Há uma semana, 63.089 pessoas, público equivalente ao de um estádio de futebol lotado em dia de jogo de decisão, saíram de suas casas e digitaram o número 22.888 na urna eletrônica. Era o número de Graciela Ambrósio (PR). Só em Franca, foram 50.826 votos. Ninguém foi mais votada do que ela na cidade.
Após ter batido na trave nas eleições de 2010 e 2014, quando ficou na primeira suplência, desta vez o desempenho na urnas possibilitou a Graciela realizar o sonho de ser eleita deputada. Entrou para a história como a primeira mulher representante de Franca na Assembleia Legislativa.
Graciela foi vereadora por três mandatos. Há 29 anos, é a delegada responsável pela DDM (Delegacia de Defesa da Mulher). Na quinta, ela recebeu o Comércio, contou como foi a emoção da vitória e antecipou alguns planos como deputada. Entre uma ordem de prisão e outra, afirmou que entrará com o pedido de aposentadoria e que está com o coração partido por ter que deixar a unidade policial onde passou boa parte da vida. Disse, também, que levará para a Assembleia Legislativa a mesma postura combativa que a notabilizou como vereadora em Franca.
Como descreve a vitória de domingo?
Foi muito emocionante, porque eu já vinha me preparando há algum tempo para sair como candidata. Fomos nos organizando para fazer uma campanha, escolhemos um bom partido e decidimos sair para estadual ao contrário das eleições anteriores, quando sai para federal. Também não quis disputar para prefeito em 2016. A vitória foi a confirmação do nosso trabalho, não só de planejamento da campanha, mas também pela atuação correta durante 32 anos como policial civil e vereadora. A minha eleição representa uma aprovação do povo pelo trabalho realizado durante minha carreira. Sempre me pautei pela ética e honestidade. Agradeço muito os eleitores. É muito gratificante receber esta votação expressiva. Recebi mais de 50 mil votos em Franca, o que me deixou muito orgulhosa. Sou grata a todos pela confiança e pelo carinho.
Já caiu a ficha de que a senhora será representante de Franca na Assembleia Legislativa?
Estou passando pelo processo de entendimento e muito feliz por ter sido escolhida pela população em uma eleição muito difícil e concorrida. Sei da minha responsabilidade de corresponder a toda esta expectativa. Vou trabalhar muito. Quero ser uma deputada diferente e atuante, não apenas mais uma entre os demais. A intenção é estar sempre próxima do povo que me elegeu. Sou de Franca e estarei aqui sempre presente ouvindo as necessidades para contribuir pela melhoria de vida das pessoas.
Durante a apuração dos votos, no domingo, houve problemas em algumas urnas do Estado, o que atrasou a contagem. Embora seu nome estivesse entre os eleitos, a confirmação oficial só aconteceu de madrugada quando o TRE finalizou a totalização dos votos. Como foram aqueles momentos?
Enquanto não tive a certeza que 100% das urnas estavam fechadas, não consegui dormir. Não tinha como, por causa da ansiedade. Só fui conseguir relaxar por volta das duas horas da madrugada, quando a contagem de todos os votos foi encerrada e o TRE confirmou que eu estava eleita.
Qual foi a sensação ao ver o seu nome destacado entre os eleitos após ter batido na trave duas vezes?
Foi um sentimento de realização, de vitória e de confirmação de um trabalho bem feito. Passaram vários filmes pela minha mente de tantas lutas e desafios que enfrentei como policial e como política. Me senti muito realizada, pois obtive o reconhecimento do público. Isto é muito gratificante, fortalece a gente, mas, ao mesmo tempo, sabemos o tamanho da responsabilidade. Estou me preparando para dar uma resposta positiva e cumprir com aquilo a que me propus.
O que representa para a senhora ter sido a primeira mulher de Franca eleita deputada?
É muito gratificante. A mulher está ocupando espaço relevantes, não só na política, mas em setores diversos. É uma honra muito grande poder ser a primeira representante da nossa região na Assembleia Legislativa. Estamos demonstrando que as mulheres são capazes e que precisam ocupar os espaço. Temos um olhar diferente, sabemos trabalhar e não desanimamos diante das dificuldades.
Quando vereadora, a senhora ficou conhecida pela postura combativa. Durante uma sessão, ao ser desafiada pelo então presidente Joaquim Pereira Ribeiro, afirmou que sabia puxar uma arma. A senhora pretende levar a mesma postura para a Assembleia Legislativa?
Sem dúvida nenhuma. Nunca vou me acovardar na defesa daquilo que acho correto, na defesa dos interesses da população. Tenho o perfil de ser combativa e não vou mudar nunca a minha forma de atuação. Farei o que for possível para conseguir os recurso necessários para Franca e região. A minha postura sempre será a mesma. Se for preciso ir ao confronto, nós iremos. Não mediremos esforços para cumprir o mandato da maneira que a população espera.
Na Assembleia, a senhora vai dividir o plenário com delegados, policiais militares e também com a deputada mais votada da história, Janaina Paschoal, que se destacou por ser uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff. São personalidades conhecidas por atuar em prol da segurança pública e no combate à corrupção. A senhora pretende se juntar a este time e formar com eles a “bancada da bala”?
Sem dúvida nenhuma. Este é meu perfil. Sempre atuei neste setor e temos que enfrentar a corrupção e a ladroagem que tomam conta do nosso País. O povo precisa respirar. A política pode funcionar com ética e bem. Para isto, é preciso ter o combate intenso e contínuo da corrupção. Quero participar deste processo, como já faço no meu cotidiano. Isto é necessário para que haja uma limpeza e que a política passe a funcionar com ética e para o bem do povo, não para o bem do próprio político.
A senhora tem uma vida dedicada à DDM. Eleita deputada, vai tirar algumas licenças prêmios acumuladas e dará entrada no pedido de aposentadoria. Como é ter que deixar a Delegacia depois de quase 30 anos de dedicação?
É um momento muito difícil. Dediquei toda a minha vida profissional à DDM. Na delegacia, construi e vivenciei muitas coisas, participei do processo gradativo de conquista das mulheres e acompanhei todos os desafios. Hoje, as mulheres estão melhores protegidas por causa de conquistas, como a Lei Maria da Penha. É doloroso para mim ter que me desligar. Gosto do que faço, gosto de atender as mulheres, as famílias, gosto deste contato com as pessoas. Não trabalho por obrigação, trabalho porque que gosto. Encerro esta etapa da minha vida, mas com a certeza de que, como deputada, vou poder contribuir muito mais, não só para a DDM e para as famílias, mas de forma geral para a cidade, que está precisando muito, por falta de representatividade. Estou emocionada, com o coração partido, mas com a sensação de dever cumprido.
A senhora defende a importância de um trabalho em conjunto com o deputado Roberto Engler, com o prefeito Gilson de Souza, Câmara de Vereadores e com as instituições. Acredita mesmo que a parceria será possível?
O que vemos atualmente é muita picuinha e vaidade. Não podemos mais admitir birrinhas entre nossos representantes, pois a cidade tem perdido muito por causa destas brigas tolas. O momento é de respeito e de união. Estou disposta a atuar em conjunto com todas lideranças para dar as respostas que Franca e região estão precisando.
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