‘Foi há um ano e cinco meses, no dia 29 de abril de 2017, um sábado. Despedi da minha filha pensando que seria um ‘até logo’ ao sair com meu marido e meu filho mais velho. Ficaram ela e minha outra filha. Mas, quando voltei, a casa já estava cheia de bombeiros e pessoas. Imaginei que fosse um incêndio. Quando perguntei, ninguém teve coragem de me dizer. Ela já estava morta. Havia se enforcado no banheiro dos fundos da minha casa. Você não acredita. Cai do chão. É uma tempestade que demora muito tempo para passar.” No último domingo, a psicóloga Andréa Vaz Magalhães, 44, emocionou Franca ao contar, nas páginas deste Comércio, a história de sua filha caçula, Bianca, e dela própria também. A estudante cometeu suicídio em um banheiro na edícula da casa em que moravam.
Como forma de conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio, foi instituído o “Setembro Amarelo”. Na semana passada, como parte das ações dentro do mês, o Ministério da Saúde divulgou dados nacionais sobre tentativas e mortes por suicídio. Entre 2007 e 2016, foram registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) 106.374 óbitos por suicídio. Em 2016, a taxa chegou a 5,8 por 100 mil habitantes, com a notificação de 11.433 mortes por essa causa. “O suicídio é um fenômeno complexo e multifacetado, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, classes sociais, idades, orientações sexuais e identidades de gênero. Dentre as intervenções universais de prevenção do suicídio, destacam-se as relativas à restrição aos meios de suicídio (controle de armas de fogo e de acesso a agrotóxicos), a redução do uso prejudicial de álcool e outras drogas e a conscientização da mídia para comunicação responsável sobre o tema”, observa o órgão federal.
Bianca ainda não faz parte dessa triste estatística, que começou a ser levantada há onze anos. Mas de acordo com sua mãe, os índices são altos há muito tempo. “Na época da faculdade, meu trabalho de conclusão de curso foi sobre isso. Há 21 anos, já havia alto índice de suicídio. Era um tema que me interessava muito para entender as pessoas e ajudá-las.” De lá para cá, a situação foi agravada pelo avanço da tecnologia. Andréa, em seu depoimento na semana passada, chamou atenção para a mudança de comportamento da sociedade, graças ao advento tecnológico. “É comprovado que a tecnologia vicia tanto quanto a cocaína. Assim como a droga, a tecnologia tira a pessoa do convívio social. E fica esse vazio que está tão alarmante hoje. É um alerta que precisa ser dado: precisa-se ter equilíbrio no uso da tecnologia.”
A coragem de Andréa surpreendeu a muitos ao lançar luz a um assunto, até pouco tempo, tabu na sociedade brasileira. Mas o entendimento hoje é outro. É preciso debater as causas que levam uma pessoa a tirar a prova vida, como forma de, justamente, preservá-la.
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