'A gente não tem mais que sofrer', diz Maria Martiniano


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Maria Eugênia Martiniano tem apenas 29 anos, mas carrega a experiência de quem já viu sua família perder tudo em meio a uma crise calçadista, de quem passou grande parte da vida lutando contra a depressão e tentativas de suicídio. Hoje, refeita, ela se dedica a ensinar que é possível viver bem, com menos sofrimento. Confira.
 
Seu sobrenome é Martiniano, que também deu nome a fábricas de calçados importantes na cidade. Você é de Franca? Toda sua família é daqui?
Sim. Era do meu avô, meu pai, meus tios. Venho de uma família ligada à indústria, que passou por toda a história do calçado de Franca.
 
Toda a sua história é ligada a Franca?
Sim. Estudei na Toulouse Lautrec, minha primeira escola. Depois, fui para o Colégio Pessoa. Terminei, fui fazer Moda na Unifran. Fiz um ano de faculdade e decidi ir para São Paulo. Fiquei três anos lá na Faculdade de Belas Artes e voltei para Franca por conta do meu histórico de depressão, síndrome do pânico e das tentativas de suicídio.
 
Quando começou seu problema com a depressão?
Fui diagnosticada desde os 11 anos de idade. Desde quando meu pai passou as dificuldades com a empresa e eu entrei em depressão junto com ele. 
 
Como foi encarar essa ruptura aos 11 anos? 
Foi muito profundo. É a mesma história que vemos em muitas empresas daqui. Uma hora tem tudo, na outra não tem nada. Quebramos. 
 
Você era muito criança, não tinha como ter uma noção exata do que estava acontecendo. Como você sentiu esse impacto?
Eu sentia porque vi meu pai chorando. E, naquele momento, era não ter coisas que sempre tivemos. Por exemplo, “quero comer tal coisa. Não tem dinheiro.” Meu pai entrou em depressão e ficou na cama um bom tempo. Toda a minha família sentiu. 
 
Como a sua família percebeu que você também estava em depressão?
Meu pai não saia da cama, foi ao psiquiatra e eu fui também. Foi quando começou um movimento de medicação.
 
Como foi a fase seguinte?
Eu não me lembro de me passar meu ginásio sem estar sofrendo por algo. Era uma falta de energia. Não tinha energia para fazer nada. Então, aquilo me estagnava. Eu brigava com um paquera, ficava de cama. Brigava com uma amiga, ficava de cama. 
 
Quando você pensou em tirar a sua vida  pela primeira vez?
Foi em São Paulo. Estava fazendo faculdade. Me sentia muito sozinha, tinha acabado de passar por uma troca de medicação, não queria mais viver e tomei uma cartela inteira de remédio. Tudo eu pedia para morrer. Eu não sentia vontade de acordar. Não aceitava meu corpo, comecei a tomar remédio para emagrecer...
 
E depois, nas outras duas vezes?
A segunda foi em São Paulo também. Eu falava que ia pular do prédio, não sentia mais que tinha motivo para viver. Foi quando minha mãe foi para lá. Parecia que as dores normais em mim doíam muito mais. Ganhar três quilos era uma morte, terminar com um namorado era uma segunda morte. E eu não conseguia entender. A terceira vez foi em Franca já. A minha mudança de volta para cá eu nem vi acontecer. Vim passar um fim de semana e, quando cheguei, meu pai não me deixou mais voltar. Eu estava muito mal. Não ia para a faculdade. Não saia da cama, não me alimentava bem. Foi quando começou a bulimia. Como eu não gostava de comer, comia e vomitava. 
 
Como era um dia desses mais difíceis? 
Eu não dormia, só com medicamento. Quando eu acordava, sentia uma angústia terrível no peito. Era uma dor que não cabia dentro de mim. Revirava na cama, me contorcia pedindo ajuda. Tudo doía. Doía abrir os olhos, ir ao banheiro. Eu me batia para entender de onde vinha aquela dor. Não tinha um motivo específico.  Uma solidão muito grande e eu não queria mais sentir aquilo.  Acreditava que a dor pular da janela, cair e acabar era mais leve que aquela que eu sentia.
 
Mas a sua formação, espírita kardecista, acredita que a morte não é o fim…
E foi o que me segurou. Muito nova eu li o livro espírita Memórias de um Suicida, que mexeu muito comigo. Era saber que seria pior. 
 
E como foi entrar nesse outro mundo da terapia holística?
Na época estava acontecendo um “boom” de espaços de vida saudável da Herbalife e eu montei um espaço. Não tomo mais, mas na época eu tomava o shake. E aí eu tinha um espaço, sempre gostei de reike e coisas místicas. Nesse espaço chegou um amigo meu que me chamou para fazer um curso técnico de Medicina Tradicional Chinesa. Fui e fiz o curso de dois anos. Mas na primeira aula, quando falaram da integração de corpo, mente, alma eu já falei: ‘É isso’. E aí foi uma alavanca.
 
Quando você decidiu se aprofundar?
Fiz mais de dez cursos nessa escola, mas ainda tinha crises intensas de depressão. Quando estava no segundo ano, fui estudar na Universidade Holística do Brasil, que fica em Maria da Fé, em Minas, que parece uma cidade de novela.  Eu ia um final de semana por mês. É um curso técnico, reconhecido pelo MEC, de dois anos. Então, já conhecia muitas técnicas, abri meu espaço e comecei a trabalhar com isso.
 
E como funcionava esse trabalho?
Na época, eu trabalhava com acupuntura, floral e massagem. Era o trio. Aí em Maria da Fé tive acesso a outras técnicas. 
 
Você também fez psicologia?
Quando estava no segundo ano em Maria da Fé decidi fazer psicologia, saí da casa dos meus pais e mudei para um apartamento, mas transformei a sala do meu apartamento no meu espaço. Foi uma época em que comecei a me nutrir melhor, a cuidar do meu corpo, a fazer exercícios físicos. Nesse meio tempo, tive uma das maiores crises.
 
Como assim?
Foi no meu aniversário. Em 2014 eu sofri um acidente de carro. Foi bem feio, mas eu não me lembro de nada. Quem estuda terapia holística chama de porta da morte. Ali eu entendi que precisava mudar minha vida. Só me lembro de abrir os olhos no dia seguinte, toda machucada, em casa mesmo, e a minha mãe estava na minha frente, me perguntando: “o que você está fazendo da sua vida?”. Foi nesse momento que entendi o que era autorresponsabilidade. Porque até então, tudo eu jogava na minha depressão. Naquele momento eu disse “chega! Vou colocar tudo que eu aprendi e colocar em prática na minha vida”. Porque eu já tinha ferramentas. E aí eu tirei 100 dias, que chamei de 100 dias felizes, para me recuperar. 
 
Deu certo?
Comecei a focar, trabalhar, estudar. Foi nesse momento, depois de uns três meses nesse processo, que conheci do Gui (Guilherme Morgan), meu noivo. Surgiu a oportunidade de eu sair de casa, montei meu apartamento e montei o espaço lá dentro. 
 
Nesse momento você fazia psicologia?
Estava no primeiro ano. Foi aí também que surgiu o nome Maria Holística. Que veio de um amigo. Ele brincava muito porque eu só falava de terapia holística e das coisas que eu aprendia. Daí ele falava “lá vem a Maria Holística com as coisas dela.” Na hora, eu já falei é “Maria Holística!” Na hora já assumi, mudei meu Instagram, comecei a divulgar meu trabalho, a me aprofundar, a ter clientes mesmo. Fui fazendo muitos cursos, inclusive de física quântica.

Você já aplicava as técnicas nos clientes?
Sim. Naquele momento fiquei muito focada em spa day, mas sempre voltado para o autoconhecimento, mais zen. A pessoa fazia técnicas holísticas, massagens emocionais, cromoterapia. Numa sala de apartamento. Hora que eu vi, estava fazendo spa de noiva dentro do meu apartamento. Foi quando decidi crescer um pouco mais e aluguei uma casa no Progresso que tinha um espaço maior. Tinha muitos clientes, estava tudo fluindo, mas eu ainda tinha travas. Meu financeiro, meu corpo e meu emocional. Em 2017, trabalhando muito, quando terminou o mês de maio, soube de uma menina que tinha suicidado. Uma menina linda.
 
Em Franca?
Isso. Mas eu senti muito forte dentro de mim. Comecei a me questionar sobre o que eu estava fazendo aqui, o que estamos todos fazendo no universo, o que estava acontecendo. Eu via as pessoas saírem bem de dentro do espaço, via as pessoas se curando dentro do espaço. O trabalho era bem feito, mas eu mesma não conseguia me sentir tão bem como as pessoas que chegavam até mim. Um dia percebi a depressão chegando outra vez. Não queria ir na faculdade, desmarquei uns clientes, faltei da academia, fui me isolando… 
 
Como você reagiu?
Não queria mais tomar remédio, não queria ir pelo caminho convencional. Eram muitas responsabilidades, eu trabalhava, trabalhava, trabalhava e não via o dinheiro entrar. Nesse momento um amigo meu, de Maria da Fé, me falou “faça um mantra e joga para o universo”. Mas eu não conseguia. Eu acreditava em todas as técnicas que fazia, mas não acreditava em Deus. Comecei a fazer o mantra forçada mesmo. Neste momento eu entrei no Instagram, vi uma pessoa falando sobre o ThetaHealing e alguma coisa mexeu comigo. Foi a primeira vez que comecei a olhar para a cura. Até então eu olhava para a dor física e emocional, não pensava em cura. Mesmo na faculdade de psicologia se fala em melhoria de vida, mas não de cura. 
 
Em linhas gerais, o que é Thetahealing?
ThetaHealing é a cura em theta, que é uma frequência cerebral. Igual existe beta, alfa, gama. O theta é uma frequência que fica um pouco abaixo da alfa, que não vai desconectar você, não fará a pessoa entrar em hipnose, mas vai acessar seu subconsciente. Quando você faz isso, você abre todos os seus dons intuitivos e se conecta com o poder criador. De forma resumida, é uma técnica de autoconhecimento e de cura energética através de uma meditação que leva a essa frequência theta. O grande salto que me deu mesmo, da minha cura, foi entender que eu criava tudo isso na minha vida. Mas eu não sabia que estava criando. Era minha raiva, meus ressentimentos, meus medos, meus traumas, os meus rancores. Tudo isso que a gente vem vivendo, que fica guardado em nós. Fica tão enraizado que você passa a viver uma rotina em cima daquilo. Então, entendi que eu estava criando aquela situação para mim.
 
Estamos vendo muitos problemas emocionais acontecendo na sociedade, o número de suicídios aumentando muito...
Não tem mais que ser assim. A gente não tem mais que sofrer. A gente não tem mais que sofrer para aprender. Era assim até determinado ponto da nossa vida, do planeta Terra. Só que agora não é mais. Por isso estão surgindo ferramentas novas para trazer essa leveza. Eu olho para esses jovens e vejo o que eu passei. O não se conhecer, o medo do que está sentindo, de não ser aprovado, de não ser reconhecido, de não ser amado. 
 
Esse mundo de redes sociais faz tudo isso ficar pior...
É muita exposição e existe a necessidade de entrar num padrão específico. Então você tem que estar com aquele corpo para tirar aquela foto na praia. As pessoas hoje estão se comparando em likes. Só que neste exato momento, de outubro para cá, tenho um visto um movimento lindo dentro do próprio Instagram. Novos terapeutas que estão se formando, em várias técnicas. Está existindo esse movimento inverso, de meninas e meninos se apoiando. Acredito que 2019 vai ser um ano muito maravilhoso para esse aspecto de cura.
 
Quando você fala em cura, parece tudo muito audacioso…
Total. Até mesmo porque estamos vendo na mídia agora pessoas que falavam que curavam, mas na verdade existiam situações de abuso. Quando a gente fala em cura, a cura não está fora. Não é “você vem aqui que vou curar.” Não é isso. Mas a partir do momento que você tem consciência sobre algo. Um exemplo simples: você está sentindo tristeza. A pergunta é por que está triste? O que você acha que tem que aprender com isso? Isso já é uma cura. É a pessoa mesmo acessar as suas limitações. É autoconhecimento.
 
De um outro lado, a vida é difícil. E o sofrimento, como forma de aprendizado é um pensamento enraizado na nossa cultura ocidental… Essa maneira de pensar foge muito disso.
Sim. É um novo paradigma, uma nova realidade. Eu sinto esse movimento crescendo mesmo. Tudo é o que a gente acredita ser. Você não vai deixar de passar por desafios na vida, mas o peso que você dá para eles pode ser mais leve. Eu me vejo uma menina de 19 anos em São Paulo que queria se matar porque o namorado largou. A dor era muito mais intensa. Eu me via numa posição de vítima de uma tal forma que eu não conseguia sair daquilo. Então, quando eu entendi que eu crio a dor, entendi que também tenho força suficiente para criar a luz, a alegria. Aqui é preciso fazer uma diferença. O ocidental é cartesiano e o oriental é holístico.  O ocidental vê o corpo desintegrado. Por exemplo, você está com dor no estômago, vai ao médico cuidar do estômago. Se a dor é na cabeça, vai cuidar da cabeça. O holístico vê que o estômago está relacionado com a cabeça e que tudo está dentro de você. Não que essas técnicas serão deixadas para trás. Não. As áreas estão se integrando. Hoje vemos a Constelação Familiar, por exemplo, dentro do Direito. Esse movimento é lindo. 
 
Você falou que 2019 deve ser um ano maravilhoso. Como assim?
Vou falar da forma nós, seres humanos, no planeta Terra. As pessoas estão procurando se conhecer. Vemos esse “boom” de coachs, de terapeutas, de psicólogos, de pessoas que estão tentando se conhecer. Ninguém mais quer sofrer. Todo mundo quer dinheiro no bolso, felicidade, alegria, ter uma rotina gostosa. Se você sair hoje no final da tarde, você vê muito mais gente fazendo caminhada na rua do que existia 5 anos atrás. Ninguém mais aguenta sofrer. A mudança é essa. 
 
Ainda assim, esse é um período do ano muito difícil para as pessoas. Como é possível aliviar isso?
A minha avó faleceu sábado passado, que era o centro para a gente viver o Natal junto. Muita gente nesse Natal vai ter perdido alguém, muitas pessoas brigaram por conta da polaridade política, mas é importante estar com a família. Se você não pode, buscar pessoas que você gosta, para se alimentar do amor. Na minha família, por exemplo, perdi duas avós e um tio em três anos. É uma dor profunda. Mas também estamos felizes porque é o primeiro Natal da filhinha da minha prima. Então, se você observar também há esperança do amanhã. Seja a criança que chegou, o parente que veio de longe. O grande segredo mesmo, que Jesus nos trouxe, é o amor incondicional. E esse é o momento dele, da gente lembrar dele. Não dá mais para entrar em 2019 com ressentimento, com rancor, com rejeição, com sentimento de vingança. É o momento de deixar ir o que não serve mais e lembrar que tudo o que a gente deseja para o Ano Novo. A dica é fazer uma lista do que você quer para o ano novo e colocar tudo no presente. 

Por exemplo?
Eu estou num bom emprego, eu estou num corpo saudável. Porque o universo entende como aquilo já acontecendo. E, no final, agradeça. 2018 foi um ano um pouco mais leve que 2017, energeticamente falando, e nos preparou para 2019, que vai ser o melhor ano das nossas vidas. 2019 é o ano da abundância, da alegria, da paz.

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