Se há algo no governo Michel Temer (MDB) que merece reconhecimento são as tentativas de sua equipe econômica para evitar que o País pare ou - pior - retroceda ainda mais. Após a liberação do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) inativo, de cotas do PIS/Pasep a beneficiários com menos de 60 anos, entre outras medidas tomadas nos últimos dois anos para fazer com o dinheiro circule, começou a vigorar nesta semana a autorização para que os recursos do FGTS sejam usados como garantia para empréstimos consignados. Apesar deste último artifício para estimular a economia estar previsto em lei de julho de 2016, quando Temer ainda era o presidente em exercício - Dilma Rousseff (PT) não havia sido afastada definitivamente -, a medida foi tema de cerimônia no Palácio do Planalto na última quarta-feira, com a presença do presidente da República.
Como as parcelas são descontadas diretamente do salário do trabalhador, o consignado é um tipo de empréstimo que costuma cobrar taxas de juros menores. A legislação sobre o consignado com o FGTS determina que o trabalhador interessado ofereça como garantia o dinheiro que está parado no fundo: são 10% do saldo mais toda a multa de 40% em caso de demissão. A quantia ficará separada na conta do Fundo de Garantia do trabalhador até que o empréstimo seja quitado, mas continuará a render normalmente. Esse tipo de empréstimo já está disponível a 36,9 milhões de trabalhadores na Caixa. Segundo o governo, bancos públicos e privados também podem oferecer a linha de crédito. A esperança de Temer e sua equipe é que o trabalhador, com crédito mais fácil e mais barato, recorra ao consignado para quitar dívidas ou fazer compras e, assim, a engrenagem da economia não pare de rodar, ainda que muito lentamente.
De acordo com projeção do Banco Central, divulgada nessa quinta-feira, esse ritmo vem diminuindo. No segundo trimestre deste ano, a recuperação econômica perdeu fôlego e ainda teve a paralisação dos caminhoneiros. Descrente, o BC voltou a revisar para baixo sua projeção para a alta do PIB (Produto Interno Bruto) de 2018, de 1,6% para 1,4%. Um dos itens que compõem as estimativas é o consumo das famílias, cuja expectativa de crescimento caiu de 2,1% para 1,8%. A culpa para a queda na projeção está no alto índice de desempregados, decorrente da vagarosa retomada do mercado de trabalho, que derrubou a confiança dos consumidores.
E são exatamente os consumidores a ponta final da cadeia econômica. Sem trabalho e sem dinheiro, não há confiança e, muito menos, consumo. Ao liberar à população dinheiro parado e crédito mais acessível, Temer não tira o País do caos, mas, pelo menos, colabora para que a crise não seja ainda mais aguda.
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