Seja qual a for a posição, pró ou anti o novo governo, é consenso que a nova ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo Jair Bolsonaro (PSL), Damares Alves, conseguiu apagar os holofotes da posse e atrair para si toda a atenção. Em um vídeo que ganhou as redes sociais desde a última quinta-feira, ela aparece comemorando a posse junto a alguns correligionários enquanto pede atenção: ‘Atenção, atenção. É uma nova era no Brasil. Menino veste azul e menina veste rosa‘, bradava para alegria dos presentes na reunião enquanto era agitada uma bandeira de Israel ao fundo.
A estranha cena viralizou. Enquanto muitos, inclusive artistas, publicavam fotos nas redes sociais com as cores invertidas - mulheres de azul e homens de rosa -, criticando a fala, os apoiadores de Bolsonaro se apressavam a dizer que se tratava apenas de uma metáfora. A própria ministra, em entrevista à GloboNews, reforçou o argumento e não retirou o que disse. ‘(...) Então quando eu disse que menina veste cor de rosa e menino veste azul, é que nós vamos estar respeitando a identidade biológica das crianças‘, fez questão de reiterar.
Durante seu longo discurso na solenidade do ministério, ela já havia usado metáfora semelhante. Disse que ‘neste governo, menina será princesa e menino será príncipe. Ninguém vai nos impedir de chamar as meninas de princesa e os meninos de príncipe. Vamos acabar com o abuso da doutrinação ideológica.‘
Mas, afinal, por que estamos falando sobre Damaris Alves? Se engana quem pensa que a preferência de cores da ministra tenha sido seu pior equívoco na semana. O grande erro de Damaris Alves foi o exagero. Sabemos todos que este é um governo conservador, em que a pauta das minorias não tem grande relevância. Foi, inclusive, eleito por conta desse tom. O desnecessário é, num momento solene, de recomeço, de união, preferir ironizar os que pensam diferente em vez de focar nos assuntos efetivamente relevantes para a nação.
Ela tentou. Nos 45 minutos do seu discurso, Damaris se emocionou diversas vezes, falou, sim, de temas importantes, prometeu ser intransigente na defesa de mulheres, crianças e até da população indígena com coerência. Mas, depois, escorregou.
Faltou perceber que, agora, como ministra em um dos Poderes mais relevantes do Brasil, as metáforas que faz importam, a postura fora dos discursos oficiais, importa. A união de um povo que quer ver reerguido seu país importa muito mais que uma ironia qualquer.
Em uma semana em que a pauta deveria ter sido a redução da violência, principalmente contra as mulheres - um assunto diretamente ligado a ela -, a geração de emprego, o combate à corrupção, o aquecimento da economia, Damaris nos forçou a pensar sobre quais cores vestir. No mínimo, um desperdício.
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