Flávia prepara candidatura: 'quero ser prefeita'


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A empresária Flávia Lancha (PMDB) é filha de um político tradicional, o médico Lancha Filho, ex-vereador, ex-prefeito de Franca e seu grande ídolo e inspirador. Mesmo assim, foi só aos 58 anos que Flávia disputou sua primeira eleição. Acabou em terceiro lugar, atrás do vitorioso Gilson de Souza (DEM) e de Sidnei Rocha (PSDB). Convidada por Gilson, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento Econônimo. Dois anos depois, pediu demissão por discordar das idas e vindas governo. Elegante, faz algumas críticas, mas reserva também elogios ao prefeito. E, sem hesitar, garante: é candidata a prefeita de Franca. Contra qualquer um. Inclusive, o próprio Gilson, caso ele decida disputar a reeleição.

 

Você deixou a secretaria de Desenvolvimento antes de completar dois anos à frente da pasta. Por que?

Quando entrei, fiz um panorama de como seria a Secretaria e de como eu poderia fomentar a economia da cidade e gerar mais empregos, mas comecei a perceber muitos entraves na hora de liberar as verbas. E eu planejo minhas ações. No começo de janeiro sentei com o Gilson (de Souza) e mostrei todas as ações para ele. Tinha a necessidade de cortar 30% de custos. Pra mim, é tranquilo. O problema é que cada projeto era uma dificuldade, uma demora para liberar. O que aconteceu com a Couromoda (a prefeitura disse que faria, depois voltou atrás, e depois de pressão resolveu fazer) tinha acontecido com a Expoagro. A gente programa e chega na última hora, fala que não vai fazer.

 

Foi o episódio da Couromoda (a gota d’água)?

Isso. Mas vários episódios foram acontecendo desse jeito. Aprendi a lidar com a burocracia e ela não era exatamente meu maior entrave na prefeitura. Lidei bem com ela. Ia pessoalmente acelerar o que era necessário. O problema é que ia pro Gabinete, ia para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, ia para pro Financeiro... só que cada lugar demorava muito...

 

Você acredita que pode ter sido fritada no governo?

É tão difícil dizer isso (risos). Acho que teve um pouquinho de tudo. Tem um feeling de que houve, sim. A partir do momento em que fui vista como uma ameaça (política), acho que pode ter tido, sim, um processo de fritura, mas não posso garantir.

 

O que houve antes da gota d’água?

As escolhas que o Gilson faz não são as que eu faria. Enquanto ele pensa mais na questão “cultura e festas”, penso mais no desenvolvimento. O olhar dele é muito diferente. E isso é onde não concordo. Todo mundo deu oportunidade pro Gilson, sabendo que era a primeira experiência dele como gestor. E eu achei que ele não aproveitou isso. Foi perdendo a credibilidade pela morosidade de tomar decisão. Outra coisa é que ou você dá autonomia para as pessoas - porque você não consegue ter tudo na mão - ou as coisas não andam, mesmo porque você não consegue ter o controle de tudo. A pior parte pra mim é a questão dele querer decidir tudo sem dar autonomia. Isso causou tanta morosidade que as questões se perderam.

 

E onde vai bem o governo?

Acredito que a Saúde está indo bem. Gosto muito do Rodolfo (Moraes, secretário de Saúde). Acredito que a Cidadania está redondinha; modéstia a parte o Desenvolvimento, também. Acredito que em dois anos pude fazer muita coisa e consegui porque usei a iniciativa privada, que é uma coisa que Gilson tem restrição. Eu, no lugar dele, aproveitaria que as pessoas queriam ajudar e então você conseguira, com menos dinheiro, fazer mais coisas. Haja vista o Natal, por exemplo, com essa questão da iluminação.

 

Ficou alguma frustração desse período em que esteve lá? Projetos que não andaram, ideias que não saíram do papel, objetivos não alcançados... ?

Não, você sabe que fiquei muito feliz porque conseguir fazer todos os projetos que havia proposto. O problema maior é que cada um desses projetos exigiu uma briga, o que é muito desgastante. Mas consegui, realmente, fazer tudo que eu queria e saio realizada. Minha maior frustração é não ter continuado até o final.

 

Como foi o seu processo de decisão para sair da Prefeitura? Foi uma coisa sua só com você mesma, ou foi um rompante na hora da ‘gota d’água’?

Rompante não foi. Realmente penso muito nas minhas decisões, principalmente hoje que elas impactam toda uma cidade. Pensei, conversei com muita gente, principalmente com minha família. Mas não tinha definido uma data de saída. Estava esperando para ver o que ia acontecer, o começo de 2019... Antes disso, em novembro, o Cunha (Adriel, secretário de Assuntos Estratégicos) me disse que não ia ser liberada a verba para a Couromoda. Na época, em novembro, eu disse que se eu não tivesse a verba, estaria fora. O Cunha me pediu dez dias para tentar reverter a situação, mas não foi possível. Quando soube que não teria a verba, decidi sair.

 

E quando o Gilson falou o ‘sim’ depois de falar o ‘não’?

Quando ele deu o ‘sim’, que foi depois que deu todo esse buchicho na imprensa, na Câmara, daí eu falei ‘Sabe de uma coisa? Não estou a fim de passar por essa saia justa todas as vezes’.

 

Você disse que gosta de planejar, de organizar, antecipar. Como foi para você, que tem essas características, lidar com um governo quemuda tanto? Foi difícil?

Foi muito difícil. Felizmente eu tinha uma equipe top e a gente conseguiu se planejar. Mas a morosidade na tomada de decisões foi muito desgastante.

 

Na sua saída, você fez declarações simpáticas sobre o prefeito. Ficou alguma mágoa?

Não, na realidade o que eu entendo e todos temos que entender é que são escolhas. A escolha é pessoal, ele é o prefeito e a escolha dele é uma e a minha é outra. E eu não posso ter mágoa dele por fazer decisões diferentes das minhas. Então, a partir do momento que eu não estava confortável, fiz o que devia, que era sair. Com sinceridade, não fica mágoa. Sou grata pela oportunidade. Adorei trabalhar no desenvolvimento e, quando saí, vi que deixei um legado nas pessoas, que me trataram com muito carinho. Isso é o mais importante na vida da gente.

 

E você voltou para sua empresa?

Não. Para falar a verdade, eu já até falei para todos que não vou voltar para o dia-a-dia, para a gestão do Labareda. Vou ficar no conselho, vou ajudar a fazer ajustes, mas não vou voltar.

 

E vai para onde? Está planejando a campanha para ser prefeita?

(risos) Vamos lá. Vamos por partes. Primeiro, estou fazendo uma pós-graduação em gestão pública em São Paulo. Também estou planejando um instituto. Campanha é inerente. Vai acontecer, mas eu gosto até de separar as coisas. Tem gente que fala “você fez um bom trabalho na secretaria porque tinha intenções”. Não. Em tudo que entro na minha vida, entro inteira. Entro, realmente, para fazer bem feito. Fiz na Secretaria o que eu acreditava que era voltado para o desenvolvimento econômico. Agora, claro que o fato de eu estar lá dentro e a possiblidade de fazer a pós, me deram uma maior vontade de continuar na gestão.

 

Você é candidata a prefeita de Franca em 2020?

(risos) Sim. Quero a Prefeitura de Franca. Com certeza, faz parte dos meus planos.

 

Qual é o encanto que tem no poder, na prefeitura? Todo mundo que passa por lá vive problemas enormes. Seu pai já esteve lá, você passou por dificuldades lá. O que move você para querer estar lá de novo?

Na realidade, o que me move são as pessoas. Tenho uma ligação com pessoas. Quando você pensa no bem comum, em como posso melhorar a vida das pessoas, penso muito na melhoria da saúde, educação, nas creches... não é só vaga, mas em qualidade.

 Você está falando de coisas que são bonitas, mas tem ali briga de secretariado, Ministério Público em cima, ação judicial, verba travada... Está pronta para essa parte também?

Esses dois anos que passei lá me deram uma clareza sobre isso. E, sim, estou pronta. Porque o problema você tem na iniciativa privada e tem lá dentro. É mais complexo? Não tem dúvida. Mas a maneira que você lida com o problema é que faz a diferença. As pessoas entram pensando muito só no imediato. Acho um problema as pessoas pensarem só no que aparece, no que dá voto. Está na hora da gente começar a pensar na semente. Venho de uma família de cafeicultores, sou a quarta geração, então, sei que você planta uma semente e vai colher a primeira safra quase quatro anos depois. Sei que tem todo o entrave, mas é possível lidar.

 

Você é candidata mesmo se o Gilson for candidato à reeleição?

Sim, sou candidata mesmo se ele for candidato à reeleição.

 

Até agora, a oposição vem te elogiando muito. Você acha que o “carinho” deles com você muda a partir de agora, já que você vai ser uma adversária?

(risos) É difícil dizer isso. Não sei como eles vão me tratar, mas acredito que entra num momento em que seja o Gilson, o Marco Garcia, o Adermis... vão acabar me olhando como uma concorrente. Só gostaria, sinceramente, que o nível da campanha fosse bem diferente do que nos vimos nesse tempo.

E se não for, você está pronta para enfrentar

Tem que estar, né?

 

Pronta para enfrentar fake news, ataque pessoal, mentira?

Talvez a parte mais difícil de estar na gestão pública é passar pela eleição. Porque não é uma eleição na qual você discute ideias e, sim, tentam desconstruir o outro através de coisas pessoais, de fake news.

 

Diga três coisas que você faria radicalmente diferente do Gilson e três que manteria da mesma forma.

Primeira coisa seria trazer a iniciativa privada pra junto. A arrecadação de Franca é baixa e você melhora isso com o setor privado. Faria isso imediatamente. Trazer o servidor público realmente pra perto de mim, seria outra coisa. Investir, valorizar, desde os professores, a área da saúde. Deixa-me ver o que mais... (pensando).

 

Algo fundamentalmente diferente...

As escolhas que eu faria do pessoal, do secretariado. Que tenha viés político, mas técnico também. Ah, e mudaria a ação social.

 

E as três que manteria por acreditar que a linha de ação bate com a sua?

Gosto da atuação da Saúde. Acho que ele (Gilson de Souza) tem uma preocupação real com a Saúde e eu gosto disso. A outra coisa é a cultura; as pessoas precisam de lazer e ele tem muito esse olhar, acho que é importante. E a simplicidade de lidar com as pessoas. É uma característica que ele tem e que eu admiro muito.

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