'Prensa neles' não funciona


| Tempo de leitura: 2 min

O governo de Jair Bolsonaro (PSL), ou melhor, a equipe de transição do presidente eleito pretende usar da popularidade natural e decorrente da recente eleição para pressionar o atual Congresso Nacional a já aprovar parte da reforma da Previdência. Mudanças nas regras da aposentadoria dos brasileiros são tidas por economistas, analistas de mercado e pelos próprios políticos como medida crucial para que a economia brasileira volte a crescer de forma sustentável. O setor representa uma das maiores fontes de déficit do governo central e enxugar as contas públicas é fundamental para garantir o crescimento econômico.

Em 12 meses, até setembro, o rombo foi de R$ 488,835 bilhões. A cifra bilionária corresponde ao déficit da administração pública, que mais gastou do que arrecadou com impostos e taxas. Qualquer cidadão sabe que quando se gasta mais do que recebe, o resultado em médio e longo prazo é desastroso. Assim como todos também sabem que reverter tal situação é missão inglória, decorrente de tomadas de decisões nem um pouco palatáveis e, muito menos, imediatas. Mas não é exatamente assim que pensa Paulo Guedes, o guru econômico do futuro presidente da República. Ele já falou em zerar o rombo em um ano e, para atingir a tão ambiciosa meta, vale até “prensar” o Congresso. Não o futuro, mas este que aí está, a menos de dois meses do fim.

“O presidente tem os votos populares, e o Congresso, a capacidade de aprovar ou não. Prensa neles. Se perguntar para o futuro ministro, ele está dizendo ‘prensa neles’, pede a reforma, é bom para todo mundo.” A afirmação de Guedes não foi bem recebida pelos atuais deputados federais e senadores. Entre os votos, a popularidade do presidente eleito e os atuais congressistas, estão a pouca disposição dos mesmos em cederem à pressão do futuro governo e a impopularidade decorrente da reforma da Previdência.

É notório que Bolsonaro não foi eleito por sua pauta econômica. O militar da reserva foi alçado ao comando civil do País por sua defesa do endurecimento na área da segurança pública, como o afrouxamento na lei do desarmamento, e pelo discurso radical contra o estado de coisas que dominam o Brasil, atingindo o PT e todos os outros tradicionais partidos políticos. Quem votou no então candidato do PSL, o fez por um combate mais firme contra a marginalidade, muitos pelo sonho de poderem ter uma arma em casa e tantos outros para evitar que os petistas voltassem ao poder. Mexer no bolso ou na aposentadoria desses eleitores não será tarefa fácil, como supõe Guedes.

Ao guru econômico, que já teve de recuar em diversas declarações durante a campanha, parece faltar conhecimento dos bastidores da política. Estes próximos 55 dias em Brasília, na preparação para o governo, devem lhe servir para constatar que, na base da “prensa” - mesmo que para conseguir algo urgente e necessário -, não terá nada.


email opiniao@comerciodafranca.com.br 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários