Danilo Costa
ESPECIAL PARA O COMÉRCIO
Bem próximo de Franca, na vizinha cidade de Patrocínio Paulista, temos um exemplo triplo do que nos habituamos a chamar de empoderamento da mulher. A vereadora Néria Lúcio Buzatto, 38, é a única mulher afro-brasileira no país, até hoje, a exercer funções nos poderes legislativo, executivo e judiciário. Nascida na cidade mineira de Monte Santo de Minas, Néria passou a maior parte de sua vida em Patrocínio Paulista, município em que cursou o ensino fundamental, médio e onde vive até hoje. Em 2003 assinou sua ficha de filiação ao PT (Partido dos Trabalhadores) e se elegeu para a Câmara de Vereadores da cidade. Ainda nesse primeiro mandato, Néria começou a faculdade de Direito na Unifran. Em 2008, se reelegeu para a Câmara, na qual ficou até 2012. Enquanto estava em seu segundo mandato no poder legislativo, Néria terminou a faculdade de Direito e começou a advogar, sempre conciliando os dois trabalhos com a dedicação à família e a ajuda na lanchonete que o marido possui na cidade. Nas eleições de 2012, Néria Buzatto aceitou o convite do partido e se lançou candidata à vice-prefeita da cidade, ocupando o cargo até 2015. Como integrante do poder executivo da cidade ela não pôde advogar, atividade que voltou a exercer em 2016, quando se reelegeu vereadora, agora pelo PSD (Partido Social Democrático). A pedagoga, professora, advogada, ex-vice-prefeita e vereadora Néria Buzatto conversou com o Comércio e contou um pouco sobre sua vida e desafios na política.
Qual poder da administração pública você exerceu primeiro?
Comecei no legislativo. Em 2003 recebi o convite da comunidade do bairro Bandeirantes para representá-los e lutar para termos nossa avenida com canteiro central, e conseguimos a avenida, que hoje é a Custódio Faleiros. Muitos falavam que seria bom eu estar na Câmara. Pensando e conversando com minha família, ainda em 2003, me filiei à um partido, me lancei pré-candidata a vereadora em Patrocínio Paulista e fui eleita 2004.
Como vereadora, qual foi sua maior dificuldade?
Conciliar o que eu queria trazer para a cidade com as limitações que o vereador tem. Somos muito limitados, não podemos atuar como executores de nada e alguns projetos de lei devem partir diretamente do prefeito, então, me senti um pouco limitada quanto a isso.
Algo lhe surpreendeu positivamente na Câmara?
Eu pensava que lidar com as pessoas seria a parte mais difícil de estar como vereadora, e não foi. A população exige o mínimo de nós quanto ao cargo que ocupamos.
Você tem um filho (Lucas Buzatto, 18). Como foi pra ele se adaptar à vida pública da mãe?
O Lucas se adaptou muito bem. Ele é um filho muito independente, compreensivo com relação a essa divisão do tempo que tivemos que organizar para atuar como vereadora e advogada.
Ainda no primeiro mandato de vereadora você começou faculdade de Direito e terminou quando estava no segundo mandato. Como foi essa decisão?
Como vereadora, percebi que precisava de algo para agregar conhecimento à vereança. Como eu ia dedicar um tempo para me profissionalizar, fiquei em dúvida entre Direito e Assistência Social, até que o advogado Sérgio Saraiva, um nobre profissional de Patrocínio Paulista, me incentivou a fazer Direito. Como eu estava na Câmara de Vereadores, lidando com leis, optei pelo curso.
E no judiciário, como advogada, quais foram as dificuldades e facilidades da profissão?
O judiciário é muito rápido, está em constante mudança e muito dinâmico. Creio que hoje a maior dificuldade dos advogados é acompanhar essa dinamicidade das leis, jurisprudências e doutrinas. E isso se tornou uma facilidade também, pois o judiciário e o legislativo caminham juntos e me proporcionam uma comparação entre os dois segmentos, principalmente na elaboração de leis.
E o poder executivo? Como chegou essa ideia de se tornar a vice-prefeita de Patrocínio Paulista?
O poder executivo chegou em um momento difícil. Eu estava de luto pela perda de meu pai e, enquanto isso, havia na cidade uma prévia de candidatos entre os quais eu estava e acabei ganhando. Acabou se tornando um bom momento na minha vida. Não foi fácil ser vice-prefeita, porque eu estava acostumada com o legislativo, então, apesar das limitações, eu tinha um microfone, meu voto, minha palavra e no executivo eu não tinha isso. Ser vice-prefeita foi um momento muito importante da minha vida por ser a primeira mulher a fazer parte do executivo da minha cidade. E quando falo de orgulho não é por mim, e sim por todas as mulheres. Diante das dificuldades que todas nós enfrentamos, quando me vejo nessa situação me sinto privilegiada por estar ali representando todas as mulheres. Eu queria estar onde eu pudesse contribuir mais para a cidade, e esse foi um dos motivos de eu ter aceito ser vice-prefeita e ter ocupado esse cargo com muita honra.
Os inúmeros casos de corrupção que ocorrem no país, às vezes, deixam políticos desconfortáveis com a própria atuação, uma vez que são criticados de forma geral. Como é para você lidar com isso?
Para mim é muito tranquilo. Quando me é dada a oportunidade, falo com muita tranquilidade, sinceridade e principalmente com muito orgulho por ser uma política honesta. Tanto em ambientes com pessoas que me conhecem quanto naqueles que há pessoas que não me conhecem, falo com serenidade e muitas pessoas se surpreendem com isso, em ver que o político é um cidadão como qualquer outro e o que difere o bom do mau político é o caráter, honestidade e a vontade de fazer o bem ao próximo.
Você ser uma mulher e negra foi um obstáculo em alguma dessas funções que exerceu e exerce até hoje?
Obstáculo não, mas sempre nos deparamos com situações de preconceito. Ser mulher e ser negra até me ajudou em algumas ocasiões, mas já me deparei com comentários como ‘nossa, porque não procuraram um vice-prefeito branco’. Mas isso nunca me atrapalhou! Sou uma mulher de muitos desafios e quando percebo algum tipo de preconceito isso me instiga a desafiar essa pessoa e desmontar esse preconceito, assim supero até mesmo minhas expectativas para demonstrar que o preconceito não leva a nada e que todos nós somos iguais.
Em 2020 teremos eleições municipais. Quais são os planos de Néria Buzatto?
É uma grande incógnita (risos). Fiquei muito ansiosa nas eleições deste ano porque já estava pensando em 2020. Sigo sempre a mesma trilha: no que vou contribuir mais, onde vou ser mais útil e, principalmente, no que a população me pede. Então, levando isso em consideração, conversando com minha família e pensando nos três ângulos que são família, sociedade e carreira, vou fazer o melhor para minha cidade. Amo Patrocínio Paulista e amo a política, então enquanto as pessoas pedirem, vou continuar.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.