Amor, gratidão e respeito. Essas são as palavras que norteiam a vida da professora aposentada Maria Lídia Borges Machado. Com 75 anos, a idealizadora da ONG Pedra Bruta “Lapidando Talentos”, que realiza grupos de estudos com garotos da periferia de Franca, e também do método de ensino Pluga Cuca, Ligado no Conhecimento, que já beneficiou milhões de aprendizes, nome que ela atribui a todos os seus alunos, é um dos grandes exemplos de pessoas que se dedicam a ajudar o próximo.
Casada com o empresário Darzisio Machado, de 79 anos, Maria Lídia, natural do distrito de Igaçaba, em Pedregulho, se mudou para Franca em 1952 com os pais, ele agricultor e ela dona de casa, e os outros cinco irmãos. Mais velha, foi a única a se interessar por ensinar. Cursou pedagogia na faculdade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto, e desde então, como gosta de reforçar, jamais deixou de estudar. “Me apaixonei por ensinar por causa dos professores que tive. Tantos anos depois ainda lembro o nome e sobrenome de todos e sei que foram os responsáveis por essa minha grande paixão”, disse.
Mãe de três filhos e avó de oito netos, a professora acompanha de perto o trabalho realizado na ONG e também no Pluga Cuca. E, aproveitando que no próximo dia 15 de outubro é comemorado o Dia dos Professores, o Comércio falou com ela que há mais de cinco décadas se dedica ao ensino e já passou por diversas escolas da Rede Pública e Particular de Franca.
Quando decidiu que queria ser professora e fazer do ensino sua profissão?
Acredito que o meu desejo de ensinar foi muito impulsionado pelas professoras que tive. Elas eram muitos boas quanto à metodologia, quanto a ensinar mesmo para aprendermos, quanto ao fato de serem humanas. Na minha época, as professoras batiam nos alunos, tinham varas, mas eu tive sorte de ter pessoas maravilhosas me ensinando. Isso desde o início, na escola no distrito onde nasci, até as professoras daqui de Franca. Elas marcaram a minha vida, lembro de cada uma delas com nome e sobrenome e com certeza esse foi o começo de todo esse amor que tenho por ensinar e compartilhar conhecimento.
Como foi lecionar e acompanhar as mudanças ao longo dos anos na educação?
Minha primeira sala foi na fazenda Caitetu, no município de Ribeirão Corrente. Ali, com 42 alunos de três séries diferentes e recém-formada, já me peguei pensando em como faria para conseguir ensiná-los. Contei com o apoio dos próprios alunos, onde eles ajudavam uns aos outros na leitura, além de usar o método de ensino da pedagoga Maria Montessori, conseguindo bons resultados. A partir de então e ao longo da minha vida de professora, supervisora, coordenadora e diretora, aprendi a observar as dificuldades das salas de aula. O nosso sistema de educação é falido, considero isso, pois trabalhamos salas de aulas com um número de alunos acima da média e eles possuem níveis de aprendizados diferentes. Busquei em todos esses anos uma forma de construção de conhecimento e de chegar a todos esses alunos. Por isso, criei a ONG e o meu método de ensino.
Como nasceu a ONG Pedra Bruta e quantas pessoas já foram beneficiadas com o projeto que, em 2019, completa 10 anos?
Fundei a ONG para que eu pudesse dar continuidade às minhas ideias depois que me aposentei. Antes, em 1998, juntei meu neto mais velho e outros quatro estudantes para fazer um projeto de estudos ao longo de alguns anos, a partir da 5ª série até o fim do Ensino Médio. No início, o grupo se reunia todas as quartas-feiras na minha casa e estudavam matemática por duas horas, sempre auxiliados por um professor. Todos acabaram aprovados em universidades públicas e, com o sucesso dos meus aprendizes, como gosto de chamá-los, pois estamos sempre em aprendizado, decidi ampliar o projeto e, em 2009, com o apoio de muitos parceiros, como funciona até hoje, nasceu a ONG Pedra Bruta, Lapidando Talentos. Hoje temos 117 alunos, que sempre começam a estudar conosco a partir do 6º ano e têm aulas de matemática, língua portuguesa e literatura, inglês instrumental e informática. Além dos atuais aprendizes já formamos outros 21. O foco que damos na matemática é por que hoje, de 100 alunos que saem da escola, apenas 4 aprenderam de fato a matéria.
Como surgiu o método de ensino Pluga Cuca e como ele funciona?
É um método online e totalmente gratuito que já foi utilizado e ainda é por milhões de pessoas em todos os continentes do nosso planeta. São aulas de matemática e língua portuguesa com monitoria online. Com ele buscamos romper os velhos paradigmas no processo de ensinar e aprender das pessoas. O aprendiz consegue ver onde o ensino dele foi deficiente e retomar isso, assim conseguimos dar importância na busca dele da sua própria identidade sempre utilizando a internet como ferramenta. Qualquer pessoa pode utilizar e temos relatos até de chineses que aprenderam português com a ferramenta. Trabalhei neste método ao longo da minha vida e o lancei oficialmente em 2009. Conto com o apoio de vários professores, todos remunerados, e também com vários voluntários, tanto no Pluga Cuca como na ONG, além de empresas e empresários que ajudam a manter os projetos funcionando.
Qual a importância da educação de uma forma geral para o desenvolvimento de uma pessoa?
Discutimos na ONG como o ser humano precisa trabalhar suas habilidades humanas para que ele possa enfrentar todas as adversidades que passar. E é só através do debate que isso pode acontecer. O lema da nossa ONG é amor e gratidão e a palavra mágica é respeito, ensinamos aos nossos aprendizes isso trabalhando a ética, moralidade e cidadania. Quando a escola ensina esses pré-requisitos vemos a educação sendo primordial para o desenvolvimento da pessoa. Temos que ensinar as pessoas a discutir e provocar discussões, mas com nível de ética e moralidade sempre com tudo embasado no respeito.
Recentemente acompanhamos uma polêmica envolvendo a Escola Estadual “Homero Alves” depois que cartazes de um trabalho sobre preconceito foi exposto nos corredores da unidade. O que a senhora acha disso?
É um assunto polêmico e difícil de ser considerado, mas vejo que religião, política e educação sexual é responsabilidade da família. Ao menos no meu entendimento. O que a escola pode fazer não é interferir, mas fazer uma inferência quando necessário, por que na escola acontece de tudo. E, se for necessário fazer algo, que seja com o consentimento dos pais. Família e escola devem ser aliadas em todos os quesitos. Os pais devem estar sempre presentes na escola e acompanhar o desenvolvimento dos seus filhos.
A senhora acaba de ganhar o Título de Cidadã Francana. Como se sentiu ao receber esta homenagem?
Sempre achei que deveria fazer a minha obrigação e tudo o que faço é agradável pra mim e não é nenhum sacrifício. Fico muito feliz, pois o pastor Otávio Pinheiro (vereador responsável por solicitar a homenagem), na verdade, teve um olhar para os meus projetos. Fiquei extremamente honrada em ver a Câmara Municipal lotada no dia da homenagem. Além do trabalho que faço na ONG e no Pluga Cuca, participo ainda do movimento Mulheres do Brasil, núcleo de Franca, onde em um dos braços da iniciativa, o Verdejar, já plantamos 1.060 árvores na cidade e temos o objetivo de chegar até 1 milhão. Então, estar ali recebendo o título, junto a minha família e meus amigos, foi extremamente prazeroso.
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