Drielle: não tem mudança sem movimento


| Tempo de leitura: 6 min
Drielle é mãe de Matheus Henrique, 12; Marcos Felipe, 8; Maria Júlia, 6, e Mathias Augusto, 2
Drielle é mãe de Matheus Henrique, 12; Marcos Felipe, 8; Maria Júlia, 6, e Mathias Augusto, 2
A história da jovem francana Drielle Caroline Andrade Raimundo Santos se assemelha com a de muitas mulheres que precisaram se reinventar várias vezes na vida, principalmente quando a única alternativa restante é se manter firme, forte e com fé diante das adversidades. 
 
Há dois anos, ela viu o casamento de 12 anos se dissolver devido a desgaste na convivência e casos de infidelidade do ex-marido. Mãe de quatro filhos, ela optou pela separação. Hoje, aos 31 anos de idade, e em um momento mais favorável - mas, ainda assim, de muitas lutas -, Drielle é um dos destaques da programação de eventos do mês da Consciência Negra em Franca organizado pelo Condecom (Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de Franca) e apoiado pela Prefeitura de Franca. A mulher que antes era uma empregada doméstica e em uma confecção, está se firmando como costureira e sonha mais alto.
 
Seu segundo desfile de roupas de sua marca própria, a Brilho Negro, acontece no próximo dia 1º de dezembro, na Casa da Cultura e do Artista Francano “Abdias Nascimento”, com a presença do ator, cantor e bailarino Sebastian Fonseca, ícone da campanha publicitária da loja C&A. “Eu nem imaginava o que eu vivo hoje. Não tinha força pra sonhar. Eu estou vendo tudo acontecer e estou indo. Não tem mudança sem movimento”. 
 
Você compartilha com várias mulheres, principalmente nos encontros de apoio, empoderamento e reflexão (Encontro das Pretas), sua história de superação após um casamento terminado após uma traição. Como foi essa situação?
Vivia uma relação desgastada. Estávamos desempregados. E a minha mãe descobriu uma traição do meu ex-marido. Ela ficou com receio de compartilhar comigo o caso com medo do meu leite secar (ela estava amamentando o filho mais novo nesta época). No dia 24 de dezembro, ela veio falar e disse que não podia deixar eu passar as festas de Final de Ano sendo enganada. Foi a gota d’água. Arrumei a malinha dele e o coloquei para correr. Não era a primeira vez. A relação virou um fardo, por ciúmes e incompatibilidade de ideias. 
 
Neste momento, você não teve a insegurança de ficar sem ele e com a condição de ter quatro filhos para criar sem marido?
A gente tem que passar por dificuldades, se não a gente não cresce, não muda. Eu sempre pensei assim: “tá passando dificuldade agora? Mas, vai passar!”. Traição e mentiras são coisas que eu abomino demais. Se é a verdade que ele tem de mim, isso é o mínimo que eu gostaria de ter tido. Você tem que ter um parceiro, uma pessoa que você pode contar. E isso não tive. Os filhos sempre serão meu e dele. Vai ser difícil? Claro que vai. Não posso dizer que é fácil pra mim. Mas, eu me sinto mais aliviada. 
 
Você não teme que as pessoas julguem a sua postura?
Não deixo as coisas simplesmente passarem despercebidas. Eu sempre falo muito, falo muito da minha vida, por que eu não tenho nada a esconder. E fazendo isso tenho compartilhado minhas histórias e dando espaço para outras mulheres fazerem o mesmo e criarem atitude. Essa troca tem me ensinado muito. Porque eu não sou perfeita.
 
Atualmente, o que você faz profissionalmente para manter sua família?
Durante o dia eu faço os trabalhos de costureira e, aos finais de semana, à noite, atuo como segurança em eventos. Eu fiz curso de modelagem e confecção no Senai e na Defense para segurança. Faz 15 anos que comecei a costurar e não pensei que o que seria uma renda extra tomaria essa dimensão. 
 
Qual teu maior incentivo para não desistir dos desafios que são lançados na sua vida?
De repente me vi numa situação onde eu tive que dar conta de tudo e meus filhos sempre serão minha prioridade. Não posso ficar terceirizando a maternidade. É tudo muito corrido, às vezes me enrolo, mas também não sou perfeita. Quero os meus filhos felizes. Este é o futuro que eu espero. (Ela é mãe de Matheus Henrique, 12; Marcos Felipe, 8; Maria Júlia, 6, e Mathias Augusto, 2). 
 
Como começou esse processo de tentar superar e se manter firme diante desta mudança de vida?
Quando você fica numa zona de conforto, você fica predisposta sempre a fraquejar. Se você não tem amigos e te faltam objetivos... Estive quase em depressão não só pela separação, mas pela rotina de cuidar dos filhos, trabalho... todo dia a mesma coisa. Aí voltei a dançar (dança do ventre) e a lutar jiu-jitsu, desta vez com os meus filhos. O esporte foi bom para eles, porque além da separação, têm o pai ausente agora e sentem essa falta. (Logo que se separam, o ex-marido cometeu um delito e está preso). 
 
Quem te dá o respaldo para você conseguir conciliar todas essas atividades?
Minha família. Principalmente minha mãe. Ela me dá muita força e é a peça essencial da minha vida. Sem ela não faria nada do que eu faço hoje. É ela que me dá este suporte que eu preciso pra viver a minha vida e dar o melhor aos meus filhos. Estou sempre procurando uma situação para melhorar.
 
Diante de tantos casos de relatos de racismo e preconceito, como você cerca de cuidados teus filhos para não sofrerem neste contexto?
Não quero que meus filhos sejam passivos e aceitem tudo. Crio eles para questionarem. E não vejo meus filhos sofrendo preconceito por isso. Claro que já houve situações de relatos. Mas eles sabem se empoderar porque têm referências. Isso me enche de orgulho. A gente precisa aprender nossa história, sobre nossas raízes para poder passar isso a nossas crianças saberem contornar essas situações de preconceitos raciais, por exemplo.
 
Como surgiu a ideia de montar uma marca inspirada na moda afrobrasileira?
Tenho duas marcas: a de acessórios que leva o nome Preta Perfeita e a de roupas que se chama Brilho Negro. A gente (da raça negra) não tem uma disponibilidade e nem uma visibilidade atualmente de ter sempre à disposição peças no vestuário ou acessórios que visam a temática afrobrasileira, que é tão rica de elementos, tecidos, cores e conceitos.
 
Quais as inspirações que o público irá presenciar no teu desfile?
Meu primeiro desfile foi em agosto deste ano. As peças foram inspiradas no músico francano Elias BlackLas, o qual admiro muito e tenho um carinho enorme. Ele também contribuiu na pesquisa das peças desenvolvidas. Desta vez, a moda tem a temática Tal mãe, tal filho. A maioria das peças serão confeccionadas em brim com cores vibrantes. Serão 30 pessoas que entrarão na passarela. Os modelos não são profissionais. Faço questão de fugir dos padrões de passarela, para mostrar a viabilidade das peça em todas as ocasiões e contextos. Este empoderamento é uma coisa que precisa ser mais focada. Não tem sentido as roupas serem pequenas se somos grandes e volumosas. A vida não é assim, a realidade é outra. Após o desfile, vou inaugurar a loja online e as peças terão valores acessíveis. 
 
Qual o seu conselho para mulheres que enfrentam uma história semelhante a que você passou e querem mudar de vida?
Eu saí da zona de conforto e fui para a vida. Me permiti a me reinventar e conhecer outras possibilidades. Eu nem imaginava o que eu vivo hoje. Não tinha força pra sonhar. Eu tô vendo tudo acontecer e estou indo. Não tem mudança sem movimento.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários