A ideia do “Cinema e Psicanálise” foi gestada na primavera de 2008, quando Ana Márcia V. P. Rodrigues, Ana Regina M. Caldeira, Débora Mellem, Fátima M. Cassis R. Santos, Josiane B. Oliveira e Sonia Maria de Godoy, psicanalistas com clínica em Franca, todas pertencentes à SBPRP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto), manifestaram desejo de elaborar um projeto nos moldes do já existente na vizinha cidade. Em novembro daquele ano começou a semeadura. Não demorou muito para que as sementes germinassem, os brotos irrompessem, as raízes se entranhassem, os caules se fortalecessem. Então, nas hastes, entre folhas, as flores começaram a surpreender no jardim de sonhos, mistérios, desvelamentos, afetos, vínculos, crescimento e busca cada vez mais ampla pelo entendimento do que humaniza o ser. Entrevistamos as responsáveis pelo projeto que na agenda cultural da cidade é um dos mais sólidos no seu gênero a chegar à marca dos dez anos. A celebração acontece no próximo sábado, na sede campestre do Centro Médico, a partir das 15 horas, com apresentação do filme A Chegada, do diretor Denis Villeneuve; comentários do psicanalista e médico Paulo M.de Moraes Ribeiro; conversa com o público presente e... bolo, naturalmente.
Quais os objetivos do Cinema e Psicanálise?
C&P-Temos como objetivo fazer uma junção entre a psicanálise, a arte e a cultura, numa linguagem acessível ao público em geral. A intenção maior é que a psicanálise seja apresentada à nossa sociedade de forma séria e verdadeira, a revelar sua essência - algo profundamente humano, sensível e vincular.
Vocês acreditam que os têm alcançado?
C&P- Às vezes os alcançamos para além de nossa expectativa. Pois percebemos a casa sempre repleta de pessoas que desejam pensar sobre o mundo mental, as relações humanas, a maneira como se relacionam com seus pares e com sua própria mente. Em cada sábado, um novo tema se apresenta, recheado de emoção e sonho. Acreditamos que a transformação e o desenvolvimento de todos os participantes ocorrem a cada encontro, e isso é extremamente gratificante.
Como foram as iniciativas para que o sonho se concretizasse?
C&P- Houve muito trabalho. Achar um local adequado, escolher palestrantes, eleger temas, comprar a licença para exibir os filmes, contratar secretárias para auxiliar nas inscrições, organizar um cafezinho com pipoca no intervalo... E encontrar parceiros e colaboradores que pudessem oferecer patrocínio para realização da arte gráfica dos cartazes e folders e também para a divulgação.
Todo projeto encontra obstáculos até se firmar. Quais foram as maiores dificuldades?
C&P- Contornarmos as necessidades financeiras para que cada evento ocorresse. Vale lembrar que o C&P é um projeto sem fins lucrativos, a Comissão Organizadora não recebe financeiramente por ele; e todos os palestrantes, mesmos os oriundos de outras cidades, também nada cobram pelo trabalho. Mesmo assim, há custos.
Quais critérios são observados para a escolha de cada filme?
C&P- Priorizamos aqueles que nos falam sobre nosso funcionamento mental e a forma de vivermos nossas relações humanas. Normalmente, os filmes têm uma profundidade significativa, mesmo que não tenham uma linguagem ou formatação complexa. Abordamos vários gêneros, como drama, comédia, romance, suspense, animação, aventura, etc. E é importante frisar que depois de escolhidos, precisamos nos certificar se estão incluídos na listagem de liberação da licença de direitos autorais.
Como vocês veem as perguntas, comentários e interpretações das pessoas presentes?
C&P- Registramos, desde o início, crescente aprofundamento nas questões apresentadas pelo público, o que nos causa muita alegria, porque pensamos ser fruto desta história construída a tantas mãos, e por tantos anos. É muito gratificante quando percebemos a amplitude deste projeto que vai além de apresentar o vértice psicanalítico ao público, ou juntar arte e psicanálise para entender melhor os meandros de nossa mente. Como seres humanos que somos, isso só se tornou possível porque vínculos puderam acontecer: vínculos de amizade entre as pessoas dentro de um ambiente acolhedor. Todos nós esperamos ser bem-vindos dentro de um ambiente mais intimista.
Sabemos que a psicanálise é uma ciência cujo alcance ainda é reduzido em nosso país, se compararmos dados com outros da América do Sul, como a Argentina, por exemplo. A que se atribui isso?
C&P-A psicanálise ainda é uma ciência jovem. Foi em 1900 que Freud publicou ‘A interpretação dos sonhos’, livro que revolucionou as concepções da época, não só sobre o fenômeno do sonhar, mas principalmente sobre o funcionamento e a constituição da mente. Estamos caminhando, com formação de várias Sociedades por este vasto país. Somos 2000 psicanalistas brasileiros com titulação outorgada pela International Psychoanalytic Association, sediada em Londres, instituição essa criada por Freud.
Depois dos dez anos, o que vem pela frente? Alguma inovação à vista?
C&P- Pensamos em ampliar e compor com outras áreas. Por exemplo, convidar historiadores, escritores, artistas para enriquecerem mais o olhar sobre um dado filme, tanto nos comentários e nas discussões, quanto inserindo aquela película também dentro de outros contextos.
Como pretendem celebrar essa data redonda, expressiva - 10 anos?
C&P- Estamos nos preparando para comemorar com muita alegria e entusiasmo. Haverá um bolo, naturalmente (...) Convidamos a atual diretoria de nossa Sociedade para o evento do próximo sábado. Junto ao público, brindaremos com um excelente título - A Chegada. O psicanalista e médico Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro mais uma vez estará conosco comentando o filme, conversando com os presentes(...) Valter Hugo Mãe diz ‘ O paraíso são os outros’ e é só devido à existência do Outro que pudemos chegar até aqui. Queremos registrar nossa gratidão ao público que comparece ao C&P, aos nossos colaboradores, aos nossos parceiros, a todos que vêm ajudando a construir esta linda história.