Júlio Souza, jovem paulistano de 23 anos, que mora em Franca, tem, como muitos da sua idade, o sonho de fazer sucesso nas redes sociais. Há algumas semanas, criou o tão desejado canal no Youtube e começou a postar vídeos engraçados, afinal, fazer piada de quase tudo é uma das marcas de Júlio.
Aos pouquinhos, como era esperado, Júlio foi arregimentando uma pequena audiência com 250, 400, 500 visualizações e um tímido grupo de fãs de 50, 100, 200, 280 inscritos. Nos seus vídeos inaugurais, Júlio fez piada com a preocupação generalizada das dietas nas vésperas de Natal; fez troça dos presentes natalinos dados pela família, zombou dos adeptos de simpatias de virada de ano...e tudo estava indo assim, de forma brincalhona, como ele havia planejado, e sem muito rumo ou roteiro.
Eis que no dia 6 de janeiro, Júlio leu uma carta deixada por Bruno Pontes, um rapaz de 24 anos que foi encontrado morto no dia 1º de janeiro, no litoral paulista, depois de deixar uma mensagem de despedida para amigos e família, na qual fala a respeito da depressão que sofria. A carta teve forte repercussão nas redes sociais e, tocado pelo relato de Bruno, Júlio decidiu fazer um vídeo a respeito, postado em seu canal, chamado A Poc*, no primeiro domingo do ano.
Sua ideia era tratar do caso de depressão que acometeu Bruno e de que maneiras as pessoas podem ajudar a quem se encontra nessa situação. Júlio até começa a gravação num tom leve, mas, de repente, é tomado pela emoção ao relatar sua própria experiência com um estado inicial de depressão, parte dela oriunda do bullyng que sofreu ao longo da vida, por ser gay. Embora o vídeo tenha fugido à proposta inicial do canal, Júlio viu sua audiência se multiplicar das 500 visualizações para quase duas mil e seu número de seguidores no Instagram dar um salto da noite para o dia: de menos de mil para quase 2,5 mil seguidores. “Fiquei contente e surpreso. Nunca imaginei que um papo como aquele, no qual abri meu coração, fosse me trazer esse resultado. Ainda não consegui responder a todas as mensagens que passei a receber nas minhas redes sociais, vindas de diferentes lugares do Brasil”, disse Júlio. “Fiquei realizado porque o intuito do vídeo era mostrar que a depressão ou a intenção suicida pode ter uma saída positiva, que foi o meu caso, mas achei que fosse ser criticado por me expor. E foi ao contrário. Recebi muito apoio e já até marquei encontro com uma moça de São Paulo, que se identificou com minha história”, disse.
Júlio relata que recebeu centenas de mensagens de jovens que se identificaram com sua história, que passaram por situações parecidas e não tiveram coragem de conversar com ninguém. “As pessoas preferem não falar a respeito, porque, embora esteja mais difundida hoje, a doença ainda é tratada com preconceito. Muita gente acha que é frescura. E não é raro você ouvir alguém dizer ‘se levar uma surra, sara”’, disse ele. Júlio se empolgou com a ideia de tratar do tema. “Quero continuar fazendo meus vídeos divertidos, mas também vou me dedicar a temas como auto-estima”, disse ele. A audiência de Júlio é muito tímida, se considerados os números gigantescos de youtubers famosos, mas o volume de pessoas que o procurou de uma hora para outra o anima. “Fui alvo de bullyng e isso me machucou. Para piorar, no começo do ano passado tive perdas na família que pioraram meu estado emocional. Tive coragem de conversar com minha mãe e, também, procurar ajuda médica para contornar isso. Espero ajudar as pessoas a pensarem mais positivo”, concluiu.
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