias ou se morrer. Aí é diferente.
Um outro nome de restinga que é muito conhecido é o Paulo Pitt. O senhor tem alguma relação com ele?
A minha relação com o ex-prefeito é de amizade fora da política. Respeito, não tenho nada contra ele. De espécie alguma. Nós fomos vários anos adversários políticos, mas pessoalmente não. Cada um é responsável pelos seus atos.
O que o senhor acha que aconteceu nesse período de 2012 a 2016, quando houve tantos problemas na cidade. Foram cerca de 8 pessoas que assumiram o cargo de prefeito no período. Como o senhor acompanhou aquela movimentação?
No meu entender politicamente, o que houve ali foi a falta de diálogo político.
Entre o Paulo e a Câmara?
O Paulo Pitt e a Câmara. Não houve diálogo. Da outra vez que fui prefeito e agora eu procurei fazer o máximo de diálogo com a Câmara Municipal. Eu vejo que faltou isso com o ex-prefeito.
Foram três anos de muitas mudanças...
Aí virou aquela guerra. Entra prefeito, sai prefeito, entra presidente de Câmara...
O senhor chegou a ser consultado por alguém na tentativa de apaziguar a situação?
Não. Como servidor, fiquei no meu serviço. A gente sabe como funciona a política. Então, procurei não me intrometer porque cada um é responsável pelos seus atos. Mas, no meu entender, na minha ótica, o que faltou foi o diálogo e o entendimento.
Quando o senhor decidiu voltar a ser candidato? Foi nesse período de problemas?
Quem gosta da Restinga, quem nasceu lá, quem tem uma história como eu tive, não poderia deixar a cidade naquela situação. Alguém precisava encarar o problema. Decidi ser candidato e por a casa em ordem. Posso dizer com todas as letras que hoje a administração está em ordem. Restinga voltou a ter credibilidade. A prefeitura não tinha crédito para comprar um palito de fósforos. Acima de tudo, prefeito tem que ter comprometimento e responsabilidade. Isso eu tenho. Hoje as finanças estão em ordem. No primeiro ano nós fechamos todos os índices da Lei de Responsabilidade Fiscal, fui elogiado pelo Tribunal de Contas em vista dos anos anteriores. Não tinha CND, não tinha Fundo de Garantia, INSS em dia. No primeiro ano colocamos tudo em ordem.
Como o senhor conseguiu organizar a casa, apesar de todos os problemas? Restinga é uma cidade pequena, de um orçamento pequeno também. Como o senhor conseguiu já resolver no primeiro ano?
Comprometimento. Responsabilidade e mão de ferro.
Teve uma polêmica do senhor com os servidores. O que aconteceu ali?
Eu peguei uma folha de pagamento com 56%, acima do limite da LRF. O Tribunal de Contas, há vários anos anteriores, vinha cobrando os gestores do município para que enxugassem a folha para que ela ficasse no limite constitucional, que era 54%. Houve várias denúncias no Ministério Público com referencias às horas extras. Não existia relógio de ponto... Tem lá todos os apontamentos.
O senhor conseguiu reduzir esse problema?
Eu não cortei nada legal. O que estava ilegal, eu fui obrigado a tomar providências. Inclusive fui várias vezes questionado pelo MP para agir, assim como pelo Tribunal de Contas. Inclusive pela Câmara Municipal, porque o que está no Portal da Transparência que tinha servidores recebendo horas extras acima do limite permitido.
No primeiro instante, houve uma animosidade com os servidores. Melhorou?
Eu não tenho nada contra o servidor, até mesmo porque eu também sou servidor. Agora, você tem que pagar o que está embasado em lei. Se você pegar os pareceres do TCE, lá eles apontam o excessivo pagamento de horas extras. Esse foi o problema. Agora houve o entendimento. Lógico que tem gente que não está satisfeito, mas eu tenho que cuidar bem do funcionalismo público. O que fizemos? O vale alimentação era de R$ 150, já passamos para R$ 350. Foi o maior aumento que teve até hoje na prefeitura. Os funcionários não têm aumento desde 2012. Agora, hoje estou terminando o projeto de reestruturação de cargos e salários que vou mandar para a Câmara. Depois de aprovado, vamos fazer o projeto de plano de carreira e vamos dar agora, no mês de abril para o pagamento de maio, o índice da inflação do ano passado. Coisa que há muito tempo não vem ocorrendo.
No ultimo ano também vimos o desfecho do asfaltamento do Alto da Boa Vista. O senhor acredita que tenha sido a grande conquista?
Eu diria que sim. O Alto da Boa Vista existe há 20 anos. Para se ter uma ideia, quem colocou a energia lá, foi a minha administração, no meu outro mandato. Quem colocou rede de água, esgoto e energia elétrica? A minha administração. Eu tive agora a felicidade, em parceria com os moradores, que pagaram uma contribuição, e a Câmara Municipal repassou um recurso de cerca de R$ 70 mil para ajudar na pavimentação e a prefeitura arcou com o restante. Foi uma obra importantíssima. Foram mais de R$ 2 milhões, numa parceria entre Prefeitura, Câmara e moradores. Agora estou terminando essa semana a sinalização de trânsito. Está ficando muito bom, mas eu tenho um desafio ainda. Lá tem uma escola abandonada desde 2013. E, junto da Câmara, estamos tentando retomar. É uma obra do governo do Estado. Repassaram um recurso para a prefeitura por volta de 2010 e, chegando em 2013, a obra parou. A empresa que ganhou a licitação quebrou. Entrei com uma ação contra essa empresa. Já tive várias reuniões em São Paulo para terminar. A prefeitura não tem dinheiro para terminar a obra que ainda precisa de cerca de R$ 1 milhão. Então, esse é mais um desafio.
Restinga tem a Festa do Peão. O senhor acredita que é um dinheiro bem investido?
Depende a maneira como se faz a festa. Não vou colocar recursos da prefeitura. Posso dar, como é de praxe, um show para a cidade. Vou abrir uma licitação, ver a data mais adequada para não coincidir com eventos de Franca, e gastar o mínimo possível. A Festa do Peão de Restinga é tradicional e acabaram com a festa. Recuperamos o Parque do Peão e eu quero que Restinga volte a ser uma das melhores Festas do Peão, como sempre foi. Um evento tradicional tem que ser mantido na cidade.
Restinga já teve incêndio em prefeitura, ameaças... O senhor teme algum ataque?
Não. Eu sou uma pessoa tranquila. Não tenho medo de ataques, ameaças. Claro que existem conversas de ameaças.
O senhor já foi ameaçado no cargo?
Eu falo assim, ameaças políticas, de quem diz que vai denunciar. Eu digo: denuncia. Uma pessoa pública está sujeita a isso.
O senhor foi vítima recentemente de ataques no Facebook...
Sim. Tanto que o fake foi descoberto. Essa pessoa trabalhou no começo do mandato, participou de uma licitação e queria que eu facilitasse. Mas isso já está no MP, no judiciário. Agora, o judiciário que apure.
A partir de agora, vem a segunda parte do mandato. Quais são os planos do senhor para esses próximos dois anos? O que a população de Restinga pode esperar do prefeito?
Continuar com o mesmo comprometimento, com a mesma responsabilidade. De imediato, vamos monitorar a cidade 24 horas. Vamos reformar o clube da piscina que está abandonado há muitos anos. Vamos reformar a quadra de esportes, que está lá também deixando a desejar. Vamos dar continuidade no recape, convênio com a Polícia Militar. Trocamos toda a frota da saúde, adquirimos 17 veículos zero em dois anos para a saúde, transporte de alunos. O setor de saúde foi pontuado como o melhor do estado em primeiro lugar. A educação também teve um salto muito grande no Ideb, com uma nota 6.2 Agora vamos investir muito no esporte, que chamamos o Marcelo Mambrini (ex-vereador e ex-conselheiro tutelar de Franca) e no Social. Queremos fazer um trabalho forte no assentamento da Boa Sorte, onde moram 169 famílias.
O senhor almeja continuar como prefeito? Diferente daquela ocasião em que o senhor acabou abdicando?
Primeiro quero concluir o meu projeto. Não é o momento de pensar em eleição. Estamos iniciando apenas o terceiro ano de mandato e ainda temos que fazer muita coisa para acabar de colocar a casa em ordem. Existe, sim, a preocupação de imaginar que a administração possa cair em mãos erradas. Por isso minha prioridade é continuar trabalhando com seriedade e responsabilidade. Não podemos, jamais, repetir os erros do passado. Restinga não merece ser maltratada como foi. Só vamos parar para pensar em eleição no momento oportuno. Uma coisa é certa: faremos o que for melhor para nossa população.
Para a gente encerrar, uma frase que o senhor usa sempre é “Mexe o Doce”. O que isso significa?
Mexe o doce é um linguajar popular (risos). Cada região do país tem um jeito. É um slogan (risos). Usamos na eleição em 2012 e ficou.
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