Todo estudante de ensino médio conhece o teorema de Pitágoras. Poucos sabem que seu criador nasceu na ilha grega de Samos, em 570 a.C, estudou matemática, astronomia, música, literatura e filosofia na sua cidade, faleceu no sul da Itália aos 80 anos. Sua frase icônica, “tudo é número”, com a qual pretendia explicar a realidade e o mundo, resiste até hoje. Para ele, os números seriam “essência física e etérea de tudo que há no universo”. Com pretensão a representar a ordem cósmica, essa teoria teria surgido a partir da observação da harmonia das sete notas musicais.
Talvez por isso a numerologia confira ao sete o status de número simbólico.Para os estudiosos dessa área, ele estaria relacionado ao mundo mental, à reflexão, à busca de outras respostas além das oferecidas. É curioso notar que sete são os princípios da moral pitagórica- retidão de propósitos, tolerância de opinião, inteligência para o discernimento, clemência para o julgamento, sinceridade nas palavras, compaixão pelo próximo, equilíbrio nas atitudes.
O capítulo sobre o número sete é enorme e me seduz. Escreveria muitos parágrafos sobre as sete maravilhas do mundo antigo, as sete grandes artes, as sete cores refratadas pelo prisma, os sete sábios pré-socráticos, as sete cabeças da hidra de Lerna. Se voltasse o olhar para o cinema, me ocorreria falar sobre “O Sétimo Selo”, filme emblemático de Ingmar Bergman, ou “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa. Desviando o foco para a televisão neste instante, focaria na novela que tem por título “O Sétimo Guardião”. Etc. Mas hoje, aqui e agora, desejo registrar os nomes de sete psicanalistas. Sim, sete mulheres que há dez anos se uniram em Franca ao redor de um projeto sonhado com altruísmo, generosidade, amor à ciência e à arte. Os nomes delas: Ana Márcia V. P. Rodrigues, Ana Regina M.Caldeira, Débora Mellem, Fátima M. Cassis R. Santos, Josiane B. Oliveira, Maria Luiza Lana Mattos Salomão e Sonia Maria de Godoy. O nome do projeto: “Cinema e Psicanálise”. Ou, como já nos habituamos a ver escrito, C&P. Quando se fala delas, nos lembramos dele. Quando se fala dele, nos lembramos delas.
As sete mulheres são profissionais conceituadas em nossa cidade e fora dela. Todas pertencem à Sociedade Brasileira de Psicanálise- Maria Luiza, à SBP/ São Paulo; as outras, à SBP/Ribeirão Preto. As sete inscreveram seus nomes na gênese do evento C&P, que conquistou durante a primeira década um público grande e interessado na vertente artística e psicanalítica do filme, e “na forma séria e verdadeira como a psicanálise é mostrada, na sua essência profundamente humana, sensível e vincular”, no dizer de uma das organizadoras, em entrevista ao Comércio, na última terça-feira.
Com expectativa registramos em novembro de 2008 o primeiro, que exibiu o filme “O Carteiro e o Poeta”(comentários de Ana Márcia) no auditório do Hospital Unimed; depois, com otimismo, todos os outros, no espaço do Centro Médico. Também publicamos durante este tempo, nos cadernos Artes e Nossas Letras, as resenhas que convidam o leitor a assistir ao filme escolhido a cada mês e aos subsequentes comentários. Neste 10 de novembro, a comissão organizadora, os parceiros, os convidados e o público celebram os dez anos com a exibição de "A Chegada" e interpretações do psicanalista e médico Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro.
Gostaria de deixar registrado, como divulgadora e espectadora que vem acompanhando essa jornada, que vejo o C&P como espaço de generosidade e ambiente caloroso, onde cada filme é escolhido com critérios que prezam forma e fundo, ensejando a fruição estética e ao mesmo tempo despertando reflexões para maneiras de existir que podem ou não se aproximar das nossas. Os comentários do convidado, depois da exibição, estimulam o questionamento do público que, com sua participação, amplia o sentido do filme em leituras complementares e, não raro, surpreendentes. Saio desses encontros acrescida e curiosa diante do desafio que é entender o outro e me entender. Porque o que sabemos, ou achamos saber, sobre a vida e os seres humanos, torna-se bem exíguo diante da complexidade das diversas vidas e culturas que um filme, obra de arte, pode nos mostrar através de imagens, enredo, personagens, diálogos e ... leitura psicanalítica.
Cumprimento com gratidão as sete que se deram as mãos em 2008 para que a semente, então sonho, pudesse brotar, crescer, verdejar e florir. Parabenizo, pois, Ana Márcia, Ana Regina, Débora, Fátima, Josiane, Maria Luiza e Sônia por tornar a Psicanálise cada vez mais acessível aos interessados no auto conhecimento, pilar para toda vivência humana que se pretenda mais ampla e plena a cada jornada. E também pelo que ela, enquanto ciência e método, pode desvelar como possibilidade de transformação aos que querem de fato ser protagonistas de suas vidas.
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