Nesse Brasil variegado, moído, desandado e apartado que nem água e óleo, farinha de mandioca talvez seja um bom assunto. Porque ela, com seu sabor neutro e boa fonte de energia, conseguiu assentar-se na mesa do rico e do pobre sem discriminação territorial. Diz-se que duas colheres de sopa de farinha, na refeição, contribuem sem sobrecarregar demais em calorias. Embora a farinha de mandioca seja a mesma coisa em todo o Brasil, também é verdade que as diversas regiões do país buscaram logo, cada qual, os caprichos identitários – a farinha de mandioca não é idêntica em todos os lugares. Há divergência de granulometria e ponto de torrefação, que identificam não só a unidade produtora, como a consumidora também. Mas basicamente temos dois tipos de farinha que originam os outros subtipos: a farinha seca e a farinha d’água.
Para nós, meio mineiros, a mandioca vira pirão, tapioca e o polvilho do pão de queijo, além da porção frita, sagrada nos cardápios de todos os bares. Mas no Norte e Nordeste do país, a relação é de pão. Talvez as pessoas não se lembrem disso, mas um pedaço de mandioca cozida já foi o ritual de café da manhã de muita gente. Principalmente no Nordeste, quando a dificuldade é imensa o dia inteiro, a farinha de mandioca engrossará o chamado feijão de água grande – quando meia dúzia de grãos boiam numa panela de água quente. Ou comporá o sonhim, a marmita de rapadura e punhado de farinha seca.
Nem da preparação tomamos tento - o hábito de comprar tudo empacotado nos retira a ideia de preparação dos produtos, como se fôssemos frágeis demais para o percurso que se inicia na terra e termina na mesa. Mas as casas de farinha, exceção hoje em dia, foram e são ainda ambientes vivificantes da cultura. Precisa-se de homens fortes para arrancarem a mandioca no roçado. A roda das raspadeiras é o círculo formado por até quinze mulheres sentadas em círculo para rasparem fora a casca preta da mandioca. Um bando de crianças leva e traz mandioca. Uma moça, a cevadeira, se encarrega de abastecer o cilindro que ralará a mandioca e, para a movimentação da roda, destinam-se os músculos mais fortes e fôlegos mais longos. Uma festa dura, que vara a noite e termina com os beijus saindo do forno.
Tudo isso ocorre aqui em cima, bem ao nível dos nossos olhos, mas é embaixo que esse tubérculo espraia.
Percebo essas raízes ancestrais em permanente comunicação, elas entranham o solo e conhecem segredos humanos há tempos descartados. Imagino que ninguém esteja a reclamar paixões a alguns palmos abaixo. Por isso, segue firme nossa Mani Oca, rainha absoluta do Brasil.
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