Uma revolução silenciosa vem transformando todos os dias, e de forma implacável, a rotina de cada um de nós. Taxistas cedem espaço ao Uber, agências bancárias são reduzidas e têm grande parte de seus serviços substituídos por aplicativos, locadoras de vídeos foram extintas, a indústria da música foi obrigada a se recriar completamente, sumiram primeiro os vinis, depois os CDs, todos substituídos pelos apps de música. Ninguém está imune à avalanche de mudanças imposta pela revolução digital da internet. Um dos setores mais afetados por esse novo mundo é a indústria da informação.
Jornais, revistas, emissoras de TV e redes de livrarias viram suas estruturas serem fortemente abaladas ao longo das últimas duas décadas em todo mundo. Apenas nos últimos dez anos, 45% dos postos de trabalho nas redações de jornais americanos foram extintas. Desde 2004, nada menos de 1800 jornais deixaram de circular nos Estados Unidos. Na Europa, o fenômeno se repete em todos os países.
No Brasil, o quadro é semelhante, com um agravante. A situação foi ainda mais prejudicada por conta da prolongada crise econômica. O Grupo Abril, que publica a revista Veja, pediu recuperação judicial atolado numa dívida que chega a R$ 1,6 bilhão. A Abril chegou a ser uma das maiores editoras de revistas do mundo, com centenas de títulos que iam dos quadrinhos à Playboy. Restaram apenas 15 revistas no seu portfólio. No mesmo cenário, a Livraria Cultura e a Editora Saraiva, nomes de grande respeito no mercado e que respondem juntas por 35% dos livros comercializados no País, lutam na tentativa de se manterem de pé. Somadas, as duas empresas acumulam dívidas de R$ 1 bilhão.
O problema é grave, amplo, profundo. Importantes e tradicionais diários brasileiros, como o Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), que circulou durante 189 anos ininterruptos; o Correio (Uberlândia); Gazeta do Povo (Curitiba); Jornal da Paraíba (Campina Grande); Diário de São Paulo; e, mais recentemente, A Cidade (Ribeirão Preto), com 114 anos de história, deixaram de circular. Muitos outros foram extintos.
No ritmo intenso dos dias atuais, é possível ter acesso à informação de forma instantânea pela tela do celular, a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar do planeta. Faz pouco sentido aguardar horas para ler no papel uma notícia já amplamente conhecida.
Diante deste cenário, cabe ao Comércio da Franca, do alto dos seus 103 anos de história, o que faz dele um dos jornais mais antigos do País em circulação ininterrupta, encarar a luta e tomar as medidas que lhe possibilitem se adaptar ao mundo novo e, ao mesmo tempo, preservar e manter uma tradição de mais de um século.
Assim, a partir desta semana, o Comércio deixa de circular nos dias úteis (de terça a sexta-feira) em sua versão impressa, que segue, renovada e ampliada, nas ediçõ es de sábados e domingos. São dias em que há mais tempo para tomar café da manhã, conversar com a família, descansar e, obviamente, também para ler o jornal, com páginas e seções mais reflexivas, conteúdo aprofundado e a oferta de serviços de sempre.
A decisão é difícil, mas inevitável. Seguimos firmes, sabedores de que na nossa própria história foram muitos os dias de dor, mas também muitas as lágrimas na vibração por memoráveis conquistas. Seguimos confiantes de que são os momentos mais dolorosos que podem ensejar grandes feitos. Com coragem e fé, também com a condição da resiliência, seguimos confiantes no futuro, agradecidos pelo apoio de nossos colaboradores, dos anunciantes, da comunidade e, claro, de leitores como você, que neste momento acompanha estas linhas.
O portal GCN, surgido na redação do Comércio, é hoje uma empresa independente, que já se consolidou como um dos maiores sites de notícias do interior. Recebe, a partir de agora, a responsabilidade, maior ainda, de manter nossa comunidade conectada aos fatos mais importantes que marcam nosso cotidiano. Em tempo real, dia e noite, a todo instante, neste vasto mundo que se torna, por conta da instantaneidade da comunicação, cada vez menor.
Na impermanência da vida, é um orgulho saber que somos mais que um jornal. Somos um símbolo da nossa cidade, um documento histórico das lutas e conquistas do nosso povo, um registro de tudo que colaborou para que Franca se tornasse o que é hoje.
Agradecemos a cada um dos que nos ajudaram a escrever essa história com a convicção de que este é apenas mais um capítulo da jornada que recomeça hoje, adaptada a um mundo que muda sem cessar e para o qual todos precisam estar preparados a fim de sobreviver com valor e dignidade. Muito obrigado. E até o próximo sábado.
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