O fim da era dos gurus


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As denúncias contra o médium João de Deus que abalaram o país na última semana são um choque. Como um homem reconhecido por seu trabalho humanitário, reverenciado por milhares de pessoas por seu trabalho de cura espiritual seria capaz de atos tão terríveis como os relatados? Como uma pessoa que se dispõe a ajudar quem está em extrema fragilidade emocional ou física é capaz de usar desse poder para uma satisfação sexual? Como histórias tão absurdas ficaram abafadas por tantos anos?

As perguntas são muitas e, seja quais forem as respostas, é praticamente impossível imaginar que todas as mais de 300 mulheres que o denunciaram estão mentindo. Fato é que ele não é o primeiro. Semanas atrás, o guru Prem Baba, cultuado por celebridades como os atores Reinaldo Gianechini e Bruna Lombardi, também foi denunciado por seguidoras. Mulheres que tinham nele um guia, um modelo de conduta, denunciam que, em momentos de total confiança, foram abusadas e enganadas. Sem ir longe, aqui em Franca, o Comécio já reportou muitas denúncias de abusos contra padres ou pastores. Histórias que deixaram a comunidade perplexa e com marcas profundas.

Ao analisar todo o contexto, no entanto, fica claro que não importa a religião, sejam espíritas, hindus, católicos ou evangélicos, em todas as situações temos líderes de carne e osso, que não estão imunes à parte mais sombria das personalidades humanas.

Chegamos ao fim da era dos gurus. Onde um único homem é cultuado como se fosse perfeito, em que todas as suas palavras se tornam leis entre aqueles que os seguem. Precisamos, como sociedade, compreender que sempre haverá a necessidade de bom senso, de análise crítica, de cautela. Bons exemplos devem sempre ser apreciados, mas jamais servirem para sustentar uma fachada.

Como indivíduos, nunca podemos esquecer que a verdadeira capacidade de curar a própria vida, de definir nossos destinos, de encontrar respostas neste mundo confuso, reside dentro de cada um. A construção de uma sociedade mais justa, em que episódios horríveis como estes deixem de acontecer, parte do momento em que cada cidadão tomará consciência da sua própria contribuição, de que não é possível se isentar. Nenhuma solução está apenas na mão de um líder, independente do seu meio.

Além do mais, é fundamental, num momento de cisão tão violento como vivemos, separar o que é a fé, a religião, a espiritualidade, dos homens falíveis que a integram. Em momentos assim, não devemos abrir mão de acreditar. O choque, a indignação, a procura por Justiça - assim como a necessidade de permitir que exista uma defesa desses atores - são naturais neste momento. Mas, assim como existem sombras terríveis, também há a luz que nos move. Por pior que seja a escuridão, a manhã sempre nasce. 

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