Tudo parecia normal para uma família francana na ceia de Natal. Todos reunidos, as conversas típicas que animam estas noites. E em meio a uma piadinha a meio sem graça, surgiu uma revelação. Uma comerciante de 50 anos contou a sua família que no ano de 2002 teria sofrido abusos do médium João de Deus. O médium está preso desde o dia 16 de dezembro, quando ele se apresentou à polícia civil. Ele é investigado por estupro, estupro de vulnerável, violação sexual mediante fraude e posse ilegal de arma. As denúncias envolvendo o líder espiritual tomaram os noticiários do país inteiro. João de Deus está detido no Núcleo de Custódia do Completo Prisional de Aparecida de Goiânia (leia mais sobre as denúncias abaixo).
Os abusos
Os abusos, disse a mulher francana, ocorreram na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiana(GO), a 100 km da capital, Goiânia, onde o médium atendia desde 1979. Na época, a comerciante disse que não quis denunciar por medo e constrangimento. A mulher, que passou anos guardando para si esse segredo, disse que visitou a casa de atendimento por cerca de um ano, em 2002, para fazer tratamento contra dores que sentia em um dos joelhos. E em uma dessas visitas, ela disse que houve o primeiro abuso. Ela estava no atendimento público, quando foi avisada que tinha que ir para a sala onde o médium fazia os atendimentos particulares. “Eu entrei na sala e ele estava orando, ele não falava nada. Em um certo momento, ele desabotoou minha calça”. Chocada com o acontecido, ela disse que perguntou com quem estava falando. “Na hora que ele abaixou minha calcinha eu perguntei pra ele: ‘Eu to falando com quem? Com o João de Deus ou com outra pessoa?’ Ele respondeu que era uma entidade, e colocou minha mão no pênis dele’”, contou.
Mesmo achando errado, a vítima disse que pensou que aquilo seria parte do tratamento e não contou para ninguém. ‘Eu não estava entendendo o que estava acontecendo. Mesmo achando errado, achei que fazia parte”. Dois messes depois ela retornou à casa. “Quando acabou minha medicação, voltei lá. Eu não tinha entendido que tinha sofrido um abuso, eu pensava que aquilo fazia parte do tratamento. Fui lembrando de tudo o que tinha acontecido naquele dia, fui ficando nervosa, queria ir embora, mas não consegui. Tinha as pessoas que trabalhavam lá... Tinha um tal de ‘Antão’ que ficava andando pra lá e pra cá. Eu comecei a tremer, eu queria ir embora, mas esse Antão parecia que estava vigiando, e não tive coragem, e entrei”, contou ela. ‘Ele fez novamente. Eu não perguntei nada, apenas fiquei dura, sem nenhuma reação. Ele é um monstro! Eu tenho pavor dele, tenho medo dele! Só de ver o olhar dele na TV, aquele olho branco, eu já fico com medo!’, disse a mulher.
Depois do segundo abuso a mulher prometeu a si mesma que nunca mais voltaria naquele lugar, mas o medo impediu que ela o denunciasse.
Investigações
O Ministério Publico já recebeu mais de 600 notificações de abusos sexuais, e já ouviu 79 mulheres. As mulheres que denunciaram João de Deus ao MP tinham entre 9 e 67 anos ao serem abusadas, conforme relatos. Um inquérito foi concluído e há oito em andamento. Não há pedido para suspensão do funcionamento da Casa Dom Inácio de Loyola, mas o laboratório que fazia medicamentos no local foi interditado.
A defesa pediu a soltura de João de Deus ao Tribunal de Justiça Do Estado de Goiás (TJ-GO) e ao Superior Tribunal de Justiça (STJ); ambos negaram o habeas corpus em caráter liminar.
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