Você começou muito jovem na cozinha do Azul e assumiu o comando pouco depois. Mesmo assim, conciliava a dura rotina no comando das panelas com estágios em grandes restaurantes de São Paulo. Como era essa rotina?
Lelê Ribeiro - Normalmente, primeiro a gente se forma, se especializa e depois assume um cargo que nos agrada. Mas no meu caso, a ordem foi diferente: primeiro de tudo veio o Azul, que se impôs de maneira irrefutável. Mas eu sempre soube que a prática em outros ambientes era indispensável para o meu crescimento profissional. Então, resolvi usar meu único dia de folga, a segunda-feira, para fazer estágios em São Paulo. Sempre trabalhei aos domingos (no Azul). Assim, terminava o trabalho, me trocava, guardava na mochila meu uniforme de estagiária, dormia na estrada, ia direto para o restante que estivesse me acolhendo, trabalhava até as 22h30 (de segunda), corria de volta para a rodoviária e voltava para Franca, pra recomeçar a semana aqui no azul, na terça-feira, às 7h30.
Você trabalhou com vários chefs em São Paulo. Qual deles mais te marcou? Por que?
Lelê - De todos os chefes que conheci, o que mais me marcou, não por acaso, foi o primeiro que me deu estágio, Paulo Barros (criador de estabelecimentos icônicos em São Paulo, como Pomodori, Girarrosto e Duo Cuocchi). Foi no restaurante dele que vivenciei como a diligência deve ser infinita e como este procedimento chega a ser milagroso.
O Azul tem uma proposta brasileira, mas traz também muitos clássicos italianos repaginados. O que mais te seduz na cozinha? E, do seu repertório, qual o prato que mais gosta de executar?
Lelê - O que mais me seduz na cozinha é justamente o óbvio: alimentar, dar de comer. Sempre me emociono com a beleza deste ato. Aqui no Azul eu gosto de tudo, e não enjoei de nenhum dos pratos que criei ou recriei. Mas, sou de fases, no momento estou apaixonada pelo bife Ancho. Na semana que vem, já não posso garantir (risos).
Você é casada com o Ivo, sommelier e garçom (também no Azul). Como o casal sobrevive à rotina puxada conjunta?
O que fazemos é fazer o que dá, quando dá é quase nunca dá (risos). Aí a gente se compromete de não perder o humor.
E, quando estão em casa, quem cozinha? O que você mais gosta de comer na sua casa?
Na minha casa quem cozinha? Ninguém! Nunca estou em casa, na minha folga eu gosto mesmo é de passear.
Apesar de tanta experiência, você ainda é muito jovem. Onde se vê daqui a 10 anos? Quer continuar à frente do Azul ou pretende se aventurar, como chef, na cozinha de um dos grandes restaurantes de São Paulo?
Lelê - Daqui a dez anos eu desejo estar fazendo a mesma coisa que faço hoje, com o mesmo ânimo e entusiasmo. Almejo ser mais competente e mais sábia no comando da cozinha. Mas, tirando isso, espero que a minha vida e a do Azul continuem bem como estão.
Certamente, você já comeu muita coisa boa além daquilo que cozinha. Que prato te marcou e não sai da sua cabeça?
Lelê - Pratos de memória estão sempre ligados à afetividade, assim escolho um que me devolve à inocência: o milho refogado da minha mãe. É sem dúvida alguma a minha primeira paixão gastronômica, e até hoje o seu sabor é como um bocado da minha infância.
Se você pudesse escolher sua última refeição, o que seria?
Lelê - Como sou volúvel e não sei o que estaria amando no dia da minha última refeição, vou escolher uma combinação que amo todos os dias: pão de casca bem grossa e queijo bem curado. E acho que morreria bem feliz (risos).
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