“Vamos acabar com o samba, Madame não gosta que ninguém sambe, vive dizendo que samba é vexame, pra que discutir com Madame?”
A música de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, imortalizada na voz de João Gilberto está cada dia mais presente nos discursos de ódio da nossa sociedade.
“Acabar com o samba” era também propor o fim de uma identidade de origem negra e popular.
“Madame” era uma metonímia utilizada para representar as pessoas que desferiam ataques contra qualquer veia popular.
Mas a roda gira e as Madames de outrora ressurgem das cinzas a fazerem faxina no terreno do vizinho. Como diria Cazuza: há quem não enxergue ratos na própria piscina.
Tem gente querendo acabar com gente como se gente não fosse, há quem não perceba que somos tudo e nada ao mesmo tempo, humanos e não jumentos, de todas as cores e não da cor de um cimento.
Reconhecer nossa pequenez talvez seja o primeiro passo, ouvi uma senhora dizer a um senhor, no mercado.
Ele dizia em alto e bom som: “bandido tem que morrer”. Ela aproximou-se dele e falou baixinho: “José, seu filho estava preso até outro dia, de que bandido você está falando?”.
Ficamos ali parados, com aquele barulho intragável da mosca que rodopiava pelo ar, como resposta eloquente daquele senhor.
E a roda gira, sai o samba e entra o funk, o bandido, o pobre, um partido, o negro, o travestido, a mulher, o pervertido, quem sabe até o homem que correu atrás do próprio latido.
Marshall Rosenberg, líder na busca pela paz mundial, explica que fazer da violência algo agradável é uma das formas mais comuns de educar de uma cultura de dominação.
Eis o nosso caso? Perguntemos ao tempo.
Lembremo-nos da invasão do Brasil pelos colonizadores, dos negros escravizados pelos brancos, do sistema de dominação do homem sobre a mulher, da ditadura militar e etc.
E o líder continua: “por trás de todo ataque há uma necessidade escondida”, ao contar a estória do primeiro dia de aula do seu filho, que foi duramente ofendido pelo professor, por ter cabelos compridos.
O menino, que aprendera a comunicação não violenta com o pai, disse-lhe que não o contra-atacou, pois colocou ouvidos de girafa (brincadeira que ele usava para dizer que escutou o insulto com o coração) ao imaginar a dor do professor de se sentir careca.
Então a violência não está sendo criada hoje, por uma pessoa, uma mídia, uma opinião?
Não, ela é histórica, sistêmica, endêmica, circular e contínua, mas reconhecê-la talvez seja o primeiro passo para a evolução.
Caro leitor, você pode estar se perguntando:
-onde ela está querendo chegar com este discursinho paz e amor.
Parece até que posso ouvir um xingamento.
-Calma, não se faça de Madame, compreendo suas necessidades mundanas. Deixe-me aqui, com minhas orelhas de girafa e fique com o barulho ensurdecedor do meu ponto final.
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