Dos 72 anos de vida, 52 deles têm sido dedicados à música. Antônio Pecci Filho, ou simplesmente Toquinho, tem aproveitado esse tempo e a carreira da melhor forma possível. Seja na música popular brasileira ou nas canções infantis, ele se reinventa a cada nova composição e a cada disco lançado.
Além do talento para a música, Toquinho também é um pensador. É capaz de falar sobre vários assuntos de forma profunda. Entre eles, música, evidentemente, e política. Diz ser um otimista em relação ao Brasil e ao que está por vir, mas já afirmou que, antes disso, o povo precisa saber votar para cobrar seus governantes. “Precisamos de reforma política e mudança nas leis de forma imediata. Ninguém fez isso até agora porque teria de mexer com muita gente. Quem chegar agora terá de limpar o banheiro”, disse.
Entre um acorde e outro em seu violão, durante a passagem de som, Toquinho recebeu a reportagem do Comércio na 6ª Feira do Livro, na última quinta-feira. Ele se apresentou com o músico Diego Figueiredo, a quem chamou de “ás do violão”, e falou um pouco de sua trajetória.
Como é poder comemorar mais de 50 anos de carreira?
Não gosto muito de celebrar... É tudo a mesma coisa os 50, 51 ou 52 anos de carreira. Algumas pessoas quererem celebrar é algo mais comercial. Mas eu continuo do mesmo jeito nos sons e em tudo. Não vi diferença nos 45, 47, 52. É uma continuação da vida.
Em todos esses anos, o que buscou trazer às pessoas com sua música?
Procurei manter um nível musical e fazer algo que pudesse acrescentar alguma coisa para as crianças e adultos. Foi e é uma satisfação artística minha. No fundo, é uma busca pela perfeição musical, que é uma meta de todo artista e que não existe. Tentei e tento fazer sempre o que posso. Estudo violão todos os dias e faço os melhores arranjos que posso. Em cada época que passei, fiz o melhor e continuo fazendo.
Ao longo de sua carreira, você produziu muito material solo e em conjunto com outros músicos. Entre eles, Chico Buarque, Vitor Martins e um parceiro de longa data, Vinícius de Morais. Como foi esse período e 28 discos produzidos com Vinícius?
Foi uma fase extensa de dez anos. Fizemos mais de mil shows, quase 30 discos e mais de 130 canções. Não senti isso sendo feito. Era tudo tão natural. A vida e a amizade vinham sempre antes do trabalho, que era uma consequência disso tudo. Era uma consequência do almoço, do jantar, das viagens... Sempre misturei muitas coisas da minha vida pessoal, as prazerosas, com meu trabalho. Todos esses parceiros que passaram me ensinaram muito e fizemos dessa forma. Com o Vinícius, por exemplo, não sentávamos e falávamos “olha, vamos fazer um disco”. Fluia naturalmente, assim como estamos conversando aqui. Há sim as dificuldades, como em toda carreira, mas fica tudo bem depois. A vida é muito chata, mas te dá oportunidades se você souber usá-las.
Além do vasto repertório, você criou músicas voltadas para as crianças. O que lhe despertou para esse lado?
Foi justamente o Vinícius quem me despertou esse lado. Ele era muito mais jovem que eu em várias coisas e, até então, eu nunca havia pensado em fazer música infantil. Ele começou nesse segmento com o livro Arca de Noé e eu comecei a musicar. Peguei gosto e descobri uma veia para fazer isso. Acho que consegui fazer um trabalho bonito e sólido. As crianças vêm até mim e eu descubro que elas ainda ouvem essas canções de 35 anos atrás. É isso que o autor quer. É gratificante ver isso e todo o carinho. Percebo que tudo valeu a pena.
Como é, para você, estar em parceria com o Diego Figueiredo e poder se apresentar em uma Feira do Livro diante de fãs de todas as idades?
É um público totalmente heterogêneo e é bom ver isso. O povo vem e curte. O artista tem mesmo de ir onde o povo está. Além disso, o Diego é um excelente guitarrista. Tocar com ele é um grande prazer. É um “ás” no violão. Pega tudo muito fácil e a música flui. Você tocar com um grande músico é sempre uma diversão.
Você vivenciou um período difícil para o Brasil, a ditadura militar. Como foram esses anos? A repressão investigava você? Como era fazer música em tempos tão complicados?
A ditadura foi um período muito forte. Matavam e prendiam pessoas. Foi muito ruim para todos nós. Viemos de uma geração anterior à ditadura e tivemos de ser um pouco mais criativos para dizer o que queríamos. Não dava para falar claramente. Incentiva, sim, uma criatividade. O próprio Chico Buarque foi alguém que criou muito nessa época. Ele tinha de achar saídas. É bom ter um incentivo, mas esse tipo, como da ditadura, melhor não. (risos)
As eleições estão se aproximando e, com isso, um receio do que está por vir e de como o novo governante vai agir para mudar a situação. Qual sua opinião a respeito disso?
Não acredito que o povo irá saber votar nessas eleições. O Tiririca (PR), por exemplo, está ganhando. Ele saiu e está voltando só para ganhar dinheiro. Por que? O Aécio Neves (PSDB) está com votação grande. Você vê que o eleitor continua no mesmo passo retrógrado de anos atrás. Então temos de saber que os políticos são ruins, mas os eleitores são piores. Acho que o brasileiro ainda não sabe votar. O País andou para trás nesses últimos 25 anos. Não dá para continuar como está. Mas sou muito otimista em relação ao futuro do Brasil. Pouco tempo atrás, um grande empresário foi preso e ficou encarcerado. Grandes figuras da política estão presas. Até um ex-presidente. Quando isso aconteceu? Nunca. Se a gente está vendo que o Brasil tem uma corrupção de anos e, pela primeira vez, está combatendo isso, é evidente que temos de dar graças a Deus que isso está acontecendo. Não sei se dias negros virão, mas acho que a tendência é o povo criar uma consciência no futuro.
Descendente de italianos, você viveu na Itália por um período e conheceu várias culturas e situações econômicas e políticas distintas do Brasil. O que temos de bonito e que te motiva a continuar aqui? O que precisa ser mudado?
Às vezes dá sim vontade de ir embora (risos). Com todo esse cinismo político e as pessoas falando as mesmas coisas, com políticos mentirosos, dá um desânimo. A gente não merece os políticos que temos. Acho que estamos vivendo um problema sério mesmo, um fundo de poço. Está difícil de viver aqui. Mas não vai adiantar ir embora. O Brasil é maravilhoso, grande, de muitas riquezas. Apesar de termos um povo que não sabe votar, é bom e solidário. Dá para ter esperanças com o Brasil e a tendência é ter uma grande reformulação aqui. De um jeito ou de outro, para melhor ou para pior, vamos mudar.
Já são pelo menos 80 discos, mais de 8 mil shows pelo Brasil e pelo mundo e pelo menos 450 composições. O que mais vem por aí?
Minha vida. Só de acordar no dia seguinte me sinto feliz. O que vem: trabalhos, discos, amizades, namoros, futebol, sinuca, violão, shows... A vida é feita passo-a-passo e tem sempre de olhar e andar para frente, não por aqueles que estão atrás, mas pelo que está por vir. Não podemos parar.
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