A lembrança parece retrato tirado pelo Jair Fotógrafo. É nítida.
Aos dez anos de idade, o menino tentava acompanhar os passos largos do pai, três a cinco metros adiante. Seguiam pela Rua Monsenhor Rosa, em direção à casa da Dona Xuxinha. Perto da casa do doutor Jonas Deocleciano Ribeiro, o moleque estacou diante da cena indelével.
Passava pela rua, marcando suas retinas, uma carrocinha puxada por enorme bode. O tamanho do veículo, o bicho substituindo o cavalo ou o boi impressionaram pouco. Impressionou-o, sobremaneira, quem o conduzia, caminhando ao lado: uma mulher usando chapéu, camisa de homem, calças de homem, botas de homem.
Cabeça erguida, chicote na mão, a mulher passou e ficou.
O pai, lá na frente, gritou ameaça;
- Eu te largo na rua, bicho danado.
Correu até lá. O pai leu nos olhos arregalados do filho, amoleceu.
- Chama Conceição dos Cabritos. Pega lavagem nas casas, naquele latão de leite. Cria porco e cabrito pra vender.
Em casa, o menino especulou, mas todo mundo estava ocupado, ninguém deu atenção.
Sessenta anos depois, escutou casualmente de um tio:
- A Conceição dos Cabritos foi casada com um primo da sua mãe. Primo em segundo grau.
Desejou ampliar o retrato, criar um painel. Então, a curiosidade e o ócio visitaram bairros, batendo à porta da memória alheia.
As irmãs mais velhas ajudaram pouco.
- Era parente sim, mas a mãe não deixava a gente ir lá, porque ela era separada.
A prima Cassinha assegura saber a data em que ela morreu. Não consegue é se lembrar direito. Dá outras explicações.
- Nunca fui na casa dela não. Eu tinha medo, diziam que ela era benzedeira.
Lá na Avenida Brasil, por onde ela morou, brotaram elogios. Poucos.
- Era muito trabalhadeira e cuidava duma igrejinha de Santo Antônio.
As inquirições, os informes não possibilitaram painel.
Não importa. Ficou o retrato da imponência da mulher.
Outra foto me é mais importante: a de um menino descalço, tropeçando nos pedregulhos da vida e, de olhos arregalados, descobrindo o mundo...
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