Sem melar as mãos


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Nesta vida
a gente vai tomando sorvete
como pode.
–O pescoço torto
lambe em volta
pra não cair respingo.–
De repente, suspense:
a língua salva
em segundos
o excesso que escorre.–
Os olhos não enxergam
um palmo adiante do nariz:
riscos e cuidados
sujeira por um triz.–
Ao final
(Mesmo de colher)
só os raros chegam
sem melar as mãos.
— Me alcança um guardanapo, vai!
 
Francisco Azevedo (1951), poeta e romancista

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