Transformações fazem parte do progresso da humanidade. Assistimos desde o final do século passado a impressionantes mudanças advindas da revolução digital. Uma delas, a forma de ler. Mas se esta migrou para novíssima plataforma, conteúdos como jornalismo e literatura prosseguem com a mesma essência. Se para o primeiro é incomodar o poder, para a segunda é inspirar os humanos na direção do sonho e na procura daquela humanidade que a palavra literária almeja incessantemente revelar em toda sua sofisticação, singularidade, riqueza e vastidão.
No reino animal, só ao homem é dada a condição de usufruir com consciência o presente, avaliar o passado, projetar-se no futuro, usar o idioma para interagir e... sonhar. Ao escritor, isso tudo e mais alguma coisa: transbordar-se feito rio através das palavras, inundando com seus sonhos os que se permitem ir com ele pelas margens encharcadas de imagens, personagens, enredos, ideias, sentimentos, esperanças.
O que permanece, os poetas o fundam, disse Hoelderlin. Isso ilustra a sobrevivência da literatura mesmo nos momentos históricos em que a civilização esteve ameaçada pela barbárie. E de alguma forma explica a permanência do Nossas Letras como publicação do Comercio da Franca, quando a maioria dos cadernos literários já desapareceu dos jornais impressos do País e do mundo.
No centenário Comércio, seguindo tradição que remonta a Antônio Constantino e a uma plêiade de prosadores e poetas de nomeada que conferiram a Franca o aposto “Atenas da Mogina”, o Nossas Letras circula há mais de 20 anos. Por muito tempo apenas impresso; depois só digital, agora nas duas plataformas, reflete adaptações necessárias que não significaram rupturas. E, curiosamente, a oportunidade de voltar ao impresso, uma demanda de muitos leitores, de repente fez-se possível. A vida dá voltas e isso pode ser bom.
O caderno continuará levando ao público a produção dos francanos que fazem literatura por amor e como resistência nestes tempos de tantas platitudes. Esta edição tem nomes como Lígia Freitas, voz que eleva o feminino a patamares líricos; Lúcia Helena Maniglia Brigagão, de escrita expandida pelo olhar arguto sobre seres, lugares, acontecimentos e coisas; Luiz Cruz de Oliveira, cuja obra vasta e paixão literária o tornaram ícone dos francanos; Maria Luiza Salomão, psicanalista, cronista, ensaísta de linguagem peculiar; Paulo Gimenes, compositor, músico, menestrel dos novos tempos que contempla com viés modernista; Vanessa Maranha, psicóloga, ficcionista, escritora premiada nacional e internacionalmente por seus romances e contos de estilo único, e temas que buscam desnudar o ser humano e a complexidade do existir, à maneira de Clarice Lispector, com a qual é muito associada. Nomes conhecidos entrarão nas próximas edições: Angela Gasparetto, Carlos Assumpção, Maria Rita Liporoni Toledo, Mirto Felipin, Zelita Verzola e outros.
Unidos em torno da literatura, oferecemos aos leitores nossos textos, na expectativa de que eles não apenas os entretenham, mas também acresçam algo às suas vidas, considerando que valor e beleza são bens inalienáveis de toda manifestação de arte.
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