As suculentas


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"As espécies que sobrevivem não são as mais fortes, nem as mais inteligentes, e sim aquelas que se adaptam melhor às mudanças". A frase de grande efeito, traduzida para dezenas de idiomas, é atribuída  a Charles Darwin, naturalista britânico que revolucionou a biologia há duzentos anos. Vamos reencontrá-la na placa de mármore do átrio da Academia de Ciências da Califórnia; na exposição parisiense de Paleontologia na Cidade das Ciências; no site do Museu de História Natural  de Londres, templo do darwinismo. E em muitos outros lugares ao redor do mundo.  

No entanto... "esta frase não aparece em momento algum na obra de Darwin", assegura Patrick Tort, autor de diversas obras sobre o darwinismo, e um dos diretores do Museu Nacional de História Natural de Paris. John van Wyhe, professor em Cambridge, corrobora o colega:  "Darwin tem frases falsas “assinadas” por ele porque todo mundo ouviu falar dele, mas quase ninguém leu”. Entretanto, há uma explicação factual num discurso acadêmico que elucida a confusão em relação à propriedade intelectual: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” A frase  foi proferida no ano de 1963 por Leon C. Megginson, professor da Universidade da Louisana, nos EUA, ao abrir palestra sobre o tema “Charles Darwin e ‘A origem das Espécies”. Vejam só como são as coisas: cunhada por Megginson sobre a obra de Darwin, passou a ser atribuída a este. E pensar que ainda nem existiam as redes sociais, onde o crédito se dá ao sabor dos ventos, quando não como lastimável atestado de ignorância ou desrespeito à produção alheia.  
 
No caso, porém, não importam as palavras, ipsis litteris. O relevante é que elas traduzem o princípio basilar da obra de Darwin, síntese das pesquisas às quais ele dedicou sua vida e tem na capacidade de adaptação dos seres vivos o seu eixo. Sem adaptação talvez não existisse evolução. Toda vez que me deleito com  minha coleção de plantas suculentas, Darwin  me vem à memória. Olho as que têm formato de dedinhos e recupero a que minha mãe plantava em lata de óleo recortada na horizontal e da qual eu, então menina, não gostava. Bem ao  contrário de hoje. 
 
Em minha casa tenho aquelas  parecidas com flores de pedra e me foram presenteadas por prima de gosto  refinado. As exóticas que lembram mini-repolhos e ganhei num aniversário. As avermelhadas no ápice do verão são joias preciosas trazidas de Goiás há muito tempo. As aparentadas às espadas-de-são-jorge, esculturas vegetais que um dia comprei em feira livre. Duas pequeninas me são especialmente caras, plantadas há muito tempo em duas xícaras de café- souvenir trazido de Portugal por amiga querida, que também aprecia as suculentas.
 
Elas não dão qualquer trabalho. Nada pedem de  adubos, poda, mimos. Ficam ao relento, plantadas em vasinhos muito simples. Aguentam  firmes os raios do Sol escaldante. Nunca acusam sede, mesmo quando  não recebem uma gota de água durante dias e até semanas. E sua reprodução parece um milagre: cai uma folha e a água nela contida é suficiente para hidratar as raízes que logo se firmam na terra mais seca e sustentam novo broto. 
 
Olhando-as, imagino suas ancestrais e o esforço que fizeram ao longo dos milênios para chegar até aqui. Para se adaptar ao solo, ao clima, às circunstâncias. Para driblar as adversidades do entorno onde brotaram em sua forma primeva. Para desenvolver  um jeito de acumular o máximo de água. Foi de tal forma que engrossaram raiz, talo, folhas. Foi  assim que se municiaram de reservas de líquido durante períodos prolongados. Foi  dessa  maneira  que sobreviveram  em ambientes áridos e secos que seriam inóspitos para outras plantas. 
 
Toda manhã  as observo, observo entre surpresa e encantada:  o pequenino cacto que ao longo de sua história sobre a Terra transformou  folhas em espinhos, cumprindo função dupla- reter a água e defender-se de possíveis predadores; a rosa-de-pedra de folhas arredondadas com leve angulação nas pontas; a flor-fantasma de sub tons arroxeados se mesclando ao verde opaco; a colar-de-pérolas, cheia de bolinhas parecidas a ervilhas desenvolvendo-se rumo ao chão; a  rabo-de-burro, de folhas juntinhas lembrando vírgulas, umas atrás das outras, também em movimento descendente; a zebra, roseta de folhas verdes grossas, carnudas, duras e rajadas; a orelha-de-Shrek, que desperta a menina dentro de mim, ainda capaz de rir acompanhando as aventuras do ogro. 
 
Aos poucos minha coleção vai crescendo, embora ainda seja diminuta, tímida, quase ridícula diante do número de espécies que existem no planeta: 22 mil! Mas todo dia eu  olho as suculentas, sobretudo admirada por sua capacidade de sobreviver com quase nada e ofertar tanta beleza de forma gratuita. Recupero uns versos de Ezra Pound, nome seminal na poética do século XX, expoente do Modernismo na América:  “Abaixo a tua vaidade// Nem ordem, nem graça, nem coragem/ são obras do homem// Abaixo a tua vaidade// Aprende com o mundo verde o teu lugar.”

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