Hoje o que existe ali, naquele quarteirão da Rua Alberto de Azevedo, entre as ruas Simpliciano Pombo e Francisco Marques, é uma caixa d’água enorme. Na minha meninice, havia ali apenas um terreno onde povoavam de tempos em tempos os circos.
Criança pobre só tinha duas alternativas: se era esperto, driblava a vigilância, entrava por baixo da lona; se era bobo – e nem moleque nem adulto escapei desta classificação -, ficava de longe, namorando o movimento, as luzes coloridas da entrada.
Uma vez aconteceu um milagre: o pai falou manso:
- Toma essa nota. Quer ver bicho no circo, pode ir...
E coração na boca, alma nos olhos, lá fui eu transpor a tênue linha entre minhas fantasias e o mundo fantástico sob a lona.
O elefante, a onça, o leão passaram pelos olhos do menino, sumiram. Nunca mais saiu de mim foi a encenação de “Foi o mundo que não me quis”. Ao final do drama, o mocinho morria, pronunciando a frase título.
Meu encontro com o teatro ocorreu quando eu tinha doze, treze anos de idade, e aquela encenação me ficou tanto que tenho consciência de ela estar na raiz dos impulsos que me fizeram amante da literatura e fez fixar morada no mundo das palavras que dizem os dramas humanos.
Por essas e outras é que vivo afirmando não haver literatura ruim. Para mim existe não-literatura e literatura. Esta pode, sim, ser boa, muito boa, excelente, ótima...
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