Uma data e um pequeno avanço


| Tempo de leitura: 2 min

Em um sábado de 1971, um grupo de 12 negros se reuniu em Porto Alegre, no Clube Náutico Marcílio Dias, próximo ao rio Guaíba. Fundado em 1949, quando os outros clubes da cidade não aceitavam afrodescendentes, o local cedeu a eles uma sala, que foi sendo organizada com mesas de fórmica, postas em forma de círculo. Ali, pela primeira vez, o 20 de novembro seria o Dia de Consciência Negra no Brasil. A data marcava a morte de Zumbi dos Palmares, líder do quilombo que resistiu por 95 anos na Serra da Barriga (AL). Naquele dia, em 1695, Zumbi foi assassinado em uma emboscada e teve sua cabeça exibida em praça pública, depois de liderar a resistência por quase duas décadas. Por horas, no clube gaúcho, homens e mulheres falaram sobre a história dele e do outro rei de Palmares, Ganga Zamba, sobre como os negros foram trazidos da África para o Brasil e o que foi a escravidão no país. Ainda recitaram poemas de Castro Alves e Solano Trindade. A ideia havia nascido de um grupo que questionava a legitimidade para o povo negro da data do 13 de maio, quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Uma publicação da editora Abril e mais algumas pesquisas sobre o quilombo dos Palmares levaram o grupo à nova data: o 20 de novembro, da morte de Zumbi. A substituição do 13 de maio pelo 20 de novembro era uma forma de autoafirmação, seria uma data escolhida pelo movimento, não pelos órgãos oficiais. Iniciava aí a oficialização de que chamaram de “uma tomada de consciência”.

Dois anos depois da primeira celebração, o questionamento do grupo gaúcho virou notícia nacional. A partir dali, atos relembrando figuras negras históricas e esquecidas passaram a ser replicados em outros cantos do país, todo mês de novembro. Em 2003, o Dia da Consciência Negra entrou no calendário escolar junto com a lei que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Oito anos depois, a então presidente Dilma Rousseff (PT) oficializou a data como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

Nessa data, porém, só há feriado em locais com leis municipais ou estaduais específicas, como na cidade de São Paulo. No Rio Grande do Sul, onde surgiu o Grupo Palmares, apesar de uma lei de 1987 ter incluído o dia no calendário oficial, não é feriado. Desde 2015, tramita na Câmara dos Deputados uma lei que propõe firmar a data como feriado nacional definitivo.

O 20 de novembro representa muito mais que uma simples data para os negros. O Dia da Consciência Negra é mais uma tentativa de conquistarem a igualdade e o respeito que deveriam existir sem a necessidade de luta, sem a existência de datas. Lutar contra a discriminação é deve de todos, independentemente da cor da pele ou qualquer outra questão usada apenas para subjugar, coagir, dominar.

email opiniao@comerciodafranca.com.br 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários