'O fato de eu não me mexer nunca me pesou'


| Tempo de leitura: 7 min
Agosto de 1994, domingo, noite de lua cheia. A publicitária e psicóloga Mara Gabrilli, então com 26 anos, retornava de Paraty para São Paulo com o namorado e um amigo. Quando passavam pela serra de Taubaté, no trecho da rodovia Osvaldo Cruz conhecido como “Curva da Morte”, o motorista perdeu o controle e o carro caiu em uma ribanceira. Foram 15 metros de queda e capotamentos. 
 
Mara quebrou o pescoço, a quarta e a quinta vértebras cervicais. Ficou tetraplégica e permaneceu cinco meses internada, sendo dois em um respirador artificial. Não se mexeu mais do pescoço para baixo. Ouviu do médico que teria a probabilidade de 1% de recuperação dos movimentos. Há dois anos, comemorou a recuperação parcial de pequenos movimentos nos braços e passou a pilotar a cadeira motorizada que usa para se locomover. 
Mara Gabrilli tornou-se a primeira deputada federal tetraplégica do País. No dia 7 de outubro último, recebeu 6,5 milhões de votos e foi eleita para representar São Paulo no Senado Federal. 
 
Por que decidiu entrar para a política?
Eu comecei minha vida pública na sociedade civil. Sou fundadora de uma ONG, que hoje já tem 20 anos. Depois, fui secretária municipal em São Paulo na gestão do Serra, que era a Secretaria da Pessoa com Deficiência, quando ele foi prefeito. Hoje, são centenas de secretarias como essa pelo Brasil. Também fui vereadora e estou cumprindo o segundo mandato de deputada federal. O trabalho que venho executando teve um impacto muito grande na vida das pessoas. Há 20 anos, o que a gente tinha de políticas de Estado voltadas para a pessoa com deficiência, com doenças raras e para os idosos, era muito incipiente. Quando quebrei o pescoço e fiquei paralisada do pescoço para baixo, comecei a ver como as pessoas com deficiência em nosso País são as mais vulneráveis e acabam vivendo em uma situação bastante trágica. Infelizmente, dos 45 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência, mais de 80% vivem em situação de extrema pobreza. O fato de eu ter tido muitas oportunidades, de ter uma família estruturada e recursos para, mesmo tetraplégica, numa boa situação de saúde e conseguir trabalhar, me trouxe uma inquietação e um desejo de legislar e trabalhar para este público. Entrei na política para defender o direito das pessoas com deficiência. Só que isto me credenciou a defender o direito de todo cidadão.
 
O que os eleitores podem esperar da senadora Mara Gabrilli?
Quero agradecer aos paulistas pela confiança e pelos 6,5 milhões de votos. Recebi 51.767 votos em Franca, cidade que visitei durante a campanha e fui recebida com muito carinho. Uma das minhas primeiras bandeiras, algo que está no meu DNA, é o combate à corrupção. Sou originária de Santo André. Lá, simbolicamente, foi onde tudo começou em matéria de corrupção sistêmica e endêmica. Lá foi o laboratório do Mensalão e do Petrolão. O que aconteceu em Santo André foi um berço de corrupção que, talvez, se tivesse tido mais atenção à época, a gente não teria hoje um Brasil tão avassalado como aconteceu. A corrupção mata porque tira dinheiro da saúde e da educação. O governo do PT em Santo André extorquia empresários de forma truculenta e a minha família foi vítima disto. A prática de extorsão culminou com o assassinato do prefeito Celso Daniel. É um crime que ainda está impune. Isto se multiplicou de tal forma que chegamos na situação atual. Ainda bem que tem uma Lava Jato, que vejo como um divisor de águas. Uma das minhas propostas é levar para o Senado uma comissão permanente de combate à corrupção.
 
A senhora foi uma das primeiras a denunciar os casos de extorsão em Santo André. Temeu pela vida?
Não fiquei com muito medo porque já tinha acontecido o pior, que foi matar o prefeito e eu era a única da família que não trabalhava nos negócios do meu pai. Todos tinham medo de denunciar, mas eu tinha indignação de ver meu pai sendo ameaçado, com arma na cabeça, todo os meses para que ele entregasse o dinheiro. Quatro dias antes do prefeito ser sequestrado, o irmão dele foi na minha casa avisar que o Celso Daniel, bem ciente de todo o esquema de corrupção, acabaria com tudo isto porque tinha sido chamado para fazer o pré-plano de governo do Lula. Acabou sendo brutalmente assassinado logo em seguida. Eu tive ameaças, mas graças a Deus nunca nada aconteceu. Todas as intervenções que fiz na Câmara Federal, sobre este tema, nunca nenhum deles ousou me processar. Quando você fala com verdade e vivencia uma questão, não tem como questionar. Eu sempre denunciei e nem adiantaria me matar porque eu já falei mesmo. Todos os que eu denunciei estão todos presos. Foi um episódio que maculou a cidade de Santo André e o Brasil. 
 
Como uma cidadã que luta pelo combate à corrupção analisa o fato do ex-presidente Lula comandar, de dentro da cadeia, a campanha eleitoral de Fernando Haddad?
É uma vergonha nacional. Uma coisa que muito direciona o meu pensamento e posicionamento é o tanto que eu acredito em exemplos. Sou uma pessoa pública e procuro dar exemplo de ética, de moral e de superação. Eu fico imaginando a criança brasileira, o jovem, o idoso vendo isso. Que tipo de exemplo a gente quer para o Brasil? É tipo o PCC, um presidiário que foi condenado, além de questionar a Justiça de forma desrespeitosa, ainda estampa a cara dele em tudo o que é material de propaganda e faz da cela dele o QG de controle da campanha. Acho isto um exemplo horrível para o povo brasileiro.
 
Sua história de vida é o exemplo de que tudo é possível?
Obrigado por esta pergunta. Além de ter perdido os movimentos do pescoço para baixo quando me acidentei, eu não respirava mais sozinha, eu só respirava com o auxílio de aparelhos, era uma pessoa presa a uma tomada. Por conta disto, eu também não falava mais, não saia som. Eu só me comunicava com auxílio de uma tabela de letras que alguém tinha que apontar as letras. Não existia uma perspectiva de que um dia eu voltaria a respirar sozinha ou a falar. Foi uma mudança de parâmetro tão grande na minha vida. O dia que voltei a respirar e a falar, primeiro, disponibilizei minha voz para dar voz a muitos brasileiros que não têm oportunidade e acesso a nada. Hoje, a voz é minha matéria prima de trabalho. O fato de eu não me mexer nunca me pesou. Nunca sofri por causa disto por conta das oportunidades que sempre tive. Por isto, é que comecei a trabalhar nesta área. Uma oportunidade pode transformar a vida de uma pessoa com deficiência, seja ela qual for. Eu uso minha vida para abrir caminhos e para trazer a melhora da qualidade de vida para as pessoas. Quando a política pública é boa para a pessoa com deficiência, ela é boa para todo mundo. A lei brasileira de inclusão, que tive a oportunidade de relatar, é um marco legal de inclusão das pessoas no País. Ela é tão impactante que mexe na vida de todo cidadão brasileiro.
 
O Brasil tem solução?
Eu me sinto uma vitoriosa, um exemplo a ser seguido de persistência e de fé. Passei 22 anos sendo empurrada, sem nenhum movimento de braço. De dois anos para cá, comecei a pilotar a cadeira. Isto é muito fora da curva. Por conta disto, os centros de reabilitação que frequento passaram a mudar todos os protocolos de atendimento porque sempre se dizia que a pessoa melhora tudo o que tem que melhorar no primeiro ano e depois não melhora mais. Foi tudo muito diferente comigo. Do mesmo jeito que acredito que trabalhando com competência e disciplina um corpo pode melhorar, acredito do mesmo jeito que a vida das pessoas pode melhorar e que o Brasil pode melhorar. O Brasil é um mar de talentos e tem solução. Já estamos em outro patamar após a Lava Jato, fazendo com que muitos reflitam sobre corrupção. Não existe corrupto sem corruptor, é um exame de consciência que tem que ser feito de ponta a ponta.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários