Fidelidade


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Mesmo não sendo um sonho de amor, casou-se com o apaixonado Estêvão. Seu pai já havia notado o exagerado entusiasmo dela com o noivo e achou por bem casá-la, rapidamente. Os costumes eram rigorosos, nos meados do século passado, principalmente em uma cidade interiorana.

A adaptação no início do casamento, filhos pequenos amortizam desejos secretos, anseios libidinosos e sonhos por aventuras. Mas, Ester, com uma grande sensualidade, tinha propensão aos prazeres dos sentidos. Sua personalidade convergia para uma vida mais ativa, mais glamurosa e cheia de emoções.

Agraciada pela natureza com uma aparência bela, de sorriso provocante, olhos espertos e maliciosos, tudo nela era encanto e atração. Estes atributos a levaram a ser cortejada por homens de influência e poder que se interessavam por ela, desejosos de viverem novas experiências.

Ester, então, encontrou tempo para uns esporádicos e sigilosos encontros, sem se comprometer com ninguém. Sua vida tinha um ritmo normal, muito sociável, fazia amizades com facilidade, cuidava com esmero dos afazeres, boa esposa e mãe carinhosa.

O tempo passou e Estêvão adoeceu, seriamente, levando-os a mudarem-se para uma cidade maior, em busca de tratamento. Ela dedicou-se à recuperação do marido. Ele melhorou e sua doença tornou-se crônica, limitando seu viver. Ester assumiu o comando da casa, mas sentia-se acabrunhada e solitária. Refletindo sobre sua vida, concluiu que seu interior clamava por novas sensações. Foi neste momento angustiante que ela encontrou um homem, também casado, que manteve com ela um intenso relacionamento, durante vinte anos, baseado não só na atração física, mas na cumplicidade entre eles. Os filhos a compreendiam e ela seguia o caminho de sua natureza indômita. A vida é breve, conjeturava.

           Estêvão nunca soube; ela manteve-se discreta e não considerava uma perfídia seu inusual comportamento.

Ester mantinha fidelidade, somente, a si própria.


 

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