Com um sorriso sereno no canto dos lábios e fala pausada, a psicóloga Andréa Vaz Magalhães começou a falar sobre a profissão que escolheu há duas décadas. Hoje ela tem 44 anos, é casada e mãe de dois estudantes, de 18 e 19 anos.
Assim como diversas mães, Andréa sempre foi preocupada com a educação e bem-estar dos filhos. Tudo transcorria bem na família até abril do ano passado, quando a filha caçula, Bianca, cometeu suicídio em um banheiro na edícula da casa em que moravam.
A estudante tinha apenas 14 anos. Enquanto tentava superar a dor da perda de um ente querido, Andréa, o marido e os filhos se uniram ainda mais e ela decidiu usar a própria dor para ajudar outras pessoas. Além dos atendimentos em seu consultório, a psicóloga faz palestras em Franca sobre a importância de estar sempre em contato com outras pessoas, como seguir mesmo após uma situação difícil e, acima de tudo, sobre a vida.
O começo
“Na época da faculdade, meu trabalho de conclusão de curso foi sobre isso. Há 21 anos, já havia alto índice de suicídio. Era um tema que me interessava muito para entender as pessoas e ajudá-las. Desde então, acompanho famílias, faço palestras e atendo pacientes. Ultimamente, a maioria deles, sejam crianças, jovens, adultos e idosos, fala sobre um vazio que sentem. Estudos mostram que houve um aumentou de 40% nas tentativas e suicídios de jovens. Isso coincide com o aumento da tecnologia, que é mal usada.”
A tecnologia
“A Bianca tinha 14 anos quando morreu. Mesmo sendo muito ativa e comunicativa, ela ficava muito no celular. Eu falava para sair, conversava, mas fui vendo que isso foi aumentando. Se você tira de vez o celular do adolescente, é pior. Minha forma de trabalhar foi conversando para que isso acontecesse de forma natural. Enchia a Bianca de atividades e leitura. Mas vi o quanto eram viciantes as redes sociais, as séries... É comprovado que a tecnologia vicia tanto quanto a cocaína. Assim como a droga, a tecnologia tira a pessoa do convívio social. E fica esse vazio que está tão alarmante hoje. É um alerta que precisa ser dado: precisa-se ter equilíbrio no uso da tecnologia.”
A filha
“Muitos disseram que ela era a última pessoa que eles pensavam que fosse acontecer algo assim. Era alegre, tinha diálogo e abertura em casa, muito ativa e com muitos amigos. Mas há uma estatística de que 10% das pessoas não dão indícios de que possuem tendências suicidas. Geralmente, um dos primeiros sinais aparecem na escola: mudanças nas atitudes, nas notas, no comportamento. Ela não teve nada disso. Pelo contrário. Minha filha entra nesses 10%. De repente, sem nenhum sinal, sem deixar nada que explicasse, ela fez isso.”
A morte
“Foi há um ano e cinco meses, no dia 29 de abril de 2017, um sábado. Despedi da minha filha pensando que seria um ‘até logo’ ao sair com meu marido e meu filho mais velho. Ficaram ela e minha outra filha. Mas, quando voltei, a casa já estava cheia de bombeiros e pessoas. Imaginei que fosse um incêndio. Quando perguntei, ninguém teve coragem de me dizer. Ela já estava morta. Havia se enforcado no banheiro dos fundos da minha casa. Você não acredita. Cai do chão. É uma tempestade que demora muito tempo para passar.”
O luto
“Demorei seis meses para elaborar meu luto e, todo dia, faço isso. Desde o começo, usei uma experiência que aprendi: agradecer. Além da fé, isso me ajudou muito. Depois que passou o choque, agradeci pelo tempo. Foram 14 anos e 7 meses que vivi com a Bianca. Se formos pensar, temos muito mais coisas boas para lembrar, mesmo que o fim tenha sido tão triste. As lembranças boas são maiores e isso vai dando força para acreditar que foi valioso. Outra coisa que ajudou foi falar com a dor e não guardá-la. Todos os momentos em que tive vontade de chorar, chorei.”
A superação
“Todos os dias eu tomo a decisão de continuar com minha vida. Sigo pelos meus filhos, por mim e por meu marido. Claro que vieram muitos questionamentos de como eu continuaria fazendo prevenção ao suicídio e promoção à vida sendo que, na minha família, alguém cometeu. Mas vi uma necessidade ainda maior de ajudar as pessoas. Mesmo ela tendo família e amigos, e todas as possibilidades de ser ajudada, aconteceu isso. Então eu precisava continuar. Ajudar outras mães, em palestras e nas escolas, tem me ajudado a superar.”
A vida
“É preciso valorizá-la. Falo muito disso nas palestras, assim como sobre minha superação. É necessário viver intensamente e estou entendendo mais do que nunca o que essas pessoas sofrem. Eu já compreendia, mas agora muito mais porque vivi essa dor de forma muito mais intensa. Com isso, muita gente que assiste às minhas palestras vem falar comigo que, ouvindo tudo, conseguiu forças para lutar contra essa vontade de tirar a vida. É o que mais tenho ouvido de jovens, adultos e idosos. Não me envergonho de chorar em algumas palestras e falar sobre tudo. O ser humano tem sede dessa verdade. De sentir.”
A mensagem
“Aconselho que se converse abertamente sobre isso, falar diretamente, e não censurar. É preciso buscar ajuda junto. Muitos pais morrem quando seus filhos cometem suicídio. Deixam de fazer as coisas, deixam de viver e ficam se perguntando. O que mais adoece os sobreviventes são justamente esses questionamentos. A maioria sente muita culpa. Não é possível cuidar de alguém 24 horas por dia. Nós pais, fazemos tudo que está ao nosso alcance para nossos filhos. É preciso pensar nisso. Esses questionamentos ferem, doem. Ou você fica pensando nisso ou pensa que fez o que pôde. Sinceramente, como mãe, sei que fiz o que pude e penso sempre nos bons momentos que tive com minha filha.”
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